Saúde na era virtual

A presença de dispositivos móveis e de aplicativos permite que médicos e pacientes usem a tecnologia para diagnósticos e tratamentos

Em uma cena de O Círculo (2017), a jovem Mae Holland fica surpresa ao descobrir que bastava usar um dispositivo móvel (no caso, uma versão fictícia do relógio tecnológico Apple Watch) para que sua médica tivesse acesso a informações sobre seu ritmo cardíaco e níveis de glicose.

Apesar de se passar em um futuro próximo, o filme mostra que a realidade não deve nada à ficção em termos de criatividade e tecnologia. Vários aplicativos já medem os batimentos cardíacos de usuários. Com o Instant Heart Rate, por exemplo, é possível realizar a tarefa colocando o dedo indicador na câmera do celular. A ferramenta detecta as mudanças suaves na coloração da pele pelo fluxo de sangue entre cada batida do coração. O app My Baby’s Beat – Pequena Batida vai além: promete gravar os sons dos batimentos e da movimentação do bebê na barriga da mãe usando o microfone do smartphone.

Essas são apenas algumas das centenas de novidades que garantem tornar o uso de dispositivos móveis ainda mais comum na saúde, seja no momento do diagnóstico, seja durante o tratamento. A presença da tecnologia pode ter muitos benefícios, mas precisa ser vista com cautela e não substitui o fundamental: a relação entre médico e paciente.

Diagnóstico high tech
Em 2016, um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) do campus São Carlos, interior do Estado, representou o Brasil na final da competição de incentivo à criação de soluções de alto impacto na sociedade, Falling Walls Lab, na Alemanha. Eles foram selecionados por conta do Smart Retinal Camera (SRC), um protótipo que, acoplado a um smartphone, torna-se uma versão portátil do retinógrafo, que é utilizado para observar e tirar fotos da retina.

O aparelho, que ainda está em testes e deve começar a ser comercializado em 2018, tem um sistema de iluminação que coloca uma luz no fundo do olho do paciente para obter uma imagem, possibilitando que o oftalmologista capte retratos da retina e faça o diagnóstico correto do paciente.

A combinação do protótipo com o smartphone permite que o exame de retina seja mais barato e acessível para quem mora longe dos grandes centros. “Em situações assim, a tecnologia pode ser de grande valia para assistir pacientes e salvar vidas”, afirma Maria Cristiane Barbosa Galvão, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. “Pacientes idosos e crônicos como aqueles que possuem obesidade, diabetes, câncer e depressão também podem ser monitorados ou acompanhados por meio de tecnologias, o que facilita a sua rotina, cuidados diários e tratamento em geral”, reforça.

“Medir os batimentos cardíacos, controlar o nível de glicemia no sangue e o consumo de carboidratos são algumas das funções dos dispositivos móveis”

 

Acompanhamento detalhado
Há dez anos, Karla Melo, PhD em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), participou da criação do GlicOnline, um aplicativo que permite ao paciente fazer, de forma rápida, os cálculos para estabelecer suas doses de insulina, corrigir a glicemia e avaliar o consumo de carboidratos das refeições. Na época, a médica, que tem diabetes tipo 1, estava frustrada com a contagem, que era feita manualmente. “Percebi como era difícil para os pacientes colocar em prática a contagem de carboidratos e realizar as contas que determinam a dose de insulina para cobrir a refeição e corrigir o nível glicêmico”, conta a doutora Karla.
O Glic também faz lembretes de medicamentos e registros de glicemia, carboidratos consumidos e das doses de insulina. Disponível em Android e iOS, o app ainda conecta o paciente a seu médico em tempo real, o que permite um acompanhamento mais próximo e ajustes apropriados do tratamento.
Um estudo realizado pelo Hospital das Clínicas da FMUSP em 2008 mostrou que, com a assistência do app Glic, pacientes com diabetes tiveram melhoria significativa no controle da glicemia e se mostraram mais satisfeitos com o tratamento da doença. “Diabetes, assim como qualquer doença crônica, necessita da administração do medicamento certo, na hora certa e na dose certa, diminuindo o risco de complicações causadas pelo controle inadequado da glicemia”, explica a doutora Karla.

