O encanto de um líder

 

Tarde do dia 31 de agosto de 2016 em Quito, capital do Equador. Dezenas de jornalistas brasileiros aglomeravam-se numa abafada e apertada sala de entrevistas do Estádio Olímpico Atahualpa, à espera do técnico Tite. Enquanto isso, no gramado, a seleção brasileira treinava pela última vez antes de estrear sob o comando dele. A decisão de fechar a atividade à imprensa levou repórteres a roerem unhas de curiosidade sobre a formação que ele levaria a campo em sua estreia, mas aos três minutos da esperada coletiva, após uma indagação cheia de dedos e rodeios sobre a escalação, Tite foi direto e respondeu: “Alisson; Daniel Alves, Marquinhos, Miranda, Marcelo; Casemiro, Renato, Paulinho; Willian, Gabriel Jesus, Neymar”. A declaração direta, curta e esclarecedora arrancou sorrisos e aplausos da imprensa brasileira. Pode até soar exagerado, mas o novo técnico da seleção decretava ali o início de um convívio saudável, completamente contrário à relação belicosa do antecessor Dunga com jornalistas.

Foi o primeiro gol de Tite: cativar a opinião pública. Ele é tão bom nisso que, em 2017, seria chamado de “encantador de serpentes” pelo ex-zagueiro uruguaio Diego Lugano, hoje dirigente do São Paulo. Os três gols vieram no dia seguinte. A vitória por 3 a 0 sobre o Equador, além de alentar um Brasil cambaleante — àquela altura fora da zona de classificação para a Copa do Mundo, na sexta posição das eliminatórias sul-americanas — estabeleceu uma paixão à primeira vista entre treinador e torcida. Foi o primeiro passo a caminho de se tornar unanimidade nacional.

 

Seleção, um projeto de vida
8 de julho de 2014. Gol da Alemanha. Mais um. Outro… O histórico e amargo 7 a 1 sofrido pela seleção na semifinal da Copa do Mundo, no Mineirão, causou a imediata certeza de que a trajetória de Luiz Felipe Scolari como comandante do Brasil se encerraria dias depois. Nenhum brasileiro conseguiria sobreviver a tamanho golpe, a tamanha humilhação no cargo que, a cada quatro anos, dizem ser mais importante do que o de presidente da República. Nas ruas e bares, Tite era considerado o grande favorito para assumir o cargo. A escolha era óbvia. Campeão paulista, brasileiro, da Recopa, da Libertadores e do mundo pelo popularíssimo Corinthians entre 2011 e 2013, ele estava desempregado — uma estratégia de carreira pensada justamente para estar disponível depois da Copa e assumir o Brasil. Haveria pouquíssima contestação. A escolha estava nas mãos de José Maria Marin, então presidente da CBF, e hoje condenado e preso por seis crimes no escândalo de corrupção da Fifa. Ele optou por Dunga, um técnico impopular no momento de maior descrédito da história da seleção brasileira.

Tite ficou frustradíssimo. Assistiu à Copa do Mundo disputada no Brasil convicto de que seria “o cara” a partir de agosto de 2014. Fez anotações sobre os 64 jogos – procedimento que já adotara em 2006 e 2010. Restou a ele continuar se preparando e estudando minúcias do 4-1-4-1, esquema tático que se tornaria sua identidade no título brasileiro do ano seguinte, novamente pelo Corinthians. “Admito que fiquei frustrado, algo natural pela expectativa que eu criei e pela expectativa que vocês também da imprensa criaram. Mas é algo natural. Eu tive uma sondagem da seleção japonesa, mas preferi esperar o convite do Brasil. Foi um risco calculado. Quando a seleção foi para outra pessoa, já havia passado muito tempo”, disse. Há males que vêm para o bem. Preterido em 2014, Tite estava ainda mais forte e popular em junho de 2016, quando o Brasil de Dunga foi eliminado da Copa América Centenário ao perder por 1 a 0 para o Peru. O vexame, somado à má campanha nas eliminatórias e ao mau relacionamento com alguns jogadores — principalmente Neymar, a grande estrela da companhia —, tornou insustentável a situação de Dunga, demitido ao chegar ao Rio de Janeiro. Havia, enfim, chegado a vez de Tite, que embarcou num helicóptero enviado pela CBF e viajou da capital paulista à fluminense para reunir-se com o presidente Marco Polo Del Nero. Fazer renascer a seleção, arranhada, abalada, menosprezada, era um desafio e tanto. Um risco, mas que ele jamais pensou em recusar.

