Você 500% mais produtivo

Cientistas do mundo todo se dedicam a estudar o flow, estado mental de alta concentração e motivação que ajuda a aumentar o desempenho em qualquer área – e não só no esporte, onde é mais conhecido

Qual é o sentido da vida? Por que é tão difícil ser feliz? E o que exatamente essas questões existenciais têm a ver com produtividade? Digamos que elas foram o ponto de partida das pesquisas sobre felicidade e sobre como dar um significado à existência, do psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, inicialmente da Universidade de Chicago, onde lecionou por 30 anos – hoje ele é professor da Universidade de Claremont, na Califórnia. E se ele não chegou a uma conclusão a respeito desses assuntos tão abrangentes, pelo menos trilhou caminhos que o levaram ao flow (ou fluxo, em português) – estado mental de alta concentração, alta motivação e alto desempenho –, este, sim, intrinsecamente relacionado à performance de forma geral.

Tudo teve início nos anos 1960. Csikszentmihalyi começou a reparar em artistas plásticos pintando e verificou que algumas vezes ficavam absolutamente concentrados e absorvidos no que faziam. Eles pareciam não sentir cansaço, fome, sono e permaneciam pintando por horas. “Todo movimento e pensamento seguiam inevitavelmente os anteriores, sem pausa para questionamentos ou receios”, observou o psicólogo. Detalhe: não faziam aquilo por dinheiro, fama ou qualquer outra coisa – a “recompensa” era apenas a satisfação com a execução da própria atividade. Então, passou a pesquisar também atletas, alpinistas, jogadores de xadrez, dançarinos, monges, músicos e notou que era possível atingir aquele estágio pleno de concentração e realização em qualquer atividade. “No flow, você fica 100% focado na experiência presente, profundamente envolvido e absorvido e todo o resto perde importância. A principal característica é que a atividade não é um meio para se chegar a um fim, mas um fim em si mesma. E é nesse estado que artistas e atletas obtêm o seu melhor desempenho e executam suas melhores performances. O flow é atingido geralmente quando realizamos algo que gostamos muito, usando nossas habilidades, talentos, forças pessoais e virtudes”, explica o psicólogo Helder Kamei, pioneiro da psicologia positiva no Brasil, autor do livro Flow e Psicologia Positiva: Estado de Fluxo, Motivação e Alto Desempenho e do blog www.flowpsicologiapositiva.com.

SUPERPROFISSIONAL
As pesquisas avançaram ao longo das décadas. No instituto americano de pesquisas McKinsey Global Institute (MGI), um trabalho conduzido por dez anos revelou que altos executivos sentiam-se cinco vezes mais produtivos no flow. É como se você, atingindo o estado mental de concentração plena, conseguisse realizar em um único dia todas as tarefas profissionais da semana. Nessa mesma linha, a fim de comprovar que esse estado de plenitude pode ajudar qualquer pessoa a ser até 500% mais eficiente, o jornalista Steven Kotler – autor do livro The Rise of Superman (Super-Humanos, lançado pela editora Sextante) – e Jamie Wheal – um dos maiores especialistas sobre neurofisiologia do desempenho humano – desenvolveram o Projeto Genoma Flow, uma organização internacional de estudos multidisciplinares. “As pessoas gastam menos que 5% da vida profissional no flow. Se esse número atingisse 20%, a produtividade global no local de trabalho seria muito maior. Dados preliminares de um estudo apontam também que podemos ser de seis a oito vezes mais criativos quando atingimos esse estágio”, explica Kotler no site do projeto (www.flowgenomeproject.com).  “Não é possível quantificar exatamente, mas é perfeitamente factível que o flow tenha a capacidade de interferir na melhoria da realização de tarefas”, diz Helder Kamei sobre as estimativas apontadas no trabalho de Kotler e Wheal. Ele diz que basta analisar quanto tempo você demora para fazer uma planilha ou um relatório no computador de forma distraída (olhando o celular, checando e-mails, mandando mensagens, navegando na internet) e de forma absolutamente concentrada, sem se desviar em momento algum. “Talvez faça em uma hora (e bem!) o que você demoraria a manhã inteira para concluir”, completa Kamei.

Com a intenção de ampliar essa onda de produtividade, alto desempenho esportivo e criatividade, os diretores do Projeto Genoma Flow idealizaram um centro de pesquisa e treinamento, que eles descrevem como “um parque tecnológico dedicado à busca do flow, onde será possível treinar nossos corpos para encontrar nossas mentes”, tendo como público-alvo executivos, atletas de elite e todos os que desejarem elevar o desempenho.

QUÍMICA CEREBRAL
Quando absorvidos por uma atividade arriscada, atletas radicais liberam substâncias neuroquímicas que os fazem atingir o estado mental de alta concentração, mesmo que inconscientemente. “O flow está associado a uma descarga de várias substâncias no cérebro, como dopamina, noradrenalina, endorfinas e serotonina”, explica Kamei. Juntas, elas ajudam a gerar entusiasmo, criatividade, motivação, coragem, atenção, bem como prazer.

