Upload da mente

A imortalidade do corpo ainda é utopia, mas manter o cérebro em atividade eterna poderá se tornar realidade mais rápido do que você imagina

Em 1956, o bioquímico e escritor russo Isaac Asimov, um dos mestres da ficção científica, apresentou ao mundo uma das suas principais obras: A Última Pergunta – conto publicado na famosa revista Science Fiction Quarterly que fala sobre um supercomputador que desenvolveu um método para suprir a humanidade de energia por incontáveis anos. Mas como salvar a humanidade depois disso? O conto segue em estrutura linear, dando saltos de até bilhões de anos na história, mostrando como em cada época a pergunta foi repetida ao supercomputador e, invariavelmente, recebendo as mesmas palavras: “Dados insuficientes para uma resposta significativa”. Até que mente, homem, máquina e espaço se fundem em uma mesma jornada em busca da solução. O problema é que para atingirem o sonhado objetivo o preço será alto: o caos, a escuridão, o fim. E, quando não há mais nada além do vazio absoluto, Asimov deixa a entender que tudo se reinicia com a derradeira frase: “Que se faça a luz. E a luz se fez”.

A intrigante e fascinante história do escritor russo nunca esteve tão atual, se pensarmos que a grande busca da ciência do nosso século é nos transformar em seres imortais… ou pelo menos nossa massa cinzenta. Para isso, os homens mergulharam na tecnologia. É possível, então, arriscarmos dizer que em um futuro próximo não vamos morrer? O cientista britânico Ian Pearson, em seu livro You Tomorrow (sem tradução para o português), fala sobre a possibilidade de um dia sermos capazes de criar cópias digitais de nós mesmos com base em informações neurológicas. Significa que poderíamos fazer o upload de nossa mente para uma máquina – uma espécie de androide – e continuarmos vivendo. Formado em física teórica e matemática aplicada, Pearson vislumbra o futuro em seu trabalho. “A geração com menos de 40 anos hoje já terá uma excelente chance de ter sua mente vivendo eternamente em uma forma de robô, depois que seu corpo biológico morrer”, garante o futurólogo.
Funcionaria assim: você compra um “corpo” e transfere “sua mente” para ele, carregando toda sua identidade. Assim, poderá se reconhecer, lembrar quem é e continuar sua história.

MENTES QUE BRILHAM
Se os mundos virtuais não têm os mesmos limites que os reais, então podemos esperar que viver a eternidade dentro de uma máquina traga inúmeras possibilidades? Exatamente. “Além da imortalidade propriamente dita, a humanidade ganhará com um salto de evolução sem precedentes”, vislumbra Ian Pearson. Isso significa manter o cérebro de grandes cientistas trabalhando infinitamente e em parceria com outras mentes privilegiadas que ainda estão por nascer.
A grande vantagem, dizem os futurólogos, será poder vir a reparar problemas de saúde que limitam a vida: corrigir falhas de memória, degeneração cerebral e sensorial e ainda expandir a inteligência humana. “Utilizaremos esses recursos para nos tornarmos ainda mais prodigiosos”, comemora o cientista britânico. “Acho tudo isso bem possível, mas a tecnologia ainda tem que evoluir muito para chegarmos ao ponto de esse processo todo se tornar realidade”, acrescenta Heloisa de Camargo Arruda, professora-doutora de computação da Universidade Federal de São Carlos e coordenadora da Comissão Especial de Inteligência Artificial da Sociedade Brasileira de Computação.

Se a previsão da realidade futurística ainda divide a opinião dos especialistas, pelo menos podemos olhar maravilhados para as grandes tecnologias atuais. Elas trabalham arduamente alimentando as máquinas com tamanha inteligência a ponto de conseguir mapear o cérebro humano e entender nossas conexões. Tudo isso para, quem sabe um dia, interpretá-las e concretizar nossa maior ambição: a imortalidade.
São mais de 10 mil laboratórios de neurociências, inteligência artificial e ciência da computação trabalhando em todo o mundo. Projetos audaciosos como o programa Brain, de Boston (EUA), que quer preservar a funcionalidade do cérebro; ou Blue Brain, do Instituto de Tecnologia de Lausanne (Suíça), que conseguiu conectar 10 mil neurônios virtuais por meio de cabos em um formato que imita a rede de neurônios; ou ainda a Iniciativa 2045, bancada pelo magnata russo Dmitry Itskov, que pretende transferir a consciência humana para uma interface robótica até o ano de 2045. Sem falar no supercomputador Watson, da IBM, que já utiliza um poderosíssimo software em diferentes aplicações, da ciência à engenharia, expandindo conhecimento, interpretando dados e até prescrevendo tratamentos personalizados para doenças como o câncer.