Uso consciente
A incorporação de novas tecnologias na vida de médicos e pacientes é inevitável. De acordo com a especialista em informação e informática em saúde Maria Cristiane Barbosa Galvão, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, o uso dessas novidades na área médica ajuda os pacientes a ter maior conhecimento de suas condições. Mas é necessário ter cautela na hora da busca por esses serviços (veja as recomendações dela no box). “Muitas vezes, a população acessa alguma informação nas redes sociais e acredita que é verdadeira, quando na realidade é pura lenda ou propaganda de alguma empresa que quer vender um produto ou serviço”, afirma Maria Cristiane.

Para a especialista, é necessário aliar o uso dos dispositivos e apps com as consultas médicas. “É recomendado que os pacientes levem suas dúvidas sobre saúde a um profissional da área, pois conhecendo nosso perfil genético, psicológico e social, ele terá condições de nos explicar se aquela informação que encontramos é passível de ser aplicada ou não para a melhoria da nossa condição”, explica Maria Cristiane. E complementa: “O contato presencial traz elementos importantes para que o profissional da saúde assista o paciente de forma adequada”.

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NA ERA DA INFORMAÇÃO
Com tantos aplicativos, artigos e pesquisas à disposição na internet, fica difícil identificar quais são de confiança. “Há informações confiáveis e outras que podem colocar nossa vida em risco ou piorar a nossa saúde”, afirma a especialista no campo da informação e informática em saúde Profa. Dra. Maria Cristiane Barbosa Galvão. Para evitar erros e desinformação, a pesquisadora dá algumas dicas:

1 Pergunte a si mesmo como o estudo chega à conclusão apresentada. Para desenvolver uma hipótese, os pesquisadores precisam realizar experimentos e obter evidências. Busque entender os métodos e as circunstâncias do estudo antes de compartilhar a informação que ele está passando.

2 Confira as credenciais dos estudos apresentados. “Para ser considerada minimamente confiável, a informação precisa ter o nome completo do autor e uma forma de contato. Se não localizamos o responsável pela informação, ela não tem nenhuma validade”, diz Maria Cristiane. Ela ressalta ainda que é necessário o autor ter formação na área da saúde, com especialidade no tema abordado pela pesquisa.

3 Fique de olho na data de publicação das pesquisas. Muitas vezes, informações antigas e desatualizadas voltam a circular nas redes sociais. Para evitar o erro, a especialista sugere que os pacientes prestem atenção nas datas de publicação e atualização mais recente dos estudos consultados.

4 Leve suas dúvidas para um profissional do campo da saúde. Só ele pode explicar se aquela tecnologia vai auxiliar no seu problema. “Se for o caso, busque mais de um médico para ter uma segunda opinião”, ressalta a especialista.

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A SUA ROTINA AINDA MELHOR
Pequenos cuidados no dia a dia podem representar uma importante melhoria na sua saúde. Acompanhe os efeitos dos seus hábitos com estes aplicativos – todos gratuitos e disponíveis em português na Apple Store e no Google Play:

 

TECHMED_beberaguaPara se manter hidratado
Beber água
A partir do peso e dos horários em que o usuário acorda e adormece, o aplicativo calcula a quantidade de água que ele deve beber diariamente e cria alarmes para que lembre de se hidratar.

 

 

 

Para ter uma boa noite de sono
Dormir melhor com Runtastic
A ferramenta monitora e faz um relatório da noite de sono do usuário. Com o acompanhamento, é possível saber de que forma fatores como a ingestão de cafeína e álcool e a prática de exercícios podem influenciar o descanso e como ele pode ser melhorado.

 

 

TECHMED_pacerPara se manter na ativa
Pacer Pedômetro
Seja para acompanhar uma sessão de exercícios, seja para uma caminhada leve, o app cumpre sua função! A ferramenta registra a movimentação do usuário e faz uma relação da atividade física diária dele. Ideal para quem quer sair do temido sedentarismo.

 

 

Texto: Isabela Moreira
Techmed