Outras formas de andar pela cidade

Exemplos de mobilidade urbana alternativa revelam obsolescência do carro próprio

Um dos grandes desafios para quem vive em uma cidade é a locomoção. E, quanto maior a metrópole, maiores as dificuldades de ir de casa para o trabalho, para os estudos ou até mesmo para um momento de descanso no parque. De forma simplista, isso acontece porque o número de moradores aumenta, mas não o número de ruas. E aí entram os carros, o trânsito, os engarrafamentos e todo o sufoco que os habitantes dos centros urbanos conhecem bem. 

Segundo a pesquisa de mobilidade urbana feita pelo Ibope a pedido da Rede Nossa São Paulo e da ONG Cidade dos Sonhos e divulgada em setembro de 2017, a insatisfação do paulistano com o transporte público e a locomoção em geral na cidade aumentou. Entre as questões levantadas, a pior avaliação ficou com o tema “situação do trânsito na cidade”, cuja nota caiu dos 3,2 da pesquisa anterior para 2,7 em uma escala de 1 a 10.

Outro dado importante revelou que 80% dos entrevistados afirmam que “com certeza” ou “provavelmente” deixariam de tirar o carro da garagem se tivessem uma “melhor alternativa de transporte”. Ao mesmo tempo, apenas 9% disseram que não deixariam de usar o automóvel mesmo com um transporte público de qualidade — uma queda quando comparado aos 18% que disseram isso na pesquisa anterior.
Como, em média, o paulistano que usa diariamente o carro leva 2h02 indo e voltando de sua atividade principal e aquele que utiliza o transporte coletivo gasta em média 2h11, não é de se espantar que o número de pessoas em busca de alternativas para se locomover nas grandes cidades venha aumentando.

A era dos aplicativos
Nos últimos anos, a chegada dos apps representou uma enorme mudança para a dinâmica do trânsito nas cidades. Graças a aplicativos como Uber, Cabify, 99Pop e Easy, houve uma queda nos valores cobrados por corridas de transporte privado de passageiros. Houve, inclusive, quem abandonasse de vez o automóvel para fazer uso apenas desses serviços. “Dois motivos me fizeram vender o carro: tirar do meu dia a dia um fator de irritação e estresse e também economizar dinheiro, já que passei a trabalhar a maior parte do tempo em casa e não fazia sentido manter um carro, com todas suas taxas e impostos”, conta o cineasta Tiago Trigo, que teve carro desde os 18 anos.

De acordo com ele, uma vantagem encontrada nesse serviço é a livre concorrência entre diversos aplicativos, que gerou uma corrida desenfreada por clientes. “Eu vario sempre por causa dos descontos oferecidos. Além disso, não tenho mais que me preocupar com estacionamento, seguro ou impostos, e posso tomar minha cerveja sem causar danos a ninguém”, completa.

Porém, uma nova modalidade vem conquistando espaço no trânsito caótico das grandes cidades: o compartilhamento de veículo. Nessa modalidade, o usuário pega o carro em um ponto, faz o percurso e o deixa em outro local determinado, liberando o automóvel para o próximo cliente, fazendo uso apenas do celular. Tudo com menos burocracia e mais flexibilidade que o aluguel convencional.

Entre os diversos aplicativos que oferecem esse serviço, como o Zazcar, o Parpe e o Moobie, um que vem se destacando em São Paulo é o Urbano Car Sharing. Sua operação, batizada de free floating, dispensa a necessidade de pontos fixos para os carros, tanto para retirada quanto para entrega. Feita a reserva, o usuário tem 15 minutos para chegar ao local, destravar a porta com o próprio app, pegar a chave e ligar o carro.

