Para fazer em casa

 

Disponível para download gratuito e impressão em 3D, a prótese mecânica Robohand ajuda pessoas que nascem sem os dedos a recuperar a função normal das mãos

Quando o marceneiro sul-africano Richard Van As, destro, teve quatro dedos de sua mão direita amputados em um acidente de trabalho, decidiu, ainda na unidade de pronto atendimento do hospital, que iria construir um conjunto de dedos prostéticos para substituir os que perdera. Dois anos depois, a busca que partiu de um interesse próprio tomou forma altruísta: em parceria a longa distância com o designer de animatrônicos norte-americano Ivan Owen, Van As desenvolveu e disponibilizou em domínio público na internet uma mão mecânica replicável por impressão 3D. Batizada de Robohand, a prótese de baixo custo tem “código aberto” e foi aperfeiçoada especialmente para uso em crianças portadoras de síndrome da banda amniótica.

A doença é uma anomalia congênita que resulta em má formação nas extremidades do feto. Frequentemente, crianças que sofrem deste mal nascem sem os dedos de alguma das mãos. É o caso das quatro crianças sul-africanas que já possuem suas Robohands, cada uma dimensionada sob medida para suas respectivas necessidades – e todas receberam suas mãos robóticas gratuitamente.

 

Foi através de um vídeo no YouTube que Van As encontrou Ivan Owen, um norte-americano especializado em mãos animatrônicas que o ajudou no design das próteses

 

A primeira motivação de Richard Van As para o desenvolvimento da Robohand foi o custo elevado das próteses existentes no mercado. “Após as despesas médicas que tive por conta do meu acidente, percebi que pagar por uma prótese de reposição está fora do alcance da maioria das pessoas”, relembra. No caso dele, dedos prostéticos feitos sob medida custariam – cada um – mais de 10 mil dólares.Na busca por dedos substitutos economicamente viáveis, foi através de um vídeo no YouTube que o marceneiro de Joanesburgo encontrou Ivan Owen, norte-americano especializado em mãos animatrônicas, e logo a dupla passou a colaborar à distância no design  das próteses de baixo custo. O processo era longo e demorado, pois a cada mudança no protótipo que um deles fazia, adicionava-se o tempo do objeto viajar dos EUA à África do Sul, ou vice-versa. Foi aí que eles tiveram a ideia de usar uma impressora 3D.

 

Prototipagem rápida

De acordo com o professor Marcelino Monteiro de Andrade, pesquisador do Núcleo de Laboratórios de Engenharia e Inovação da Universidade de Brasília (UnB), a principal vantagem da utilização de impressão 3D no desenvolvimento de próteses ativas é, “além dos custos progressivamente menos proibitivos, a ampla viabilidade de avaliar diferentes materiais para compor a estrutura física da prótese (como metais ou náilon, entre outros), combinada com a flexibilidade do processo de concepção a partir de modelos computacionais tridimensionais”.

Assim, foi a partir da doação de duas impressoras MakerBot que Owen e Van As, separados por aproximadamente 15 mil quilômetros, puderam realmente colaborar na concepção e prototipagem da prótese. Com as impressoras 3D cedidas pela fabricante, bastava o envio de pequenos arquivos por e-mail para ambos trabalharem em modelos físicos exatamente iguais, mesmo estando em continentes diferentes.

 

A Robohand tem “código aberto” e foi aperfeiçoada especialmente para uso infantil, em crianças portadoras de síndrome da banda amniótica

 

Até então, eles nunca tinham ouvido falar na síndrome da banda amniótica. Após criarem uma página no Facebook para o projeto, Yolandi Dippenaar, mãe de Liam, uma criança nascida em Joanesburgo sem os dedos da mão direita, entrou em contato com Van As e pediu ajuda para seu filho. Foi assim que o garoto de cinco anos recebeu a primeira Robohand, um conjunto de dedos mecânicos que se abrem e fecham para segurar e movimentar objetos conforme os movimentos do pulso.

A partir dessa experiência, Van As percebeu o verdadeiro potencial do projeto: se os custos dos membros artificiais disponíveis no mercado já são proibitivos, imagine no caso das crianças, que precisam trocar de próteses algumas vezes conforme vão crescendo. Com a Robohand, o custo total dos materiais fica em torno de 150 dólares; basta imprimir uma nova. Liam já tirou as medidas para provar a segunda.

 

Rede colaborativa 

Os arquivos e instruções para imprimir e montar a Robohand estão publicados como open source e disponíveis para download gratuito em um site específico. Mas e quem não tem impressora em casa? “Tudo é possível, basta aplicar sua mente!”, garante Richard, que costuma orientar quem o procura em busca de adaptações, por e-mail ou pelo Skype. “As pessoas que realmente acreditam se apropriam do projeto e movem montanhas para fazê-lo funcionar.”

É o caso das mais de 200 pessoas que doaram, juntas, mais de 10 mil dólares para a continuação do projeto em um campanha de crowdfunding. É o caso, também, das que estão em um mapa de voluntários dispostos a imprimir Robohands para quem precisar, no mundo todo. Inclusive aqui no Brasil.

 

por Daniel Ferraz | fotos Divulgação
Techmed