Vista perfeita

 

Os anos vão passando e enxergar detalhes em objetos ou ler um bom livro se torna algo difícil. Alguns objetos ficam borrados e pontos luminosos e manchas se localizam bem no centro da visão. Além disso, a adaptação à escuridão se torna algo difícil. Situações como estas são comuns principalmente para pessoas acima dos 60 anos, que se encontram no grupo de risco para adquirir a chamada degeneração macular. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, somente no Brasil cerca de 10% da população entre 65 e 74 anos possuem a doença. Acima dos 75 anos, o número chega a 25% do grupo.

 

 O objetivo é melhorar a visão central de pacientes que têm o tipo “seco” da doença – que evolui até a perda da visão e atinge 90% dos casos

 

 

Fora de foco: Somente no Brasil, cerca de 10% da população entre 65 e 74 anos teve degeneração macular

Nos Estados Unidos, um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia decidiu solucionar o problema com a criação de um telescópio minúsculo que, ao ser implantado no olho, é capaz de trazer de volta aos pacientes a capacidade de ver objetos e cores como antigamente. “Os telescópios miniaturas implantáveis (TMI) são próteses visuais que conseguem prover uma imagem ampliada para a mácula lesada [na parte central da retina]”, explica a oftalmologista Keila Monteiro de Carvalho, doutora em cirurgia e chefe do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (Unicamp). O objetivo é melhorar a visão central de um dos olhos de pacientes que têm o tipo “seco” da doença – que evolui gradualmente até a perda da visão e atinge 90% dos casos – ou estejam em estágios avançados, sem tratamento clínico ou cirúrgico possível.

 

 

 O telescópio implantável poderá eventualmente ser usado no tratamento de outras doenças da mácula

 

Pequeno e preciso

 

Lente poderosa: Ao ser implantado no olho, o TMI devolve a capacidade de enxergar objetos e cores

A mácula é uma pequena área localizada na região central da retina, que contém a maior densidade de fotorreceptores e é responsável pela percepção dos detalhes no momento em que olhamos para algum objeto ou imagem. Essa degeneração é causada por depósitos de restos celulares no fundo do olho, formando as chamadas drusas, espécies de cristais que acabam destruindo os fotorreceptores. A partir daí, aparecem cicatrizes na mácula, comprometendo a visão central e a capacidade de distinguir cores.

De acordo com a Universidade da Califórnia, até agora 50 indivíduos participaram do processo de colocação do pequeno telescópio. Além disso, apenas pacientes acima de 75 anos podem se candidatar à cirurgia. “Com 3,6 milímetros de diâmetro e 4,4 milímetros de comprimento, o aparelho tem uma lente ultragrande-angular de precisão micro-óptica que, juntamente com a córnea, vai funcionar como um sistema telescópico de foco fixo”, detalha a Dra. Keila, que acrescenta que é necessária a retirada do cristalino [parte responsável pela focalização das imagens que chegam ao olho] para a colocação do aparelho.

Procedimento delicado: Para a colocação do aparelho, é necessária a retirada do cristalino

Ainda segundo a especialista, para receber o telescópio, o paciente não pode ter passado por uma operação de catarata, nem ter outras doenças oculares, como glaucoma, alterações da córnea e problemas na retina causados pelo diabetes, que possam requerer uso de laser ou outros tratamentos. “A cirurgia para colocação do implante é considerada procedimento em estudo clínico e não tem uso corriqueiro na oftalmologia, pois ainda não há comprovação dos riscos e das consequências em longo prazo”, ressalta. “Mas uma das complicações possíveis é a perda das células da córnea, que pode levar o paciente a precisar de transplante.”

Porém, este é um grande passo rumo à possível cura da degeneração macular. De acordo com a Dra. Keila, o telescópio implantável poderá eventualmente ser usado no tratamento de outras doenças da mácula, como a perda da visão periférica que atinge pacientes afetados pela toxoplasmose, por exemplo. “O fato é que tem sido estudada a melhoria da qualidade de vida do paciente em relação à sua visão funcional. Como o número de casos do uso do telescópio ainda é muito pequeno, os resultados são promissores, mas ainda não conclusivos”, avalia a oftalmologista.

 

Fatores de risco

 

Alguns grupos de pessoas apresentam maior propensão a desenvolver a degeneração macular. Veja o que pode ser responsável pelo aparecimento da doença:

• Predisposição genética
• Exposição à luz solar, em especial aos raios ultravioleta
• Hipertensão
• Obesidade
• Ingestão de grandes quantidades de gorduras vegetais
• Dietas pobres em frutas, verduras e zinco
• Fumantes ativos e passivos

Por Daniel Navas - fotos: Shutterstock/Divulgação
Techmed