Revolução no laboratório

 
Uma gota de sangue é tudo que a americana Elizabeth Holmes precisa para realizar até 30 testes no laboratório. A empresária de apenas 29 anos e sua equipe levaram dez anos para desenvolver a tecnologia. Ela acaba com a
necessidade de agulhas, tubos de coleta e diminui o trauma da hora de caçar uma veia boa. “Ao possibilitar exames laboratoriais a partir de pequenas amostras, crianças, idosos e aqueles com doenças crônicas ou medo de agulhas poderão participar de uma nova experiência”, diz Holmes. A empresa está sediada em Palo Alto, na Califórnia, e anunciou a novidade em setembro de 2013, assim como a parceria com a cadeia de farmácias Walgreens, que já está oferecendo o serviço na Califórnia e no Arizona.

Menos dor, menos erros

A inovação pode ser vista como o ápice de um processo de automação dos laboratórios no mundo todo. “Há quase 30 anos, as solicitações de exames eram todas feitas manualmente e havia uma máquina capaz de fazer só 12 testes por amostra. Hoje, com as atualizações tecnológicas e o processo de automação, os pacientes são cadastrados em um sistema informatizado e conseguimos fazer 30 testes por amostra”, diz Maria Salete Sartori, do Laboratório de Análises Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Mas então por que ainda precisamos de vários tubos de coleta quando realizamos mais de um exame? Salete explica que “cada especialidade médica opera em uma sala separada e cada uma precisa de uma amostra diferente”.

No sistema unificado de Holmes, isso não é necessário. Após a punção do dedo, o sangue é coletado em um tubo chamado Nanotainer, de apenas 1,29 centímetros – o convencional pode ter quase dez centímetros –, e colocado em um recipiente resfriado. Depois disso, parte para análise laboratorial sem qualquer tipo de manipulação humana. Segundo Holmes, isso reduz o percentual de erros nos resultados e, por consequência, a necessidade de refazer testes. No modelo antigo, as possibilidades de falha humana são muitas. “O coletador pode deixar o garrote apertando o braço do paciente por tempo demais ou pedir para que ele abra e feche a mão para bombear o sangue, coisas que alteram o equilíbrio eletrolítico do sangue. Além disso, pode ser usada uma agulha de calibre inadequado e o sangue pode ser manuseado da veia para o tubo com pressão demais, rompendo hemácias”, conta Salete.

Teste ágil e barato

Outros grandes benefícios do processo desenvolvido por Holmes são a agilidade e o custo, que a empresa afirma ter cortado em menos da metade. O resultado dos exames leva poucas horas, e não dias, para ficar pronto e os preços dos mais de 1.000 testes oferecidos estão todos disponíveis para consulta no site da Theranos. Um hemograma custa US$ 3,26, a tipagem sanguínea, US$ 2,05, e a medição de sódio, US$ 3,31. Já viu algum laboratório fazer isso? Agilidade e baixo custo significam acessibilidade para o paciente, que poderá fazer exames com mais frequência. “Nós criamos uma ferramenta para que médicos acessem informações laboratoriais ao longo do tempo e observem tendências”, disse Holmes em entrevista à revista Wired. Segundo ela, isso é importante porque resultados de exames determinam 80% das decisões clínicas.

Para Holmes, as consequências do novo exame são maiores que praticidade e uma experiência indolor no laboratório. Uma frequência maior de testes possibilita comparar diferentes amostras, o que ajuda no diagnóstico de doenças crônicas e facilita a prevenção. Ela compara um teste a um quadro de um filme: “Se você me mostrasse um único quadro de um filme e me pedisse para contar a história, eu não seria capaz de fazê-lo. Mas, com muitos quadros, você começa a ver o filme se desenrolar”, disse na mesma entrevista. “Com os testes, você começa a entender seu corpo, a si mesmo, muda seus hábitos alimentares, estilo de vida e começa a mudar a sua vida.” A Theranos também trabalha outros fluídos e está ampliando seus postos em farmácias dos Estados Unidos, mas não há previsão para chegada em outros países.

por Luiza Furquim
Techmed