Pontapé tecnológico na Copa

 

“Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, Chico Science começa assim “Passeio em um Mundo Livre”, música que está em Afrociberdelia, segundo álbum de estúdio da banda de manguebeat Chico Science & Nação Zumbi. O maracatu do músico pernambucano e o futebol têm em comum a brasilidade. E o futebol e o passo à frente cantado por ele vão se unir na abertura da Copa do Mundo 2014, dia 12 de junho, na Arena Corinthians, em São Paulo, quando Brasil e Croácia se enfrentam no primeiro jogo da Copa no país, e um paraplégico será o responsável pelo chute inicial.

O chute é o resultado do trabalho de uma pesquisa de 15 anos feita por Miguel Nicolelis, brasileiro formado em medicina pela Universidade de São Paulo, em 1984. O doutor é o idealizador do Projeto Andar de Novo (Walk Again Project) formado por dezenas de cientistas em um consórcio internacional sem fins lucrativos. O consórcio envolve o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, a parceria da AACD no Brasil, cientistas da Universidade de Duke, na Carolina do Norte (Estados Unidos), onde Nicolelis leciona, entidades dos estados norte-americanos do Colorado, Kentucky e Califórnia, e instituições europeias em Munique (Alemanha), Lausanne (Suíça), e Paris (França).

O projeto conta com R$ 33 milhões disponibilizados pela Agência Brasileira da Inovação (Finep) ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Durante entrevista coletiva no Centro Aberto de Mídia (CAM) no Rio de Janeiro, Miguel falou sobre o apoio: “A Finep acreditou na ousadia desse projeto feito com cientistas do mundo inteiro, é um projeto global, em que o financiamento é brasileiro, isso é muito raro”.


“Pra mim foi um grande orgulho ter a possibilidade de trazer para o Brasil esse consórcio e tentar mostrar para os jovens brasileiros, no futebol que está na alma do brasileiro, que mesmo em um evento esportivo a gente pode usar dois minutos para mostrar o que a ciência pode fazer pela humanidade”, afirmou Miguel durante a coletiva. Os olhos do mundo e de toda a comunidade científica estarão voltados ao Brasil durante a Copa do Mundo.

O cérebro é quem comanda todo o nosso corpo, inclusive os nossos movimentos, com milhares de neurônios se comunicando o tempo inteiro por sinais de eletricidade. Nas pessoas paralisadas essa descarga de comandos não chega ao restante do corpo porque o caminho está bloqueado por uma lesão ou por uma doença.

O atalho encontrado por Miguel e os mais de 150 cientistas envolvidos no projeto é transmitir esses comandos direto do cérebro ao exoesqueleto, um traje robótico que receberá esses estímulos e fará com que um dos voluntários da AACD seja o responsável pelo pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014. Para isso, serão aplicados eletrodos no couro cabeludo do paciente que passará os estímulos direto ao traje em questão capaz de decodificar informações de toque, temperatura e força e com isso retornar em movimento. Tudo isso através de um computador sem fios acoplado ao exoesqueleto.

“Mesmo em um evento esportivo a gente pode usar dois minutos para mostrar o que a ciência pode fazer pela humanidade” Miguel Nicolelis

Em fevereiro começam os testes no Brasil. O grupo selecionado pela AACD, passará antes por um treinamento através de um simulador de realidade virtual onde aprenderão a enviar os pensamentos em sinais para o aparato. Em entrevista ao New Scientist, Gordon Cheng, da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, afirmou que “as vibrações podem replicar a sensação de tocar o chão”. Cheng, um dos cientistas envolvidos no projeto, está desenvolvendo em seu laboratório “pele artificial” que revestirá lugares estratégicos do exoesqueleto e será a responsável por enviar sinais de informação tátil ao artefato.


Em entrevista ao Portal da Copa, Nicolelis disse que “quando a pessoa tocar o chão, quando o joelho da veste robótica se mexer, os sensores táteis permitirão que esses sinais gerados no robô possam ser devolvidos para o sujeito através de uma camiseta que transmite esses sinais de volta para a pele dos braços ou do dorso, onde a pessoa ainda tiver a sensibilidade intacta”. Isso será possível graças à camiseta desenvolvida na Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça. Ainda em entrevista ao Portal da Copa, o cientista afegão Solaiman Shokur, um dos pesquisadores que participaram desse trabalho e que atualmente integra a equipe do Instituto de Neurociências de Natal, afirmou que esse feedback tátil permitirá que o paciente caminhe sem precisar ficar constantemente olhando para baixo.

Em relação ao projeto, a AACD afirma que “para uma instituição que atua há 63 anos em prol do atendimento à pessoa com deficiência física, identificar e participar de avanços científicos como este sempre gera boas expectativas. Claro que mesmo após o lançamento do projeto ainda haverá um grande caminho a ser percorrido, mas sem dúvida este será um grande passo”.

Os olhos do mundo estarão voltados aos gols da Copa do Mundo no Brasil, mas é o pontapé inicial que vai começar a mudar a realidade de muita gente. Nicolelis, as entidades, e todos os pesquisadores do projeto são enfáticos ao dizerem que este é realmente apenas um primeiro passo. “A apresentação do projeto ao mundo será feita durante a Copa do Mundo, mas, como dito, este será apenas o pontapé inicial deste projeto. Sem dúvida ainda haverá muito a ser feito”, reitera a AACD.

por Suellen Santana
Techmed