Tite tem estilo direto e respeitoso com jogadores, torcedores e imprensa — motivo que o tornou amado por todos

Tite tem estilo direto e respeitoso com jogadores, torcedores e imprensa — motivo que o tornou amado por todos

Toque pessoal
O primeiro ato como técnico da seleção foi cercar-se de pessoas de confiança, a começar pelo coordenador Edu Gaspar, peça importante de seu êxito no Corinthians. Os auxiliares seriam Cleber Xavier, parceiro de uma vida de futebol; seu filho Matheus Bachi; e Sylvinho, também vindo do clube paulista. A comissão técnica teria ainda outros velhos conhecidos, como o preparador físico Fábio Mahseredjian e o analista de desempenho Fernando Lázaro. A missão de resgatar o Brasil do limbo no torneio classificatório para a Copa do Mundo, o principal objetivo, levou Tite a negar um projeto dourado. Ele sugeriu que Rogério Micale, àquela altura já responsável pela preparação do time, fosse mantido como treinador da equipe na Olimpíada do Rio de Janeiro. Deu certo. O ouro, enfim, veio. Com poucos acréscimos ­­­— como Gabriel Jesus, descoberto nos Jogos Olímpicos, e Paulinho — Tite formou um time com a mesma base utilizada por Dunga, o qual não soube como extrair de cada um o melhor. Tite mudou tudo. Da estreia no dia 1º de setembro, sob ameaça de não ir à Copa do Mundo pela primeira vez na história, o Brasil foi rapidamente à certeza da classificação. Em novembro, pouco mais de dois meses e seis vitórias consecutivas depois, o carimbo do passaporte à Rússia passou a ser questão de tempo.

Promover a união entre os jogadores é um dos segredos para o bom desempenho da equipe

Promover a união entre os jogadores é um dos segredos para o bom desempenho da equipe

 

 

 

“Conhecido como “encantador de serpentes” por quem trabalha com ele, Tite conseguiu ser uma das poucas unanimidades nacionais”

 

 

 

 

Abraço e respeito que transformam
Tite ganhou também os jogadores. Com um discurso baseado em justiça e merecimento, ele passou por um momento tortuoso: depois de dois jogos, Philippe Coutinho ganhou a vaga de Willian com atuações muito melhores. Willian vivia momento pessoal delicado, a doença de sua mãe, que viria a falecer pouco depois. Um abraço do técnico nos dois diante de todos os jornalistas — num gesto também estratégico, no gramado da Arena das Dunas (Natal), durante a preparação para o jogo contra a Bolívia — sacramentou a substituição. Willian jamais reclamou. O Brasil, jogando bem, foi atropelando adversários: venceu Equador (3 a 0), Colômbia (2 a 1), Bolívia (5 a 0) e Venezuela (2 a 0). No jogo seguinte enfrentaria a Argentina, o maior clássico do futebol sul-americano, quiçá mundial, com o gênio Lionel Messi, e no Mineirão, o primeiro reencontro com o estádio do 7 a 1. Como se fosse regida por um maestro, a seleção pulverizou todas as dúvidas com um categórico 3 a 0, que fez Tite e seu joelho sofrido dos tempos de atleta correrem (mancarem) até a linha de fundo para comemorar o resultado numa explosão de alívio.

