Yes, nós temos musicais

Com mais de 20 estreias, entre as quais há contos da Disney, sucessos da Broadway e biografias de ídolos nacionais, o ano de 2018 dá provas do amadurecimento do Brasil neste gênero teatral

Les Misérables foi uma das grandes produções que esteve em São Paulo em 2017 | Foto: Marcos Mesquita/T4F

Les Misérables foi uma das grandes produções que esteve em São Paulo em 2017 | Foto: Marcos Mesquita/T4F

O ano começa com estreias das superproduções A Pequena Sereia e Peter Pan e o anúncio de novas montagens de O Fantasma da Ópera, Annie, A Noviça Rebelde e West Side Story. Há também musicais nacionais que rendem homenagens a ídolos e personalidades como Ayrton Senna, Bibi Ferreira, Milton Nascimento e Sérgio Reis. São cerca de 20 novos espetáculos confirmados para 2018 no Rio de Janeiro e em São Paulo. Essa notícia é um alívio após um ano em que o setor de cultura viu os patrocínios minguarem, como reflexo da crise econômica.

“Nas últimas três edições do Prêmio Bibi Ferreira, tivemos um número constante de 24 produções concorrendo”, conta Marllos Silva, realizador do concurso especializado em reconhecer talentos do teatro musical no Brasil. “Entretanto, percebemos que, cada vez mais, há espetáculos em cartaz por mais de um ano ou retornando para novas temporadas — e eles não concorrem ao Prêmio — então o número de produções em cartaz por ano facilmente alcança 30.”

Segundo um levantamento feito pela produtora Bravart Entretenimento, o público de musicais gira em torno de 1,1 milhão de pessoas por ano, com uma ocupação média de 70% nas sessões (dados de 2015). São Paulo e Rio despontam como as capitais dos musicais, mas a análise mostrou o crescimento da importância das turnês, especialmente nas cidades de Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e Recife.

“Hoje existe claramente um público que gosta de musicais e costuma ir pelo menos duas vezes por ano assistir a espetáculos do gênero”, comenta Stephanie Mayorkis, diretora da IMM, empresa que comprou da Disney os direitos para a produção do musical A Pequena Sereia no Brasil. “É lógico que ainda não é um mercado com a atratividade turística de Nova York ou Londres, o que impede que as produções tenham temporadas muito longas, mas podemos dizer que São Paulo tornou-se um importante mercado para musicais mundialmente.”

 

O público dos musicais gira em torno de 1,1 milhão de pessoas por ano, segundo pesquisa da Bravart Entretenimento

 

Há cerca de dois anos, em julho de 2016, produtores e artistas do teatro musical nacional reuniram-se para criar a Associação dos Produtores de Teatro Musical (APTM). Inspirada na Broadway League, a poderosa associação dos produtores e donos de teatro de Nova York, a nova entidade surgiu para catalisar o gênero que, nas duas últimas décadas, tornou-se um mercado consolidado, em constante evolução e transformação. “Temos plena consciência da importância do teatro musical brasileiro, não só do ponto de vista cultural, mas principalmente do social”, afirma o maestro Fábio Oliveira, presidente da APTM.

Segundo ele, a indústria do musical gera anualmente 5.000 empregos diretos, somente no eixo Rio-São Paulo, e provavelmente uma quantidade igual de empregos indiretos, em turismo, transporte, mídia, entre outros. Embora haja quem enxergue os musicais como predadores no meio cultural, dado sua atratividade a empresas que investem via lei de incentivo, a APTM apresenta um outro lado da moeda: “Somos uma grande fonte geradora de impostos: o dinheiro aportado na forma de patrocínio retorna aos cofres públicos por meio de impostos, uma vez que cada centavo utilizado nos projetos necessita obrigatoriamente de uma nota fiscal ou recibo”, explica Oliveira.

A atriz Danielle Winits estrelou o musical Chicago na fase de formação do teatro de musicais no Brasil | Foto: João Caldas/T4F

A atriz Danielle Winits estrelou o musical Chicago na fase de formação do teatro de musicais no Brasil | Foto: João Caldas/T4F

Passado recente
O teatro musical nacional tem uma tradição respeitável, que remonta aos anos 1850 no Rio de Janeiro, com o gênero “teatro de revista” e suas representações bem-humoradas do que acontecia no País. Também tiveram importância as peças de caráter político, como Roda Viva e Ópera do Malandro, compostas por Chico Buarque.
Algumas montagens de musicais da Broadway aconteceram entre os anos 1960 e 1980 – com destaque para a versão e adaptação para o português de My Fair Lady, interpretada por Bibi Ferreira e Paulo Autran, em 1962. Contudo, produzir musicais no Brasil não era um trabalho fácil. Faltavam artistas, músicos, técnicos e teatros qualificados. Os patrocínios eram ainda algo incipiente. Com a criação da Lei Rouanet, em 1996, as coisas começaram a mudar.

