Sustentável e confortável

Torneiras automáticas, cisternas de captação de água da chuva e painéis solares são apenas algumas tecnologias disponíveis hoje para se construir uma casa sustentável. As residências consomem quase 10% da energia do país e são responsáveis pela emissão de 17,6 milhões de toneladas de gás carbônico, um dos grandes causadores do efeito estufa, por ano. Isso só pelo uso doméstico, sem considerar a fabricação pelo setor da construção civil, que consome 40% dos recursos naturais e é um dos grandes poluentes do mundo: a indústria de cimento, por exemplo, emite sozinha 5% de todo o CO2 na atmosfera.

Investimento extra já se paga

Casas sustentáveis, que utilizam menos recursos naturais e consomem menos energia, são uma das possíveis soluções para o problema. Já existem alguns
exemplos no Brasil, como a Ekó House, da Universidade de São Paulo (USP), e o Escritório Verde, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sem falar nas 31 Ecovilas do país, segundo a Global Ecovillage Network (GEN). Mas nenhum desses projetos mostrava na prática a viabilidade econômica de casas verdes em nível comercial.

Ainda é mais caro adotar padrões ecológicos em uma construção, mas o investimento se paga. “Usar telhas que fazem isolamento térmico em vez das de amianto pode custar até 60% a mais”, explica o presidente da Inovatech Engenharia, que faz consultoria para projetos de sustentabilidade, Luiz Henrique Ferreira. Em compensação, “essas telhas geram redução da temperatura dos ambientes, levando a um consumo menor de ar condicionado”, diz.

A instalação de painéis solares para esquentar a água do banho é outro exemplo. “O custo inicial, para uma casa com cinco pessoas, seria de R$ 7.000 a R$ 10.000. Mas a economia na conta de luz seria de R$150 a R$200 por mês. Em quatro anos e meio, o sistema se paga.”

Essa conta está sendo feita por alguns empreendimentos comerciais no país e mostrando que casas sustentáveis não são apenas viáveis: já dá para lucrar com elas. Eles combinam “dispositivos economizadores e projetos arquitetônicos eficientes”, como diz Ferreira, para quem a vantagem é que “soluções condominiais tornam os sistemas de reaproveitamento de água, por exemplo, mais estáveis”.

Outra empresa está lançando dois condomínios sustentáveis, um em São Carlos, interior de São Paulo, e outro em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro. Segundo a porta-voz da Dahma, Fernanda Toledo, as obras custaram entre 10% e 20% a mais que o padrão por conta da instalação de painéis solares, sistemas de reúso de água e iluminação LED, entre outras medidas. No entanto, “esperamos reduzir em até 70% o uso de água, o que deve abater 30% do valor das contas, e 30% do uso e custo da eletricidade”. Além disso, esse “barateamento” permitiu à empresa reduzir a taxa mensal do residencial em 25% para os moradores.

Energia solar: viável e limpa

Provar que uma casa pode ser ecológica e economicamente sustentável ao mesmo tempo é uma cruzada. A equipe do arquiteto Rolf Disch enfrentou isso em 2000, quando criou um bairro em Freiburg, na Alemanha, abastecido apenas com energia solar de painéis fotovoltaicos – que produzem energia para a casa toda. As chamadas casas PlusEnergy produzem até quatro vezes mais energia do que precisam e o excedente é vendido à rede elétrica.

Na época, “todos disseram que não seria viável… Mas nós provamos que eles estavam errados”, diz o diretor de marketing da Rolf Disch Arquitetura Solar, Tobias Bube. Segundo ele, o custo extra para erguer essas obras foi de 10%, o que se pagou em cerca de dez anos.

O custo não é excessivo porque nem tudo é baseado em tecnologia. O sucesso do projeto também está em uma arquitetura inteligente: “Com bom isolamento térmico, janelas e um sistema de ventilação apropriado, nós reduzimos a necessidade de condicionar o ambiente em 80% a 90%”. Em outras palavras, as casas têm menos necessidade de aquecimento e, logo, demandam menos energia.

Para Bube, o Brasil tem grande potencial para atuar no mercado de energia solar. “Com o preço da energia aumentando e o custo da tecnologia caindo, a viabilidade da energia solar virá mais cedo que mais tarde, especialmente no Brasil com o alto nível de irradiação solar”, diz. “Os alemães têm dez vezes menos irradiação que a gente. Se usássemos painéis solares só para aquecer a água do banho já seria algo!”, diz a professora do Departamento de Tecnologia de Arquitetura e Urbanismo da USP, Roberta Kronka.

Aqui no Brasil, os painéis fotovoltaicos ainda não dão conta de abastecer a casa toda. Mas é possível conectar o painel à rede elétrica. Assim, se você viajou em um mês e a sua produção solar ultrapassou o uso da casa, você terá um crédito energético no mês seguinte e parte do valor da conta de luz será abatido.

E, se depois de tudo isso, você ainda não sabe o que economia de energia tem a ver com você, Ferreira dá o recado: “A energia do país vai acabar, ainda que a população não sinta. As termelétricas estão todas ligadas e as hidrelétricas, esgotadas”.

por Luiza Furquim
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