O som da visão

A audição vem se tornando a solução mais plausível para fazer pessoas com deficiência visual voltarem a enxergar

O músico britânico Neil Harbisson nasceu enxergando apenas em preto e branco. A doença, chamada acromatopsia, impediu o artista de distinguir as cores por mais de 20 anos. Em 2004, porém, a deficiência congênita acabou perdendo a batalha para a engenhosidade humana. Harbisson se submeteu a uma experiência de extensão de sentidos e acoplou ao corpo o eyeborg, um olho eletrônico. O equipamento é composto por uma câmera que capta as cores do ambiente e por um chip, implantado no cérebro de Harbisson. O chip converte o registro cromático feito pela câmera em ondas sonoras, percebidas pelo ouvido do músico.

Cada cor e cada tonalidade são traduzidas em um som particular. Foi assim que, aos 22 anos, o compositor aprendeu a ouvir e distinguir as cores. “Eu posso sentir o som como um pequeno tique; o azul, por exemplo, soa engraçado, como vibração de som eletrônico”, conta. Dependendo do volume do som, ele compreende os microtons e a saturação das cores. O eyeborg permite a Harbisson reconhecer 360 matizes, os elementos-chave para a percepção das cores.

E já que as autoridades britânicas reconheceram o eyeborg como parte de seu corpo, Harbisson é considerado hoje o primeiro ciborgue do mundo. “A principal mudança na minha vida foi que antes eu sempre perguntava às pessoas: Que cor é isso aqui? Que cor é aquilo? Agora são as pessoas que me perguntam: ‘qual é o som dessa cor? E daquela outra?’”, se diverte.

TechmedAlém das cores

O equipamento de Harbisson foi feito exclusivamente para ele, mas o som parece ser o futuro para restabelecer a visão a quem não a possui. O cientista de pesquisas mais avançadas é o israelense Amir Amedi, doutor em Neurociência Computacional.

 

Em seu laboratório na Universidade Hebraica de Jerusalém, Amedi alfabetizou mais de dez deficientes visuais na linguagem sonora gerada por computador usando um aparelho chamado de substituto sensorial (Sensory Substitution Device – SSD). Ele é constituído por uma câmera de vídeo conectada a um computador e fones de ouvido. O funcionamento é simples: as imagens captadas são transformadas pelo computador em algoritmos. Estes são então convertidos em “soundscapes”, diferentes conjuntos de sons, emitidos pelos fones e identificáveis pelo usuário.

 

Para interpretar a informação visual contida no som, os pacientes cegos passam por um treinamento. “Apenas uma, duas horas são necessárias para aprender a ler letras com o aparelho. Tarefas mais complexas podem ser realizadas com mais prática e experiência”, explica o cientista.

 

Alfabetização sonora

 

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O olho eletrônico de Harbisson: a câmera capta as cores do ambiente e o chip implantado no cérebro dele as traduzem em sons – [ foto Dan Wilton/The Red Bulletin ]

 

Geralmente, a carga horária do processo de alfabetização sonora é de 70 horas. As aulas começam por estruturas simples. A pessoa com deficiência visual memoriza o som representado por uma linha diagonal. Depois, ouve o som equivalente a uma linha diagonal invertida. Ao escutar a combinação de ambos os sons, o cego aprende que as duas linhas diagonais se cruzam formando um “X”. Seguindo essa lógica, usuários do SSD podem compreender formas geométricas, ler cartas e até reconhecer expressões faciais.

 

O estudo vem chamando a atenção dos neurocientistas, pois ao analisar a atividade cerebral dos voluntários de suas pesquisas, Amedi constatou que o cérebro passou a funcionar de modo diferente. “A maior surpresa até agora foi descobrir não só que o cérebro de um cego processa a visão por meio da audição, mas que ele faz isso ativando o córtex visual”. Ou seja, o cérebro é capaz de reconhecer quando algo ouvido constitui não apenas som, mas também informação visual – direcionando-a para o conjunto de neurônios mais adequado.

 

Por enquanto, o sistema de Amedi não tem data para deixar os laboratórios e se tornar um recurso à disposição de qualquer pessoa com deficiência visual. Mas se mostra um caminho viável, barato, e de fácil disseminação. Como é o caso de um aparelho brasileiro, criado em São Paulo, e à venda na internet.

 

Techmed Comando de voz

 

Quando estava na Escola Politécnica da USP, em 2006, o então estudante Fernando Gil participou de um grupo de trabalho que construiu o protótipo de um identificador de cores para pessoas cegas ou com daltonismo. O aparelho, do tamanho de um celular, possui um sensor de luminosidade que capta as cores primárias. Após a leitura, o equipamento “fala” a cor.

 

A ideia ultrapassou os muros da universidade e transformou Gil em empresário. Ele fundou a Auire Tecnologias Acessíveis, que comercializa o equipamento. “Como a pessoa não enxerga, ela tem dificuldade de selecionar roupas e se vestir. Com o Auire, dá para fazer isso de forma autônoma, com auxílio do som”, ressalta. Além de identificar cores, o aparelho reconhece cédulas de Real, ajudando os cegos a contar dinheiro e conferir o troco no caixa. Afinal, enquanto a capacidade de ver por meio dos sons avança nos laboratórios, ter um dispositivo portátil é o passo mais viável que a pessoa com deficiência visual pode dar em direção à maior qualidade de vida.

 

Visão de videogame

 

Que tal usar a tecnologia popular e acessível dos videogames para beneficiar cegos? Esse foi o insight de Eric Berdinis e Jeff Kiske, estudantes de Engenharia da Computação da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Eles usaram o Kinect, acessório do Xbox 360 que reconhece imagens e movimentos, permitindo a interação do jogador com a tela sem necessidade de controladores, para criar um aparelho capaz de enxergar obstáculos.

 

Os dois acoplaram o Kinect a um cinto vibratório, depois colocado na cintura da pessoa com deficiência visual. Para indicar a posição dos obstáculos, o cinto foi fabricado com três zonas de vibração. “Conforme o usuário se aproxima de algo à esquerda, ele vai sentir o alerta na posição equivalente do cinto. À medida que ele se aproxima, o buzzer vibra com maior intensidade”, explica Berdinis. Dessa maneira, é possível não apenas desviar de objetos, como também ampliar a noção espacial.

 

Após divulgar a invenção na internet e ver o sucesso com que foi recebida, Berdinis e Kiske pensam em entrar no mundo dos negócios. Já estão avaliando as possibilidades comerciais do produto, que batizaram de Kinecthesia. “Até agora, não era possível competir com bengalas e cães-guia. Mas devido ao baixo custo do cinto, essa tecnologia pode se espalhar rapidamente”, diz Berdinis. O preço do Kinecthesia ficará em torno de 350 dólares, mas a dupla ainda busca investidores que possam financiar a produção inicial.

por Diego Iraheta
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