MÁQUINAS MORTÍFERAS?
Em fevereiro de 2017, a Guerrilla Games lançou um dos grandes sucessos do ano: o jogo Horizon Zero Daw, exclusivamente para a plataforma Playstation 4. A história se passa a mil anos no futuro, em um mundo pós-apocalíptico onde máquinas colossais dominaram o mundo e vagam em uma paisagem fora do controle da humanidade. Ao longo do tempo, a evolução humana regrediu até uma sociedade tribal de caçadores, enquanto as máquinas tornaram-se cada vez mais poderosas.

Tudo isso aconteceu porque no passado (mais ou menos no ano 2030) tudo que a humanidade fez foi alimentar robôs com inteligência humana. Ficção ou material de debate atual? “Não acredito que um dia as máquinas dominem o homem por se tornarem mais inteligentes ou abrigarem o material da mente humana. Acredito, sim, que tornando-as poderosas poderemos transferir para o nosso cérebro conhecimento ilimitado como o praticado no mundo virtual”, diz Ian Pearson.

EU, ROBÔ
Compartilhar inteligência com máquinas, medo do desconhecido… Nada parece incomodar a ciência nesta empreitada. Mas, quando o assunto é adaptabilidade, a questão muda. Essa nova realidade traz um desafio que preocupa bastante: a perda da identidade. Atualmente, a convivência das pessoas com o mundo virtual está deformando as relações excessivamente. Cada dia mais estamos dependentes do ciberespaço. “As crianças que estão crescendo agora, mergulhadas no mundo virtual, podem não apreender como olhar nos olhos, interpretar tons de voz, toques, cheiros, linguagem corporal. Isso é assustador, porque sabemos que o cérebro se adapta a qualquer situação. Tanto para o bem como para o mal”, alerta a neurocientista Susan Greenfield, professora da Universidade de Oxford (Inglaterra).

Saber dosar a receita pode ser o grande desafio que a ciência terá pela frente para que futuramente não precisemos ter que vir a concordar com a célebre frase de Albert Einstein: “Temo o dia em que a tecnologia vai ultrapassar a interatividade humana.
O mundo terá uma geração de idiotas”. “Particularmente, prefiro acreditar que viveremos em um mundo interessante, em que alguns de nossos amigos serão pessoas, e outros, programas de computadores. Serão amizades genuínas, porque terão uma consciência e uma personalidade autênticas e não apenas peças estéreis de programação”, finaliza Ian Pearson.

“Os cientistas trabalham com a possibilidade de um dia sermos capazes de criar cópias digitais de nós mesmos, com base em informações neurológicas”

 

___________________________________________________________________________________

ELES GUARDAM SUAS MEMÓRIAS
Na internet é possível arquivar suas melhores lembranças hoje pensando no futuro. Veja quatro serviços digitais para armazenar fotos e informações.

1) O Flickr guarda fotos e oferece personalizações e compartilhamento pelo Facebook, Twitter e Pinterest. Os uploads de arquivos são rápidos e também é possível guardar vídeos de até 90 segundos com 150 MB.

2) Com o Photobucket, você pode armazenar suas fotos, fazer edições de imagens e compartilhar com os amigos. O armazenamento de fotos é ilimitado, mas cada arquivo não pode ter mais de 1 MB.

3) O Snapfish guarda suas fotos sem a preocupação com limites de espaço. Dá para fazer upload de arquivos que estão em seu computador ou dos que estão armazenados em contas do Facebook.

4) Com o Shutterfly, você tem espaço ilimitado para os seus arquivos e ainda terá acesso a serviços de impressão. Se você quiser, também há como adicionar bordas às suas fotos, recortá-las ou mesmo criar cartões e calendários.
___________________________________________________________________________________

“As redes sociais são uma ferramenta para armazenar histórias, memórias e opiniões, como um grande álbum de recordação”

___________________________________________________________________________________

UM POUCO DE VOCÊ JÁ ESTÁ NA REDE!
Sites como Facebook, Instagram, Twitter, YouTube e provedores de e-mails guardam registros de eventos importantes de nossa vida, além de imagens e correspondências que trocamos com outras pessoas. Coletamos nossas memórias com um grau de detalhamento nunca antes possível. “O que acontece com a internet e redes sociais é um processo diferente de fazer upload do nosso cérebro para um corpo de androide. As redes sociais são mais uma ferramenta para armazenarmos nossas histórias, nossas memórias e nossas opiniões”, explica a professora-doutora Heloisa Arruda. De qualquer forma, não dá para desprezar essa poderosa ferramenta, já que a vida vem sendo registrada neste “álbum de recordações” com inesgotáveis páginas. “Essa capacidade, somada ao avanço do aprendizado de máquina, nos permite hoje o desenvolvimento de sistemas que aprendem opiniões ou preferências de um indivíduo, a partir de suas postagens nas redes sociais”, explica a cientista.

 

“O temor dos estudiosos é que a convivência exagerada com o mundo virtual deforme as relações pessoais”

Texto: Patrícia Boccia
Techmed