Um caminho sem riscos

 

Uma nova técnica está sendo utilizada no Brasil para dar mais precisão a delicadas cirurgias neurológicas, nas quais desvios milimétricos na incisão podem representar um comprometimento maior de funções motoras e cognitivas do paciente. O método é chamado de neuronavegação e consiste em traçar mapas detalhados da anatomia humana a partir de sofisticados exames de imagem. “É como um equipamento de GPS que fornece ao cirurgião um caminho mais seguro para operar”, explica Andrei Fernandes Joaquim, neurocirurgião da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele realizou recentemente uma complexa cirurgia de coluna com o auxílio desta técnica, procedimento adotado por poucos hospitais do país.

 

 Com a neuronavegacão, o paciente fica menos tempo na sala de cirurgia e se recupera mais rapidamente

 

 

Mais segurança: Imagens de exames ajudam o médico a se orientar em tempo real

O primeiro passo do método é dado ainda na fase pré-operatória, quando o paciente é submetido a um exame de ressonância magnética ou tomografia computadorizada, que fornece imagens com alto nível de detalhamento. A diferença da neuronavegação está na forma como essas imagens são utilizadas. Em vez de servirem apenas como referência, elas são projetadas em um monitor na sala de cirurgia – que indicará, em tempo real, a navegação dos instrumentos cirúrgicos durante a operação, como um mapa interativo do corpo humano. “Sem isso, o cirurgião precisaria fazer incisões maiores e aumentar a abertura do crânio do paciente, expondo-o a mais tempo de anestesia”, ressalta Giselle Coelho, neurocirurgiã pediátrica do Hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo.

 

 Um pointer, que pode ser acoplado a diversos instrumentos cirúrgicos, vai guiando os movimentos do cirurgião

 

Alta precisão

 

Giselle Coelho: “Os resultados na área pediátrica são fantásticos”

Na hora da cirurgia, o médico sincroniza pontos reais do paciente com as imagens do monitor. “Encostamos um pointer (uma espécie de guia) no nariz, nas orelhas e em outros pontos do rosto para o software de neuronavegação integrar as imagens obtidas nos exames com referências reais”, detalha o Dr. Fernandes Joaquim.

Durante a operação, esse mesmo pointer – que pode ser acoplado a instrumentos cirúrgicos como pinça, aspirador ultrassônico e endoscópio – vai guiando os movimentos do neurocirurgião. “Ele emite um sinal infravermelho para indicar a posição do instrumento cirúrgico na imagem do monitor. Assim, ganhamos precisão e rapidez”, esclarece Giselle.

Todo esse aparato tecnológico traz vantagens expressivas em casos de lesões profundas e pequenas do cérebro, justamente as situações mais desafiadoras da neurocirurgia atualmente. O Dr. Fernandes Joaquim explica que é preciso ressecar o máximo da lesão e, ao mesmo tempo, causar o mínimo de desgaste na massa cerebral sadia que cerca o tumor. Esse delicado limite entre os tecidos doente e saudável pode agora ser melhor visualizado com o auxílio da neuronavegação.

 

Versatilidade – É possível integrar diversos instrumentos cirúrgicos ao sistema de navegação. Na hora da cirurgia, as imagens produzidas pelo endoscópio (foto acima) são usadas em tempo real junto com as imagens virtuais anatômicas do neuronavegador

Em operações na fossa posterior do cérebro, por exemplo, é grande o risco de deslocamento de vias nervosas. Qualquer pequeno desvio pode causar danos funcionais ao paciente, deixando sequelas possivelmente irreversíveis. “Por ser uma técnica mais precisa, a neuronavegação impede que isso ocorra”, explica a Dra. Giselle.

 

Mais rapidez, menos riscos

 

“Olho mágico” – O equipamento de neuronavegação também é composto por uma câmera infravermelho de alta precisão. Aliada a telas sensíveis ao toque, ela é responsável pela localização tridimensional dos instrumentais da cirurgia em um campo de 3m³ e com uma precisão de 0,3mm

A médica explica que, com o auxílio desta tecnologia, o tempo de cirurgia pode ser bastante reduzido.

“Isso varia muito, mas há casos em que a operação leva metade do tempo. Um procedimento de dez horas agora pode ser feito em cinco”, afirma a médica. Para o paciente, isso significa menos tempo sob anestesia e riscos reduzidos. Toda a recuperação passa a ser mais rápida, pois as incisões são menores e o corpo, menos agredido.

Além das cirurgias no cérebro, a neuronavegação também tem outras aplicações. “Podemos usá-la para fazer biópsias, drenar abscessos e operar a coluna vertebral”, enumera o Dr. Fernandes Joaquim. Há, inclusive, uso contra problemas vasculares e epilepsia, doença que provoca convulsões e nem sempre pode ser controlada apenas com medicamentos.

 

 Além de neurocirurgias, a técnica também vem sendo utilizada na solução de problemas vasculares e também contra a epilepsia

 

Na área pediátrica, a técnica já está sendo usada em pacientes com menos de três anos. “Os resultados são fantásticos”, comemora Giselle Coelho. Nesta idade, as crianças ainda estão com as defesas naturais do organismo em formação, o que as tornam mais sensíveis e vulneráveis a complicações do quadro clínico. E, se alguns procedimentos fossem postergados por serem delicados e arriscados demais, a saúde da criança ficaria cada vez mais debilitada. Por ser mais precisa, a neuronavegação acaba fornecendo mais segurança na decisão pela cirurgia.

Bússola cirúrgica – Acoplado ao fixador de cabeça do paciente, esse equipamento funciona como um sistema de GPS, que colabora para a localização dos instrumentais na cirurgia neuronavegada

Outra vantagem está na simplificação das estratégias terapêuticas. Em vez de associar medicamentos e cirurgia, a neuronavegação pode resumir todo o tratamento a uma única e precisa operação. “De acordo com o tipo de tumor, a ressecção (corte) tumoral completa pode se tornar o único tratamento, sem necessidade de terapia adjuvante como quimio ou radioterapia”, afirma ela.

 

Avanços lá fora

 

Nos Estados Unidos e na Europa, a neuronavegação vem sendo aperfeiçoada, com o uso de imagens 3D combinadas a mais recursos de navegação. “Já é possível colocar o paciente deitado e trocar a sua posição, que os equipamentos reconhecem a mudança”, diz Giselle, como exemplo de evolução da tecnologia.

Por Bruno Folli - fotos: Felipe Gombossy
Techmed