Além disso, o Urbano Car Sharing colabora para o meio ambiente ao fazer uso de automóveis elétricos em sua frota, espalhada por 12 home zones da cidade, que incluem bairros como Bela Vista, Vila Olímpia, Brooklin e a região do aeroporto de Congonhas. “São veículos que não emitem CO2, o que significa que há redução de emissão desse gás, além de reduzirmos o uso excessivo de carros”, destaca o CEO da LDS Group, Leonardo Domingos.

Solidariedade e carro cheio
A prática da carona é antiga, mas ganha a cada dia mais adeptos nas metrópoles. Isso por conta da interação promovida tanto por aplicativos quanto por grupos formados em redes sociais, que acabam unindo pessoas que vivem em uma mesma região e, por coincidência, trabalham em locais próximos.

Evitar a síndrome do condutor solitário, cujo automóvel ocupa espaço com apenas um ocupante, é apenas um dos atrativos dessa forma alternativa de mobilidade urbana. Além da companhia em si, a carona proporciona o aumento da rede de networking dos envolvidos, colabora para a melhora do trânsito e do meio ambiente.

Entre as muitas modalidades disponíveis em apps de carona encontra-se a oferecida diretamente às empresas, como forma de facilitar a vida de seus funcionários por meio do compartilhamento de caronas. De acordo com o Bynd, um dos aplicativos que oferece esse serviço, a ideia é garantir segurança aos colaboradores.

Utilizando o Bynd há cinco meses, o funcionário administrativo da Localiza, Celio Junio Vieira, leva e traz diariamente colegas da empresa que residem no seu bairro, na cidade de Belo Horizonte. Para ele, a mudança representou uma melhora no seu cotidiano, que consistia em ir e vir sozinho no seu automóvel.

“Os funcionários abraçaram a ideia, e agora sempre vou com pelo menos outras três pessoas no carro”, conta ele, que não apenas estreitou laços com pessoas do seu departamento, mas também conheceu colaboradores de outros setores.

O aplicativo, que já contabiliza mais de 10 mil caronas em apenas três anos, ainda oferece aos usuários um sistema de pontos múltiplos ganhos a cada viagem, apostando na gameficação da plataforma. Posteriormente, eles podem ser trocados por passagens aéreas, eletrodomésticos e até mesmo combustível para o veículo.

O retorno das magrelas
Talvez um dos melhores exemplos de transporte alternativo impulsionado pelos congestionamentos nas grandes cidades seja a bicicleta. O crescente número de ciclistas estimulou o aumento de ciclovias em diversas capitais, caso de São Paulo, que passou a ter, em dezembro de 2017, a mais extensa malha cicloviária da América Latina, com 468 km de ciclofaixas — seguida pelo Rio, com 450 km, e Brasília, também com 450 km.

Porém, mesmo esses esforços não são suficientes para cobrir todas as vias onde ciclistas se arriscam diariamente entre carros, motos, ônibus e caminhões. A taxa de mortalidade na capital paulista aumentou 48% em 2017, com 37 ciclistas mortos contra 25 em 2016, segundo dados do Infosiga, órgão estadual que contabiliza as mortes no trânsito.

Essa realidade faz com que muitos desistam de tentar pedalar para o trabalho. E é aí que entra o Bike Anjo, projeto voluntário onde ciclistas experientes ensinam gratuitamente quem quer aprender a usar a bicicleta nas vias das cidades com segurança. Além de ensinar até quem nunca pedalou a dar os primeiros passos, os instrutores auxiliam na escolha de rotas mais tranquilas, transmitindo conceitos de segurança no trânsito. Afinal, só quem tem experiência no uso de bicicletas como meio de transporte consegue explicar as diferenças entre isso e as pedaladas em momentos de lazer.

 

Segundo pesquisa, 80% das pessoas deixariam seus carros em casa se pudessem contar com transporte público de qualidade

 

Para participar do programa, que conta com cerca de 6 mil voluntários em mais de 600 cidades, o interessado precisa preencher um formulário no site Bike Anjo. A partir daí um instrutor voluntário da região em questão entrará em contato, combinando dia e horário para fazer o acompanhamento nas ruas.

