Tecnologia a serviço da humanização

O uso de inteligência artificial, automação, cirurgias robóticas e terapias com jogos digitais é um exemplo de como essa união pode trazer ao paciente mais qualidade de vida

 

A humanização na medicina sempre foi vista como uma forma mais personalizada de atendimento entre médico e paciente. Em princípio, do modo mais simples, e não menos eficaz: o atendimento olho no olho, o saber ouvir do médico – com paciência –, o que diz o paciente, um exame clínico bem detalhado. Tudo para se chegar a um diagnóstico preciso e tratamento eficaz. 

Hoje, porém, não podemos mais pensar em medicina sem a contribuição da tecnologia. Ela faz parte da realidade médica, não para diagnosticar, mas para facilitar e dar mais agilidade ao trabalho do médico. Afinal, o diagnóstico preciso, a intervenção cirúrgica correta e eficiente, a recuperação rápida e o menor tempo de internação podem valer uma vida.

Aliás, tem-se falado muito em práticas de humanização nas instituições de saúde. Além de ações que visam tornar o processo de internação mais confortável para os pacientes, a tecnologia tem sido vista como um recurso diferenciado no atendimento hospitalar. Para o doutor Alfonso Migliore Neto, diretor-geral do Hospital 9 de Julho de São Paulo, a aplicação dessas técnicas pode melhorar não só o quadro clínico do paciente como também aproximá-lo da realidade fora do hospital. “O segmento de saúde como um todo caminha para algo que acreditamos ser uma importante tendência: o uso da tecnologia como forma de humanização, aliado a um atendimento de excelência em todas as especialidades”, afirma.

Às vezes, sem nem perceber, somos beneficiados pela modernidade. O motivo disso é que essa participação no mundo digital abrange várias etapas da medicina. Desde a chegada de um paciente, passando pelo diagnóstico até a escolha de tratamento. O doutor Alfonso Migliore Neto cita como exemplos a medicina nuclear e a ressonância magnética. “Outra tendência que cresce é gerenciar a presença da pessoa de forma integrada”, observa.

Mais precisão e padronização nas cirurgias

Essas tecnologias estão espalhadas pelos hospitais, seja por meio da robótica, da automação ou da inteligência artificial. O mais visível desses exemplos está na robótica. O primeiro uso em cirurgias aconteceu em 1999, com o robô Da Vinci. A tecnologia dava ao cirurgião um braço manipulado por console e um sistema de imagem. Desde então, a tecnologia, que era considerada do futuro, está cada dia mais presente na nossa vida.

E é no campo cirúrgico que os robôs dão um show de precisão. Primeiro em relação à filtragem de tremores involuntários do médico, já que os robôs mantêm suas pinças intactas. Outra vantagem é a qualidade da imagem, que chega em três dimensões e em alta definição. “A cirurgia robótica é feita com pinças guiadas por um cirurgião. Esse tipo de procedimento diminui o tempo de internação, reduz os riscos cirúrgicos e possibilita uma recuperação mais rápida. Portanto, o paciente tende a retornar mais rapidamente para sua rotina”, explica o doutor Alfonso Migliore. Claudia Laselva, diretora operacional da unidade Morumbi do Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo, concorda: “As questões de automação e robotização na cirurgia têm a intenção de facilitar e aprimorar as técnicas de apoio ao cirurgião, mas nunca substituí-lo, pois é o profissional quem decide tudo numa intervenção cirúrgica”, afirma.

 

A cirurgia robótica diminui o tempo de internação, reduz os riscos e possibilita uma recuperação mais rápida

 

O resultado dessa junção é mais segurança e exatidão no procedimento. Mas o tratamento clínico também se beneficia. Tanto que o Centro de Pesquisas Oncológicas da Universidade da Califórnia (EUA) desenvolve um estudo com nanorrobôs que podem reconhecer tumores. Ao serem injetados na corrente sanguínea, eles liberam a droga só nos tecidos cancerígenos, preservando as células boas. No futuro, os nanorrobôs ajudarão a substituir a quimioterapia, oferecendo menos efeitos colaterais aos pacientes.

Cada dia mais presentes na nossa realidade, os robôs agora são usados na farmácia de hospitais. Um exemplo disso é o que acontece no Hospital Israelita Albert Eisntein de São Paulo, onde os robôs atuam na separação de medicamentos. Além de aumentar a produtividade, essa iniciativa contribui para a segurança do paciente. “É um processo muito mais seguro para o paciente”, afirma Claudia Laselva. E ela adianta que o hospital já está desenvolvendo um aplicativo para facilitar a vida do paciente logo após a consulta. “A ideia é que o paciente saia do consultório e vá direto até a farmácia retirar o remédio, sem ter de levar a receita, já que o sistema de informação do local estará interligado ao hospital e convênio médico”, informa. “Será uma rede de prestação de cuidados, e o paciente ou o farmacêutico não mais precisará traduzir o que o médico prescreveu, pois a geração de informação será automática, agilizando todo o processo por meio de um minucioso banco de dados”, avalia.

 

Automação – mais facilidade no ambiente hospitalar
A automação também é um dos serviços de apoio que dão mais autonomia e liberdade aos pacientes internados, propiciando um atendimento humanizado, principalmente para aqueles que têm alguma dificuldade de locomoção. “O serviço de automação nos quartos facilita as pequenas atividades, como se levantar, acender ou apagar a luz, acionar a hospitalidade. Os pacientes têm tudo à mão, tornando-se muito mais independentes, em especial nos casos em que não há um acompanhante presente o tempo todo”, observa Claudia Laselva.

Outra aplicação tecnológica que colabora com a humanização para o tratamento médico está na filtragem do ar. O ambiente hospitalar contém inúmeras bactérias no ar que podem se tornar um risco no tratamento dos internados. “O Hospital 9 de Julho adotou filtros com pressão positiva para remoção física de partículas para filtragem do ar, permitindo que os pacientes que antes não podiam ir até os corredores circulem normalmente por eles”, afirma o doutor Migliore.

 

Práticas humanizadas
Já algumas aplicações tecnológicas colaboram com a humanização para o tratamento médico. A fisioterapia com video-game utilizada no Hospital 9 de Julho é uma delas. “A chamada gameterapia usa o videogame durante as sessões de fisioterapia para estimular os movimentos, coordenação motora e agilidade do paciente”, explica o doutor Migliore. Os jogos disponíveis funcionam com a captação de todos os movimentos – feita por meio de câmeras que identificam as ações utilizando sensores –, e variam entre vôlei, futebol, dança e basquete.

Além disso, há o estímulo à prática de atividades que envolvam familiares e amigos, aliado a um atendimento personalizado. “Já promovemos aqui festa de casamento, bodas de ouro, dia das mães e até um jantar romântico com a banda dos enfermeiros do Hospital 9 de Julho”, comemora o doutor Migliore.

Texto: Fabiana Gonçalves
Techmed