A confiança da torcida brasileira na seleção voltou com a série de vitórias nas eliminatórias

A confiança da torcida brasileira na seleção voltou com a série de vitórias nas eliminatórias

Viriam em seguida triunfos sobre o Peru (2 a 0), e uma sonora goleada por 4 a 1 noutro clássico, dessa vez sobre o Uruguai, e na casa da tradicional Celeste Olímpica, no estádio Centenário, palco da primeira final de Copa do Mundo. A oitava vitória consecutiva nas eliminatórias, sobre o Paraguai (3 a 0), em Itaquera, palco de tantas felicidades de Tite no comando do Corinthians, carimbou a vaga na Copa da Rússia. O Brasil saiu de uma posição altamente desconfortável para se tornar a primeira seleção classificada ao Mundial. Um feito e tanto encabeçado por esse gaúcho que o País todo abraçou. “Obrigado, Pai do céu”, exclamou o técnico durante a entrevista coletiva, assim que o jogo entre Peru e Uruguai terminou com vitória dos peruanos e sacramentou matematicamente a nossa classificação antecipada. Tite, além de confiar em Gabriel Jesus e Paulinho e de recuperar alguns jogadores que não rendiam com Dunga, fez o craque Neymar finalmente brilhar com a camisa amarela. O melhor jogador brasileiro, enfim, foi o protagonista que todos esperavam. Antes, fora de sua posição e insatisfeito com a relação com o antigo “professor”, sob comando de Tite se transformou. Ficou mais solidário, distribuiu passes e voltou a fazer gols. Embora continue a ser a principal peça da engrenagem, a sensação era de que o Brasil não dependia mais exclusivamente do talento de Neymar para conseguir bons resultados.

A Rússia é logo ali

“O Brasil é um dos favoritos, sim. Pelo futebol apresentado, pela campanha que fez, pelo nível e a soma de resultado e desempenho. É uma das equipes que podem ganhar a Copa”, admite Tite, que também coloca Alemanha, França, Argentina, Espanha e até a Bélgica entre as candidatas ao título. Em pouco menos de dois anos, Tite resgatou a confiança da torcida na seleção. Ganhar uma Copa do Mundo é sempre complicado, mas todos os que gostam de futebol no Brasil sabem que, sem o nosso atual treinador, a seleção não teria nenhuma chance de sonhar com esta conquista nos gramados russos – ou que, pior, nem estaríamos lá. Que Tite nos conduza ao tão esperado hexacampeonato. ___________________________________________________________________________________

1961 — Origem O futebol sempre fez parte da vida de Adenor Leonardo Bachi, nascido na cidade gaúcha de Caxias do Sul, em 25 de maio de 1961, filho do casal Genor Bachi e Ivone Mazochi. Ao lado do irmão mais novo Ademir, conhecido como Miro – o treinador tem também uma irmã mais velha, cujo nome é Beatriz -, o garoto Ade participava de inúmeras partidas de futebol em sua cidade natal.

1978 — Ade vira Tite A chance de Ade se tornar um jogador profissional surgiu quando ele se destacou em um torneio escolar e, por indicação de Luiz Felipe Scolari (então no Caxias), o garoto foi fazer um teste no clube grená de sua cidade. E foi durante este treino que Ade ganhou o apelido de Tite. A alcunha que acompanha o técnico da nossa seleção era de um colega que jogava com Ade. Só que Felipão confundiu os garotos e acabou apresentando Adenor como Tite e o nome acabou pegando, já que ele foi aprovado e começou sua carreira como jogador no final dos anos 1970. No time de sua cidade natal, ele ficou entre 1978 e 1984 – no período teve uma passagem rápida pelo Grêmio, mas acabou deixando o Tricolor e voltando para o Caxias.

1985 — Chegada a Campinas Negociado com outro time do interior gaúcho, Esportivo de Bento Gonçalves, o meia foi contratado pela Portuguesa em 1985. Acabou se destacando no simpático clube paulistano e, depois de uma temporada, acabou se transferindo para o Guarani, que em meados da década de 1980 era um dos principais times do País e brigava por títulos nos principais torneios nacionais. Assim, Tite esteve presente nas campanhas do clube campineiro dos vice-campeonatos do Brasileiro (1986), Módulo Amarelo do Brasileiro (1987) e Paulista (1988).

1990 — Surge o técnico A carreira do jogador Tite acabou de maneira precoce. Com apenas 28 anos e sérios problemas no joelho, teve de abandonar os gramados. Formado em Educação Física, Tite começou sua carreira de técnico no modesto Guarany de Garibaldi (RS), em 1990, pouco mais de um ano depois de pendurar as chuteiras. E em 1993 já conquistou seu primeiro título como treinador, vencendo a Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho. Depois de passagens por times do interior e alguns trabalhos como comentarista de rádio, Tite assumiu o Caxias em 1999.