A prática esportiva que envolve tensão é apenas um gatilho que leva ao flow. Atletas de resistência, por exemplo, podem ser conduzidos a essa zona por meio da dor e da exaustão – o que igualmente acontece em treinos e competições de natação, ciclismo, remo e outras atividades em que percorrer longas distâncias seja um fator. No caso de escritores, pintores, escultores, dançarinos, músicos, a porta de entrada costuma ser o exercício da criatividade. Até mesmo jogadores de videogame, quando altamente envolvidos em aventuras virtuais, entrariam no flow. “Todo mundo pode atingir esse estado mental – e provavelmente todos já tiveram essa experiência, que pode ocorrer até em atividades cotidianas como ler, cozinhar e dirigir”, acredita Kamei.

A vivência é possível mesmo para quem não possui dotes artísticos ou esportivos. “Esse estado pode ser induzido no dia a dia por meio do autodesafio. Vamos pegar o caso de um operário que trabalha em uma linha de montagem e tem uma rotina entediante: ele pode virar o jogo e começar a entrar em estados de flow se acrescentar ao trabalho elementos que aumentem o desafio proporcionado pela tarefa”, diz Flora Victoria, mestre em psicologia positiva, fundadora da Sociedade Brasileira de Coaching e presidente da SBCoaching Training. Se a atividade é feita em dois minutos, como poderia fazê-la em apenas um? O que o levaria a trabalhar melhor rápido? Que forças e talentos ele pode usar para ser mais eficaz? “Buscando essas respostas, ele pode se tornar focado e concentrado e entrar em flow, rendendo mais e desfrutando a sensação de que sua atividade ficou mais leve”, explica Flora.

CRESCIMENTO PESSOAL
Estimular as pessoas a chegar ao estado de concentração e envolvimento com maior frequência irá capacitá-las no sentido de não só desenvolver maior rendimento, mas também felicidade e bem-estar. “Quem vivencia o flow no trabalho, além de mais produtivo, é mais engajado, motivado e satisfeito”, aponta Helder Kamei. Segundo o especialista, por ser um estado mental positivo, ele ajuda também a prevenir depressão e distúrbios relacionados ao estresse, como doenças cardiovasculares, hipertensão e diabetes. E ainda colabora com o aumento de autoestima e autoconfiança. “Mas provavelmente o maior benefício do flow é o crescimento pessoal e o desenvolvimento de nossos talentos e potenciais”, finaliza.

VOCÊ JÁ ENTROU EM FLOW?
Pense em uma atividade que você faz bem e que gosta muito de fazer. Pode ser física (um esporte), intelectual (escrever ou fazer cálculos matemáticos), atividade artística (cantar, dançar ou pintar) ou até mesmo um hobby (cozinhar ou fotografar). Agora procure recordar um momento específico em que você teve um desempenho excepcional, que sentiu que estava no auge, sentiu-se realizado, não viu o tempo passar… Sim, você estava em flow!

 COMO TREINAR SUA MENTE

O flow não acontece por acaso. É necessário trabalhar duro para conseguir atingi-lo. Os especialistas apontam cinco atitudes que podem ajudar

1 Arrisque-se. O risco é um gatilho do flow. Por meio do frio na barriga que se sente nesses momentos, ocorre uma descarga de dopamina no cérebro. Pode ser qualquer coisa que implique sair da zona de conforto. Vale desde apresentar-se a um estranho em uma festa (para os tímidos) até aprender a saltar de bungee jump. O requisito fundamental do flow é a realização de uma atividade que ofereça desafio. Mas ele deve ser compatível com o seu nível de competência para realizá-la. Por isso, é preciso apenas um pouco de cuidado nessa experimentação do risco. “Se o desafio for elevado e as habilidades baixas, o resultado é ansiedade. E se o desafio for baixo e as habilidades elevadas, o resultado é tédio”, observa Flora Victoria, fundadora da Sociedade Brasileira de Coaching.

2 Dedique-se a algo que goste. A sugestão é reservar uns 60 minutos, três vezes por semana, para se concentrar em uma atividade que seja legal para você. Pode ser um esporte, um hobby ou até uma tarefa de trabalho (mas tem que ser estimulante!). “Aprenda a obter satisfação durante a atividade e não apenas com o resultado dela – o alpinista, por exemplo, sente mais prazer na escalada do que na chegada ao topo. Assim, se deseja entrar em flow no trabalho, sinta satisfação na execução das atividades, e não apenas com o recebimento do salário”, ensina o psicólogo Helder Kamei.

3 Trabalhe a concentração. Você pode recorrer à respiração para treinar o foco. Inspire por 4 segundos, segure o ar nos pulmões por 4 segundos, expire por 4 segundos e mantenha o ar fora por mais 4 segundos. Ao praticar esse exercício, você está aprendendo a se concentrar, afastar o pânico e a usar essa energia aumentada para ter mais foco. Comece com três sessões de 10 minutos por semana. Outra boa técnica é a meditação mindfulness (atenção plena).

4 Leia. Algumas vezes por semana, experimente ler pelo menos 30 minutos algo por que você normalmente não se interessaria. A ideia é dar ao cérebro novas informações constantemente, o que ativa a descarga de dopamina, neurotransmissor presente no flow.

5 Descanse. Isso implica dormir bem à noite (o ideal são oito horas) e ter outros períodos de relaxamento (como uma massagem, uma sauna ou até uma soneca depois do almoço) em alguns momentos da semana. “Isso vai ajudá-lo a se mover através do ciclo de flow muito mais rápido”, diz Steven Kotler, do Projeto Genoma Flow.

 

Texto: Yara Achôa | Ilustração: Léo Natsume
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