“É um projeto não só para trazer novos ciclistas para as ruas, mas tornar o trânsito mais humano e a cidade mais humana”, diz o cofundador do Bike Anjo, que já chegou a outros países como Equador, França, Estados Unidos, Austrália e Portugal.

 

Um esforço coletivo
Segundo Guillermo Petzhold, especialista em mobilidade urbana do WRI Brasil, nos últimos tempos houve uma grande expansão de mobilidade graças à popularização dos smartphones, que ofereceram novos meios de deslocamento à população além de carro particular, ônibus e trens.

Porém, para ele, a solução não pode ficar relegada aos transportes alternativos e à iniciativa privada. “O poder público precisa agir de forma a integrar essas novas soluções aos meios tradicionais de transporte. Elas sozinhas não resolvem os problemas de mobilidade das cidades. Precisam estar alinhadas aos meios de transporte convencionais”, contextualiza.

Questionado sobre o papel do metrô da região metropolitana de São Paulo, que conta com 164 estações e 340 km de trilhos para cobrir uma área de 7.946 km², onde vivem 21,3 milhões de pessoas — o que é pouco se comparado ao mesmo serviço em Londres, que possui 270 estações e mais de 400 km de trilhos para uma área de 1.579 km² e pouco mais de 8,7 milhões habitantes —, o especialista pondera pontos importantes.

“Quando pensamos no metrô associamos a cidades como Londres e Paris, cujos trilhos foram iniciados ainda no século 19. A solução passa por uma rede integrada. Não é só o metrô que vai resolver, assim como não é só o app”, explica Guillermo, ressaltando a importância do planejamento urbano. “É preciso fomentar o uso misto do solo, com zonas residenciais que possuam comércios e demais serviços acessados pela população a pé ou de bicicleta”, defende.

 

Em média, o paulistano que usa o carro diariamente leva 2h02 para ir e voltar das principais atividades

 

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Uber

Uber
Precursor dos aplicativos que disponibilizam carros particulares para os usuários finais. Chegou ao Brasil em 2014 e já atende mais de 100 cidades. Oferece serviços segmentados, como Premium, Bag (porta-malas grande), Pool (mais de um passageiro), entre outros.

Parpe

Parpe
Site de compartilhamento de carros que permite que qualquer pessoa alugue seu carro para outras pessoas. O proprietário do carro escolhe quem pode ou não alugá-lo e só libera a chave com o pagamento antecipado.

99

99
Um dos primeiros aplicativos com foco nos taxistas e já está em mais de 300 cidades do Brasil. Atualmente, oferece também carros particulares, e o app compara qual é a tarifa mais barata na hora da solicitação.

Zazcar

Zazcar
Primeiro aplicativo de aluguel de carros entre pessoas físicas que ganhou popularidade. Permite que os usuários aluguem carros uns dos outros, sem contar com frota própria.

Cabify

Cabify
Concorrente direto do Uber, o Cabify também está presente em diversos países. No Brasil ainda inicia a expansão e está apenas em Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Santos e São Paulo.

Urbano

Urbano Car Sharing
A empresa conta com frota de carros espalhada pela cidade de São Paulo, disponível para o aluguel a qualquer momento do dia. O aplicativo permite que o usuário abra o carro pelo celular, e acesse as chaves dentro do veículo e saia dirigindo.

Easy

Easy
Outro precursor dos aplicativos de táxis. Tentou oferecer carros particulares (EasyGo), mas atualmente foca seus serviços nos carros de praça. Tem presença global e está presente em 420 cidades em todo o mundo.

Bynd
Aplicativo que permite aos colaboradores de uma mesma empresa encontrarem caronas com colegas de trabalho. A proximidade entre os usuários permite que a operação seja mais segura.

Texto: Guss de Lucca | Imagens: Thinkstock, Divulgação
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