As peças que marcam o novo momento dos musicais no Brasil, voltado a produções grandiosas, são Rent (1991), Beijo da Mulher Aranha (2000), Les Misérables (2001), Chicago (2004) e O Fantasma da Ópera (2015). Entre elas, Les Misérables foi superlativa: com um orçamento estimado em 8 milhões de reais, ficou 19 meses em temporada, recebeu um público de cerca de 600 mil pessoas e atraiu uma grande quantidade de profissionais estrangeiros, que ajudaram a formar uma legião de novos profissionais, entre cantores, técnicos, roteiristas, compositores etc.

 

Nas audições para o musical Peter Pan, 4.000 candidatos disputaram vagas num elenco de 29 atores e 17 músicos

 

Nesse resgate histórico, artistas de televisão conhecidos – como Miguel Falabella, Claudia Raia, Danielle Winits, Daniel Boaventura e Christiane Torloni – tiveram um papel fundamental, atraindo público para os musicais. Hoje, há uma geração de atores e atrizes de musical que se tornaram conhecidos por suas participações sucessivas neste tipo de espetáculo. Um dos maiores nomes dessa geração é Kiara Sasso, protagonista de A Bela e a Fera, O Fantasma da Ópera, Miss Saigon, A Noviça Rebelde, Mamma Mia!, Hair, New York New York e outros.

Nas audições para Peter Pan, 4.000 candidatos disputaram vagas num elenco de 29 atores e 17 músicos. “Tenho muito orgulho do processo de desenvolvimento que o teatro musical no Brasil vem passando”, diz Stephanie Mayorkis, coprodutora de “A Pequena Sereia” no País. “Investimos na formação de plateia e temos grandes talentos no Brasil, assim como músicos, equipes criativas e técnicos capacitados.”

 

“Espero que as pessoas curtam ver A Pequena Sereia, assim como eu estou curtindo fazer”
Tiago Abravanel

 

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MUSICAIS PARA TODOS OS GOSTOS
Com estreias concentradas no eixo Rio-São Paulo, eis alguns dos destaques previstos para 2018:

SÃO PAULO

A Noviça Rebelde
A história da família Von Trapp, imortalizada no cinema com o filme estrelado por Julie Andrews, já teve temporada de sucesso no Brasil há dez anos e será remontada a partir de 4 de abril, no Teatro Renault. A produção é da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho em parceria com o Atelier de Cultura. No elenco, Malu Rodrigues, Larissa Manoela e Gabriel Braga Nunes.

Annie
Miguel Falabella dirige o musical vencedor do Tony Award de 1977, que conta a história de uma jovem órfã. A produção chega em 29 de agosto a São Paulo, no Teatro Santander. Produção do Atelier de Cultura.

Ayrton Senna
A trajetória do piloto Ayrton Senna é recontada em megaprodução, com efeitos de luz e elementos circenses. Esteve no Rio em 2017 e chegou a São Paulo, no Teatro Sérgio Cardoso, em 16 de março. Produzido pela Aventura Entretenimento, em parceria com a família Senna.

Coração Estradeiro
Leo Chaves, da dupla Victor e Leo, interpreta o ícone da música brasileira Sérgio Reis em Coração Estradeiro – O Musical, que terá direção de Ricardo Fábio e Márcio Macena. A estreia está prevista para o segundo semestre na capital paulista.

Musical Popular Brasileiro
Com direção de Jarbas Homem de Mello, o espetáculo fala sobre a montagem de um musical para impressionar um grupo de investidores estrangeiros. Assim, propõe uma visita ao Brasil com nossas canções e muito humor. Em sua segunda temporada, tem Adriana Lessa e Érico Brás no elenco. Estreou em 2 de março, no Teatro das Artes, São Paulo.

O Fantasma da Ópera
Sucesso de Andrew Lloyd Webber, já visto por mais de 140 milhões de pessoas no mundo, o musical entra em cartaz no Teatro Renault em 2018, ainda sem data definida. Uma produção da Time For Fun.

Os Produtores
Estreia em 19 de abril no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, dirigido e estrelado por Miguel Falabella, ao lado de Daniele Winits e Marco Luque. O espetáculo, que fez sua estreia na Broadway em 2001, satiriza o universo do show business.

Peter Pan
Com efeitos especiais e voos, a história do menino que não queria crescer é encenada por Daniel Boaventura (Capitão Gancho e Sr. Darling), Bianca Tadini (Wendy) e Mateus Ribeiro (Peter Pan). Na direção, José Possi Neto. A partir de 8 de março no Teatro Alfa, São Paulo.

Se Meu Apartamento Falasse
O musical conta a história de um funcionário de uma companhia de seguros que empresta seu apartamento para encontros de colegas em troca de vantagens na empresa. Chega em 21 de janeiro ao Teatro Santander. A produção é de Charles Möeller e Claudio Botelho. No elenco, Marcelo Médici, Malu Rodrigues, Marcos Pasquim e Maria Clara Gueiros.

