O futuro agora

 

Antecipar as necessidades dos consumidores sempre foi uma característica de grandes empreendedores. De Henry Ford, que criou automóveis com preços acessíveis, até Bill Gates e seus softwares que facilitaram o uso dos computadores pessoais, alguns poucos empresários marcaram época por criar indústrias que depois se mostrariam essenciais. Mas, nos últimos 20 anos, algo mudou. Com a disseminação de informações na internet e as redes sociais, tendências surgem e se consolidam muito rápido. “Prever mudanças nos desejos e nos hábitos das pessoas comuns deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade básica”, diz Peter A. Gloor, pesquisador do Centro de Inteligência Coletiva da Sloan School of Management do MIT (Massachusetts Institute of Technology). “A empresa que se limitar a correr atrás de modas já consolidadas não vai sobreviver.” Para dar conta dessa demanda, as pesquisas de mercado ganharam mais importância e a colaboração de um profissional especializado em perceber novos hábitos: o cool hunter, ou caçador de tendências.

O trabalho de um cool hunter consiste, basicamente, em manter olhos e ouvidos bem abertos. É importante conhecer todos os lançamentos do cinema, do teatro, da literatura, da música e da televisão, ir a bares e restaurantes frequentados por pessoas influentes, viajar sempre que possível e andar pelas ruas para identificar mudanças de comportamento (desde o tipo de carro que as pessoas preferem até roupas e acessórios que usam). E, em especial, monitorar as redes sociais. “O Orkut, o Facebook, o Twitter, a Wikipédia e os blogs são fundamentais para perceber mudanças de opiniões e posturas. Todo bom caçador de tendências está ligado a centenas, se não milhares, de outras pessoas”, afirma o antropólogo Robert Kozinets, professor de marketing da Schulich School of Business da Universidade York, no Canadá. “De tanto se comunicar com as vanguardas, o profissional acaba, naturalmente, respirando tendências e identificando o futuro. Ele se torna uma verdadeira antena, capaz de captar as menores variações que vão se transformar em mudanças nos padrões de consumo das grandes massas no longo prazo.”

 

Relatório Popcorn

 

Não se trata, portanto, de passar o dia diante de bolas de cristal, esperando que o futuro se revele de forma mágica. E isso ficou claro em 1991, quando Faith Plotkin reuniu em livro o trabalho que ela vinha realizando à frente da BrainReserve, uma empresa de consultoria, marketing e pesquisas de mercado. Em O Relatório Popcorn, batizado da forma como Faith é conhecida (ela ganhou o apelido “pipoca” de um chefe), mudanças de comportamento hoje consolidadas eram previstas com grande segurança. Ali, Faith Popcorn afirmava que as pessoas iriam sair menos de casa e preferir, por exemplo, ver um filme na segurança do lar a ir ao cinema. Também decretou que os grandes utilitários esportivos virariam moda nas ruas das grandes cidades. Ela não acertou todas, claro: garantia o fim dos supermercados e uma nova onda de compras de comida online, o que não aconteceu. Mas deu visibilidade para os cool hunters. Hoje sua empresa fatura US$ 25 milhões por ano. Chega a cobrar US$ 1 milhão por projeto de consultoria – que grandes empresas pagam sem pestanejar. Tem apenas 20 funcionários em sua sede, em Nova York, mas 6 mil colaboradores espalhados pelo mundo.

Os caçadores de tendências atuam em qualquer área. Mas em algumas eles são ainda mais necessários. É o caso do design e da moda. “Os fabricantes de automóveis, softwares, cosméticos, alimentos, joias, games, todos eles recorrem aos cool hunters. Mas, nas áreas em que as tendências mudam mais rápido, eles são ainda mais importantes”, diz Sabina Deweik, sócia no Brasil do instituto de pesquisas de tendências de consumo Future Concept Lab, de Milão. “Hoje o maior mercado para esse profissional está no mundo da moda, onde a escolha de pequenos detalhes para uma nova coleção pode definir o sucesso ou o fracasso da grife naquela temporada.”

 

Seja você um cool hunter

 

Cinco dicas para você identificar tendências

• Olhos abertos: Não perca nenhum grande sucesso dos cinemas, da TV ou das livrarias. De novelas a filmes cultuados, assista a tudo o que conseguir.

• Faça contatos: Converse sempre com todas as pessoas que puder, do porteiro do prédio ao sommelier dos restaurantes mais caros. Ouça mais do que fale.

• Navegue: Seguir o Twitter dos maiores formadores de opinião, de Oprah a Charlie Sheen, é indispensável. Identifique todas as grandes autoridades em qualquer área – da moda ao futebol.

• Ande a pé: Observe, sem pressa, as ruas, os parques, as pessoas, os carros, os outdoors, as fachadas dos prédios… Eles são uma fonte preciosa de informações.

 

Como se tornar

 

Para ser um cool hunter é preciso ter muita intuição e uma grande capacidade de observação. Também é importante estar disposto a trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana. “Uma festa na escola dos filhos é uma oportunidade única. Um filme deixa de ser apenas distração”, diz Sabina Deweik. O Brasil já tem espaço para esse profissional tão típico do século 21. Existem vários cursos de formação – na capital paulista, os mais reconhecidos são realizados pelo Instituto Europeo de Design (IED) e pela Escola São Paulo, mas também existem disciplinas universitárias ou palestras em outras grandes cidades do Brasil. A formação consiste em algumas noções teóricas de semiótica, mas, principalmente, em atividades práticas. A mais importante delas é o chamado safári urbano – os alunos são estimulados a andar pelas ruas com câmeras fotográficas a tiracolo, para exercitar a capacidade de identificar comportamentos e tendências. As imagens são interpretadas e transformadas em relatórios. Delas começam a sair ideias a respeito do que vamos querer consumir no futuro, mesmo que nem nós mesmos saibamos disso ainda.

 

 “Hoje o maior mercado para este profissional está no mundo da moda, onde a escolha de pequenos detalhes para uma nova coleção pode definir o sucesso ou o fracasso da grife naquela temporada” – Sabina Deweik, sócia no Brasil do instituto de pesquisas de tendências Future Concept Lab

 

Mudanças à vista

 

As tendências para os próximos anos, segundo o Future Concept Lab e a analista Faith Popcorn

• Plástica para eles: Lifting e tratamentos contra rugas vão se tornar normais entre os homens.

• Carros personalizados: Passamos muito tempo dentro de automóveis. O acabamento interno deles vai ser tratado como se decora a sala de casa.

• Semana de quatro dias: O movimento pela redução da carga horária que surgiu na Europa está ganhando outros continentes. Nos próximos anos, sexta-feira vai se tornar dia livre.

• Esportes mais radicais: Para fugir da rotina de trânsito e muito trabalho, a necessidade de altas emoções nos poucos momentos de lazer vai aumentar

• Moda popular: As grandes grifes já não se diferenciam muito das marcas caras e top models divulgam redes de grandes massas. Para quem quer se destacar pelo poder aquisitivo, é aceitável (e bem visto) combinar uma bolsa caríssima com uma blusinha simples.

• Pacote cultural: Prepare-se para encontrar livros de autoajuda vendidos com incensos e velas aromáticas, ou livros de fotos acompanhados por molduras criadas por designers famosos.

por Tiago Cordeiro - fotos: reprodução
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