Você come o que você não lê

_Entrevista

 
Os alimentos industrializados fazem cada vez mais parte da nossa dieta. A variedade e praticidade que as empresas alimentícias nos oferecem se encaixam perfeitamente no estilo de vida acelerado que temos hoje. Mas parece que estamos deixando algo importante de lado. Você sabe do que são feitos os produtos que compra no supermercado?

Para tentar esclarecer essas e outras questões relacionadas ao que estamos trazendo para casa, a jornalista Francine Lima criou o projeto Do Campo À Mesa, canal do YouTube em que ajuda os consumidores a desvendar os rótulos dos alimentos. Além do canal, ela mantém ainda uma página no Facebook, onde discute o assunto com pessoas interessadas em apurar seu senso crítico em relação aos alimentos.

One Health Mag | O que te motivou para criar o projeto Do Campo À Mesa?
Francine Lima | A motivação vem de longe. Eu já trabalho com o tema da alimentação há muito tempo, só que antes só escrevia. A ideia de fazer vídeo é um pouco mais recente e veio da percepção de que o vídeo atrai mais público. Eu já tinha o know-how do tema, sabia o tipo de mensagem que eu queria passar, onde encontrar a informação, já conhecia mais ou menos a legislação de rotulagem.

Claro que a cada dia eu preciso pesquisar mais a fundo, preciso saber exatamente o que diz respeito a cada categoria de produtos, então faço muita pesquisa a cada vídeo.

One Health Mag | E o que você pretende passar para as pessoas com o seu canal?
Francine Lima | Meu objetivo é que as pessoas aprendam a se virar para não se deixarem enganar por qualquer bobagem que é dita na propaganda ou na parte publicitária da embalagem de um produto.

Eu quero criar esse senso crítico, esse interesse em saber mais, em desconfiar, pesquisar, e a partir daí tomar decisões mais inteligentes. Estou tentando incentivar as pessoas a mudarem a maneira de pensar no alimento de modo geral. Optar por comida, ingerir menos industrializados, entender a diferença entre uma coisa e outra.

Não é tirar o industrializado de modo absoluto da vida, a gente ainda precisa da indústria para produzir em escala, mas temos que saber separar o que vale a pena do que não vale.

One Health Mag | E você tem recebido bastante retorno do público?
Francine Lima | Sim, os resultados têm sido ótimos. Já são mais de 40 mil inscritos no canal do YouTube, e os vídeos têm tido mais de dez mil views na primeira semana.

As pessoas comentam bastante no próprio YouTube e no Facebook, onde tem uma fanpage com conteúdo diário. Lá eu faço uma curadoria de conteúdo, compartilho muita informação, coisa que sai na grande mídia, em jornal, muita coisa gringa também. Ali fica um debate constante, é bem interessante, o pessoal participa, traz conteúdos para eu compartilhar, sugere vídeos, vem perguntar. Muitas coisas que eu não sei, inclusive.

One Health Mag | Qual o tema que mais deu retorno até agora?
Francine Lima | O vídeo em que eu falo dos refrigerantes é o mais visto, está com mais de cem mil visualizações. Isso me surpreendeu, até porque eu não trouxe informações novas, tudo que eu falei já foi bastante dito por aí, mas talvez não com o mesmo impacto ou neste formato que eu utilizei.

O refrigerante virou vilão (e eu o tratei dessa forma) porque ele tem sido considerado pela ciência da nutrição como o símbolo da dieta errada. É quase açúcar puro diluído em água, um monte de caloria líquida, não alimenta nada, não tem nada que o organismo precisa. Tem um monte de aditivos, alergênicos. E as pessoas estão tomando muito refrigerante hoje em dia, muito mais do que se tomava há algumas décadas.

É um produto que deve ser, sim, desencorajado, mas não é uma questão apenas de saber. Mesmo com tudo o que falamos ainda tem gente que comenta lá: “Dane-se, vou continuar tomando”. Então tem que ir além da informação, a mudança real é trazer isso para a sua vida.

One Health Mag | O que você pensa sobre a legislação de rotulagem no Brasil?
Francine Lima | A legislação dá conta de coisas importantes, inclusive alguns detalhes que não são todos os países que têm. Mas ela também tem uma série de falhas, então temos muito trabalho a ser feito. A gente precisa que a sociedade civil participe mais, ainda são poucas organizações que ficam no pé da Anvisa e do Ministério da Agricultura para melhorar a legislação.

One Health Mag | O que precisa ser mudado, por exemplo?
Francine Lima | Boa parte do que seria proteção do consumidor, está definido apenas na legislação, não está apresentado diretamente ao consumidor. Um dos casos é a definição de néctar, que não está apresentada na embalagem, nem na propaganda, está apresentada apenas na legislação, que é o tipo de documento que o consumidor não consulta e nem tem que consultar. Então, na minha visão, deveria estar escrito na embalagem o que é néctar, para a pessoa saber que néctar não é suco.

Essa legislação mudou, e acredito que ainda este ano passa a aparecer na lista de ingredientes a quantidade de fruta que tem no néctar. Isso já é uma conquista boa, precisava ter, mas só vale para o néctar, não é para todos os produtos, e eu acredito que todos os produtos deveriam ter lá a quantidade de cada ingrediente.

One Health Mag | Você também fala sobre a ques- tão da ordem dos ingredientes…
Francine Lima | A questão da ordem dos ingredientes é fundamental para a gente entender como é feito esse produto. Se o açúcar é o primeiro ingrediente, ele é o principal, então você já sabe de cara que ele é um produto com excesso de açúcar.

A ordem dos ingredientes não está explicada na embalagem, poderia estar lá: “Lista de ingredientes na ordem decrescente de proporção”. Mas não está. Então as pessoas têm que adivinhar? Tinha gente que antes de eu fazer o vídeo achava que estava em ordem alfabética, que o açúcar estava em primeiro porque começava com a letra A. Isso nunca ficou claro para todo mundo, e eu estou tentando justamente fazer essa tradução. E a indústria vai alegar que está seguindo a legislação, e está mesmo, então é a legislação que precisa ser revista nesses casos.

One Health Mag | e você já pensa nos próximos passos para o projeto?

Francine Lima | Têm temas mais complexos que eu quero tratar, como o dos orgânicos e dos transgênicos. Eu até comecei, mas nas duas últimas vezes que eu tentei mergulhar nesses temas mais complexos eu tive que voltar atrás porque eles demandam muita pesquisa, muito tempo, eu acabo demorando muito, fico muito tempo sem publicar nada, e aí eu preciso parar e voltar para um tema mais fácil para poder ter vídeo para soltar. Está nas minhas aspirações, mas eu ainda não pude transformar isso em plano porque eu não tenho recursos e preciso encontrar alternativas.

por Daniel Cunha | fotos Flavio Demarchi
Entrevista