Uma mente inquieta e desafiadora

Flávio Pripas, referência em empreendedorismo no Brasil, conta sua história e os planos para o futuro do Cubo


 

“Tudo o que eu conquistei, de uma maneira ou de outra, foi mantendo a cabeça aberta, conversando e escolhendo os desafios que eu gostaria de abraçar nos mais diversos momentos da vida.” É dessa maneira que Flávio Pripas (40) explica como se tornou uma das referências brasileiras quando o assunto é empreendedorismo e inovação.

Casado há 14 anos e pai de um menino que está prestes a completar 6, ele afirma que é movido pelo impacto que suas ações podem causar. Sua atuação à frente do Cubo – o maior e mais relevante centro de empreendedorismo tecnológico da América Latina – comprova isso. Desde 2015, a iniciativa que tem como fundadores o Itaú e a Redpoint e.ventures visa conectar em um só lugar empreendedores, grandes empresas, investidores e universidades. Revolucionando as formas de trabalhar e desafiando o status quo, essa mistura tem rendido novas maneiras de pensar a tecnologia, a inovação e os modelos de negócios.

Em uma conversa que teve a velocidade de sua mente inquieta e desafiadora, Flávio nos falou sobre os caminhos que percorreu até aqui, fez um balanço de suas vitórias no ano passado e apontou o horizonte que perseguirá num futuro próximo. Afinal, como ele faz questão de frisar: “por causa da velocidade do mundo de hoje é impossível saber onde você vai estar daqui a um, dois ou cinco anos”.

 

One Health Como o jovem Flávio pensava sua carreira profissional ao buscar os cursos de Engenharia e Ciências da Computação?
Flávio Pripas Gosto de computadores desde pequeno. Entrei na faculdade e fiz Engenharia e Ciências da Computação para estudar essa máquina que, desde o começo da década de 1980, chama a minha atenção. Brinco que sempre fui programador e sou programador até hoje.

 

Em que momento o empreendedorismo e a inovação entraram em sua vida e quais ensinamentos isso te trouxe?
Quando comecei a faculdade, as empresas não tinham uma visão aberta e não se falava muito em empreendedorismo. O assunto é tão novo que só em 2006 essa palavra entrou no dicionário em português! Por isso, olhando para trás, de 1996 a 2008, minha carreira foi bem tradicional.

Minha passagem do mercado financeiro para o empreendedorismo me mostrou que é muito difícil ter controle sobre aquilo que vai acontecer. Por isso, a grande descoberta que fiz nesse período (e que trago até hoje) é de que precisamos ter a cabeça aberta e aproveitar as oportunidades. O empreendedor não consegue planejar o sucesso, mesmo porque se você planeja isso não está inovando. A gente planeja o fracasso, mas com uma visão do que quer alcançar, buscando chegar cada vez mais perto desse horizonte, um passo depois do outro.

O Cubo viabilizou mais de 200 contratos entre startups e empresas apenas em 2017

O Cubo viabilizou mais de 200 contratos entre startups e empresas apenas em 2017

 

Como ficam a família e os amigos, assim como os cuidados com alimentação, saúde e atividades físicas, na agenda de um profissional tão requisitado como você?
Esse é o grande desafio: conciliar as questões pessoais e profissionais. Minha agenda é muito intensa de segunda a sexta-feira. Por isso, eu dedico os fins de semana 100% para a família. Como preciso participar de muitos almoços de negócio, procuro compensar isso mantendo uma alimentação balanceada nas outras refeições. No mínimo quatro vezes por semana, antes de ir para o trabalho, eu corro ou faço outra atividade física. Isso ajuda a manter a saúde.

 

Quando você recarrega as baterias?
Faço isso em todas as oportunidades que surgem ao longo do dia. Estou completamente inserido no ecossistema de inovação no Brasil e, liderando o Cubo, faço entre 10 e 14 reuniões diariamente, e cada reunião é um assunto diferente do outro. Não tem como ficar entediado. Nunca me tranquei numa sala durante 5 minutos para dar uma respirada.

Não preciso tirar um tempo porque eu lido com isso de uma maneira bem pragmática. Quando estou no trabalho, estou 100% dedicado e focado, com energia para fazer acontecer. Quando estou em casa, com a família, estou 100% dedicado ao relacionamento com eles. Mas também quando chega a hora de descansar, esse é o meu foco.

O que motiva a abraçar novos desafios?
O que me move é o impacto. Sempre me pergunto como aquilo que estou fazendo vai criar valor para quem está em volta. Quando vim para o Cubo, recusei outras propostas porque percebi que isso teria um impacto enorme no nosso ambiente de negócio. Como uma pessoa inquieta, meu nível de engajamento vai diminuir à medida que eu perceba que essa iniciativa está tendo menos impacto.

 

O Cubo é um local de fomento ao empreendedorismo que tem a proposta de conectar pessoas, como empreendedores, pesquisadores e empresas. É possível construir pontes entre mundos tão diferentes?
Os processos em uma grande empresa são pensados para reduzir os riscos, e uma startup é sinônimo de risco. Então, são dois mundos que não se conversam. Conto com a vantagem de ter navegado por esses dois mundos. Já fui executivo, estive em posição de liderança em grandes empresas. Sei como elas pensam. Por outro lado, estou há 10 anos nesse mundo de startups e inovação, de projetos de alto risco. Essa bagagem me possibilita transitar entre os vários interlocutores que temos aqui. No caso das universidades, eu trago para a mesa de discussão um viés que é mais “de mercado” e menos acadêmico. As grandes instituições de ensino no mundo estão gerando empresas, não só conhecimento. É importante gerar conhecimento de base, mas, se isso não vai para o mercado e transforma a pesquisa em um produto, o impacto na vida das pessoas acaba sendo pequeno.

