O poder do abraço

 

Através do abraço demonstramos afeto, carinho, cuidado e amor. É a ele que recorremos quando comemoramos o gol do nosso time com aquela pessoa ao lado que talvez não conhecemos, mas que, naquele momento, partilha da mesma alegria. É em um abraço que procuramos paz depois de um dia difícil. É através dele que consolamos e somos consolados.

A T-Ware, empresa de Cingapura, desenvolveu a primeira jaqueta que transmite o sentimento de ser abraçado. A T-Jacket conta com um sistema que permite enviar um abraço controlado por um aplicativo através do smartphone ou tablet. A tecnologia foi desenvolvida com o intuito de enviar o estímulo de um abraço a crianças autistas quando o contato com os pais não é possível. Controla-se a intensidade e o tempo da compressão através do aplicativo, visando diminuir a ansiedade da criança.

Pesquisas recentes nos Estados Unidos revelam que uma em cada 50 crianças é diagnosticada com autismo enquanto os meninos são cinco vezes mais afetados que as meninas, e cada um, a despeito do gênero, desenvolve o transtorno de uma forma particular. Em premissa, o autismo afeta a capacidade de comunicação e de relacionamento com as pessoas e com o mundo exterior. Apesar de não existir cura para o transtorno, a intervenção precoce permite o desenvolvimento dessas crianças, que podem se tornar adultos independentes.

O abraço utiliza-se de diversos sentidos, demonstra vários sentimentos e pode passar segurança, principalmente para uma criança autista. “No caso do nosso filho, quando a gente vê que ele está muito pilhado e com os batimentos cardíacos acelerados, a gente abraça ele por trás e faz uma compressão no peito dele por alguns segundos. Isso passa uma segurança para o corpo, que relaxa”, é o que diz Silvia Ruiz, esposa do músico Renato Godá, pais de Tom. O garoto chegou a todas as fases do desenvolvimento, falou as primeiras palavras e deu os primeiros passos aos 11 meses. Próximo aos dois anos, começou a apresentar sinais de regresso. O diagnóstico precoce permitiu que Tom fosse encaminhado imediatamente à terapia comportamental e iniciasse o tratamento. Renato compartilha com seus amigos diversas das conquistas de Tom através do Facebook.

Fernanda Nogueira, de 32 anos, é professora em uma escola particular no bairro de Pinheiros, em São Paulo, e dá aulas para Nina, de quatro anos. A criança, diagnosticada aos dois anos, já apresenta muita evolução. O trabalho com Nina conta com a dedicação de Fernanda, de sua mãe e de uma terapeuta. Sobre a funcionalidade da T-Jacket, a professora diz que “essa jaqueta pode auxiliar em casos de crianças que não permitem o toque, funcionando como uma ‘introdução’. Pressuponho que a jaqueta surgiu da experiência da Temple Grandin”.

Temple Grandin é uma autista adulta de 66 anos, bacharel em psicologia pela Franklin Pierce College, mestre em zoologia pela Universidade Estadual do Arizona e Ph.D. em zoologia desde 1989 pela Universidade de Illinois. Atualmente, ministra cursos na Universidade Estadual do Arizona. Em alguns dos seus livros, ela descreve sua descoberta de como a pressão profunda a ajudou a reduzir os efeitos debilitantes da ansiedade. Na juventude, Temple desenvolveu a Máquina do Abraço, formada por duas placas laterais acolchoadas que são articuladas próximas à parte inferior, no formato de um V. A pessoa se deita ou agacha no interior do V e, com a utilização de um cilindro de ar ativado por uma alavanca, as placas são empurradas pela lateral do corpo, promovendo um estímulo profundo e uniforme. A sensação descrita por Temple é a mesma de um abraço e para ela, assim como para alguns outros autistas, o estímulo acalma e controla a ansiedade. A premissa da T-Jacket é bastante próxima à da Máquina do Abraço, porém, acionada pelos pais através de um aplicativo.

O abraço é uma intervenção utilizada por terapeutas para acalmar e ajudar na organização das questões sensoriais, em geral muito intensas nos autistas. Em complemento a Máquina do Abraço, é possível chegar a Terapia do Abraço proposta pelo psiquiatra italiano Michele Zappella. O tratamento se propõe a reduzir o isolamento social, aumentar a comunicação e desenvolver laços de união. A terapeuta ocupacional Larissa Ferrari, pós-graduada em visão dinâmica em neurologia pela Universidade Salesiano Auxilium de Lins e em neuroaprendizagem pela FMABC, ressalta que “a Terapia do Abraço deve ser utilizada em conjunto com outros tipos de terapias. O abraço por si só não é um estímulo suficiente para desenvolver ou incitar habilidades físicas ou cognitivas, porém, o aumento da capacidade de se comunicar e da interação social podem fazer com que a criança demonstre mais as aptidões que possui”, pondera.

A T-Jacket chega ao mercado como mais uma ferramenta de auxílio na inserção dessas crianças no mundo externo, através da simulação do carinho de um abraço sempre que o contato de seus pais ou de seus pares de segurança não for possível.

por Suellen Santana | fotomontagem Guilherme Bacellar
Techmed