2000 — Proeza gaúcha No time que o revelou para o futebol, conseguiu uma proeza: conquistou o título do Campeonato Gaúcho de 2000 e acabou com a hegemonia da dupla Grêmio e Internacional, que vencia todos os torneios do Rio Grande do Sul desde 1957. Credenciado pelo título e trabalho no Caxias, ele acabou sendo contratado pelo Grêmio. Em sua primeira oportunidade em um time gigante, Tite não decepcionou e em 2001, além de ganhar o Gauchão mais uma vez, conquistou o título da Copa do Brasil.

2004 — Reconhecimento nacional Com a conquista gremista da Copa do Brasil, Tite ganhou reconhecimento nacional e passou a ser tratado como um dos grandes técnicos do País. Saindo do Rio Grande Sul, foi trabalhar no São Caetano e, no final de 2004, acabou assumindo o Corinthians, fazendo um bom trabalho em um time que chegou a ser ameaçado pelo rebaixamento. No ano seguinte, com o Timão fazendo uma série de contratações milionárias e trazendo nomes como os argentinos Tevez e Mascherano, além de Roger Flores e Carlos Alberto, Tite acabou deixando o clube, após desentendimentos com o empresário iraniano Kia Joorabchian, parceiro do clube na administração do futebol e responsável pelos grandes negócios que o time fez.

2005 a 2008 — Da seca à volta por cima Depois de trabalhos sem grandes resultados e demissões no Atlético-MG (2005), Palmeiras (2006) e Al Ain, dos Emirados Árabes (2007), Tite voltou a ganhar títulos no Internacional, aonde chegou em 2008. Vencendo a resistência de uma boa parte da torcida do Colorado, que achava que o treinador era muito identificado com o arquirrival Grêmio, Tite conquistou a Copa Sul-Americana (2008) e o Gauchão (2009), usando camisas vermelhas no comando do time no campo. Na mesma época teve também boas campanhas nos torneios nacionais, como a Copa do Brasil e o Brasileirão.

2010 — Ganhando tudo Saindo do Internacional, Tite teve mais uma passagem rápida pelos Emirados Árabes, treinando o Al-Wahda, e assumiu o Corinthians em outubro de 2010, quase no final do Campeonato Brasileiro. Com Tite, o time terminou em terceiro lugar e ganhou uma vaga para disputar a chamada pré-Libertadores de 2011. No torneio continental, o técnico viveu um momento bem delicado, quando Corinthians foi eliminado pelo modesto Tolima (Colômbia). Apesar dos inúmeros pedidos de demissão e grande pressão da Fiel, a diretoria bancou Tite e ele acabou ficando, decisão que se mostraria acertada. Depois do fracasso da eliminação na Copa Libertadores, Tite montou o time que conquistou o Brasileirão no final do ano.

2012 — O grande ano corintiano Mais uma vez, Tite disputaria uma Libertadores comandando o Corinthians. Agora, o desejo de todos era que o time finalmente vencesse o principal torneio das Américas pela primeira vez. Com precisão na escolha das peças e nas substituições, o Corinthians, guiado por Tite, ganhou a Libertadores de 2012 sem perder nenhuma partida, passando pelo Santos, que ainda tinha Neymar, nas semifinais, e o tradicional Boca Jrs. (Argentina), na decisão. Depois de conquistar a América, o Corinthians levou o Mundial de Clubes, batendo o poderoso Chelsea (Inglaterra) na decisão, por 1 a 0, no Japão invadido por mais de 30 mil corintianos.

2013 — Antes da seleção Após deixar o clube em 2013, voltou em 2015 e, mais uma vez, levou o Corinthians ao título do Brasileiro, com um time que não deu chance aos adversários, dominou a competição e conquistou a taça com três rodadas antes de terminar o torneio.

Texto: Rogério Reis | Imagens: Pedro Martins/MoWA Press
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