 

Como o Cubo tem contribuído para transformar a realidade de empresas, sejam startups ou empresas do mercado?
Eu defino as startups com base em três palavras-chave: escala, velocidade e execução. Elas têm tudo isso, mas falta o que elas mais precisam: os clientes. Nosso trabalho é ajudá-las a suprir essa necessidade, porque acreditamos que se uma empresa tem clientes ela consegue reinvestir o dinheiro e crescer.
Já a grande empresa tem escala e execução, mas geralmente não tem velocidade. Ao conectá-la com uma startup, esse atributo passa a ser mais trabalhado. Temos muitos casos em que ajudamos empresas já estabelecidas no mercado a terem mais velocidade simplesmente por desenvolverem projetos com startups.

 

A gente observa um certo modismo no mundo corporativo: falar sobre a aproximação com startups. Você acredita que as empresas estão prontas para isso?
Eu diria que as grandes empresas do Brasil, de um modo geral, não estão prontas. Isso porque, se os seus processos forem seguidos à risca, elas não conseguem fechar negócio com uma startup. O nosso papel é ajudá-las a entender como trabalhar com esse mundo, e isso requer rediscutir processo, equipes, velocidade e estruturas.
Quando iniciamos o trabalho com uma grande empresa que quer se unir a uma startup, primeiro, focamos nas áreas de apoio. Os profissionais responsáveis por Compras, por exemplo, precisarão repensar seu processo de aquisição de mercadorias e serviços, não sendo possível pagar em 180 dias para não “quebrar” aquele fornecedor. As áreas de TI, Jurídico e RH também vão precisar se readequar. Só depois é que as outras, ligadas ao negócio principal da empresa, começam a ser envolvidas nesse processo de mudança.

 

A gente mede o nosso sucesso pelo daqueles que estão no nosso entorno. As startups que apoiamos estão crescendo a olhos vistos” 
Flávio Pripas

 

 

Quais são os pré-requisitos para estar no Cubo?
Só temos no Cubo como “residentes” startups que têm um produto desenvolvido e com potencial de escala no mercado. Precisa possuir também um modelo de negócios e clientes.

No caso das empresas, é preciso ter em mente que o Cubo é uma associação sem fins lucrativos. Elas podem ser mantenedoras e contribuir sob a forma de patrocínio, desde que seja avaliado se agregam valor ao nosso ecossistema. Costumo dizer que não é simplesmente “colocar a logomarca na parede”.

 

Qual a proposta da plataforma digital do Cubo?
O ambiente digital possibilita que a gente faça muitos testes em ciclos rápidos para verificar se estamos indo pelo caminho certo ou não. Por isso, essa plataforma é um grande laboratório para replicar, no digital, o valor que a gente gera no ambiente físico. É a nossa resposta para escalar o valor e o impacto que estamos gerando. Hoje contamos com mais de 200 membros.

 

Que balanço você faz de 2017 e quais os planos para este ano?
A gente mede o nosso sucesso pelo daqueles que estão no nosso entorno. Por isso, nossa grande vitória foi o posicionamento conquistado no mercado, com destaque para termos viabilizado mais de 200 contratos entre startups e empresas. Elas estão crescendo a olhos vistos, e isso prova que estamos fazendo a diferença.
No meio deste ano vamos ampliar o Cubo. Mesmo ganhando escala por meio da plataforma digital, vemos que precisamos crescer fisicamente para aumentar o número de conexões e negócios. Pensamos em quadruplicar o nosso espaço físico para multiplicar muito mais vezes o potencial de geração de negócios para o mercado.

 

Para finalizar, nos conte sobre o Flávio. Quais são os seus planos pessoais e profissionais para os próximos anos?
Se eu olho a longo prazo hoje, uma das grandes prioridades que eu tenho é dar a melhor educação possível para o meu filho, que vai fazer 6 anos. Um tema a que eu vou querer me dedicar é como formá-lo para que seja um bom cidadão e consiga criar o seu impacto no mundo da melhor maneira possível.

 

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PLANOS PARA O CUBO
Hoje, o Cubo está localizado na Rua Casa do Ator, 919 – Vila Olímpia, São Paulo (SP). Tem área útil de 5.324 m², suficientes para abrigar 55 startups; quatro espaços para workshops, treinamentos, interação e eventos; capacidade para abrigar 250 profissionais e um público não residente diário de cerca de 650 pessoas.
A expectativa é ter, na nova sede da Alameda Vicente Pinzon, 54 – Vila Olímpia, uma área de 20.573 m², que será suficiente para abrigar tantas startups quanto os 1.250 profissionais residentes forem capazes de acomodar. Estima-se uma circulação de mais de duas mil pessoas nos sete espaços dedicados para workshops, treinamentos, interação e eventos.

Texto: Maira Moraes | Fotos: Celso Doni e Fabiano Accorsi/Editora Globo, Divulgação
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