RIO DE JANEIRO

American Idiot
O espetáculo, embalado por canções da banda Green Day, estreia no segundo semestre, com direção de Mauro Mendonça Filho e produção da Fábula Entretenimento. Thiago Fragoso, Di Ferrero, Yasmin Gomlevsky e Thais Piza são alguns dos nomes no elenco.

Clube da Esquina – Os Sonhos Não Envelhecem
O movimento musical mineiro, que reuniu nomes como Milton Nascimento, Flávio Venturini e os irmãos Lô e Márcio Borges, ganhará uma adaptação para os palcos, sob a batuta de Eduardo Rieche, com direção de Dennis Carvalho. A previsão é que a temporada comece no segundo semestre, sem local e elenco definidos.

Company
O musical, adaptado da Broadway, ganhará uma versão brasileira no segundo semestre de 2018, com direção de João Fonseca. O ator Reiner Tenente, que atuou em Cantando na Chuva, está confirmado no elenco.

Lava Jato
A política nacional recente e a polarização social inspiraram o ator e produtor Judson Feitosa a produzir o musical Lava Jato, que estreia no segundo semestre, sem local definido.

Romeu e Julieta
O romance de Shakespeare é contado por meio de 25 músicas do repertório de Marisa Monte, com direção é de Guilherme Lema Garcia e a produção, da Aventura Entretenimento. Estreou em 9 de março, no Teatro Riachuelo.

West Side Story
O sucesso da Broadway fez história, na década de 60, com uma releitura de Romeu e Julieta. Em setembro, terá montagem no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com direção da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho.

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Tiago Abravanel ensaia passos de dança de seu personagem Sebastião | Foto: Caio Gallucci

Tiago Abravanel ensaia passos de dança de seu personagem Sebastião | Foto: Caio Gallucci

PEQUENA SEREIA COM GINGA BRASILEIRA 

“Sebastião foi inspirado em um caranguejo que, no desenho A Pequena Sereia, tem um leve sotaque jamaicano, para trazer a musicalidade caribenha”, conta o ator Tiago Abravanel, que interpreta o simpático amigo da princesa dos mares Ariel. “Para a adaptação brasileira, a gente buscou no Nordeste algumas referências, incorporando gírias da Bahia e do Ceará.”Foi um trabalho desafiador e cuidadoso. Afinal, é a primeira vez que a Disney autoriza uma montagem no País sem obrigação de ser uma réplica da superprodução americana, que estreou na Broadway em 2008. O musical repete o sucesso do filme, lançado em 1989, cuja trilha sonora foi vencedora do Oscar, do Globo de Ouro e também do Grammy, com a canção Under the Sea.

A Pequena Sereia terá sua primeira montagem no Brasil a partir de 30 de março, no teatro Santander, em São Paulo. A diretora e coreógrafa americana Lynne Kurdziel-Formato, que já esteve à frente de diversos musicais no mundo, assina a versão nacional, buscando atrair tanto o público que guarda o desenho em sua memória afetiva quanto as novas gerações. O espetáculo terá 33 atores em cena e 12 músicos – um elenco escolhido por meio de audições com mais de 2.000 inscritos. Ao lado de Tiago Abravanel como Sebastião, Fabi Bang interpreta Ariel, Rodrigo Negrini faz o príncipe Eric e Andrezza Massei é a bruxa Úrsula. Em seu primeiro trabalho no Brasil, Lynne se diz encantada com a qualidade dos atores brasileiros: “Eles são extremamente talentosos e criativos. Entregam-se com paixão às cenas, totalmente abertos a tudo que propusemos.”

Tiago Abravanel conta que o trabalho mais complexo foi o desenvolvimento dos personagens. “Sebastião exige muito preparo físico e alcança uma extensão vocal gigantesca, com momentos bem graves e outros muito agudos. Fora sua personalidade, ora carrancudo e mandão, ora sensível e muito divertido.”

A preparação física e vocal para atuar em musicais é muito intensa | Foto: Caio Gallucci

A preparação física e vocal para atuar em musicais é muito intensa | Foto: Caio Gallucci

Na história, baseada em conto de Hans Christian Andersen, a protagonista Ariel vive no fundo do mar, mas quer fazer parte do mundo dos humanos, ao apaixonar-se por um príncipe. “Tenho certeza de que entregaremos uma bela produção à plateia brasileira, fiel às intenções originais do musical, com toda a magia da Disney”, afirma Lynne. “Espero que as pessoas curtam ver A Pequena Sereia, assim como eu estou curtindo fazer”, conclui Abravanel.

Texto: Camila Antunes | Fotos: Caio Gallucci, Leo Aversa, João Caldas e Marcos Mesquita/T4F
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