O cérebro como um guia

 

Mais de 80 bilhões de neurônios estão vibrando em alta velocidade e emitindo minúsculas faíscas elétricas, como choques imperceptíveis, enquanto você lê esta frase. Traduzir como se comporta essa rede complexa e obscura que forma o cérebro é uma das principais tarefas do nosso século, tanto para médicos e outros profissionais da saúde quanto para cientistas de diferentes especialidades. Em meio às pesquisas de todos eles, pelo menos três fatores são comuns: paciência, anos de dedicação e o auxílio da tecnologia.

Se no corpo humano há uma disposição sistemática para cada órgão, dentro do cérebro a cena é bastante diferente. Cada pessoa carrega um mapa cerebral particular, com formato, comportamento e padrões distintos, tudo construído a partir das escolhas cotidianas e da história de vida. Quem lê frequentemente ou pratica atividades físicas, por exemplo, tem um cérebro mais saudável e tende a apresentar menos doenças neurológicas. Já nos casos de depressão ou síndrome do pânico, em contrapartida, os pacientes podem desenvolver doenças degenerativas, como o Alzheimer e o mal de Parkinson. Tudo isso, ou nada disso. Cada cérebro à sua maneira.

 

“Além do uso no cotidiano médico, a MEG também vem sendo aplicada em pesquisas científicas e no desenvolvimento da indústria farmacêutica”

 

Já comum em clínicas da Europa e dos Estados Unidos, uma técnica chamada magnetoencefalografia – ou apenas MEG – permite o mapeamento dessa rede individual de neurônios. Por meio de centenas de detectores digitais que interpretam campos magnéticos, a MEG traduz os estímulos elétricos dos neurônios e identifica áreas destinadas a processos como fala, memória, equilíbrio e olfato, ou a sensações e sentimentos como medo, fome, tristeza e ansiedade – tudo em tempo real, sem cortes ou anestesia.

“Essas áreas são mapeadas também para o cirurgião evitar sequelas”, diz o médico Luis Basile, pesquisador do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O aparelho permite que os médicos identifiquem com precisão áreas destinadas a funções motoras e da memória, o que ajuda a protegê-las durante cirurgias para extração de tumores ou tratamento de epilepsia, por exemplo. Em todos esses casos, a magnetoencefalografia é crucial no planejamento cirúrgico.

 

Tecnologia avançada

Mais conforto: o aparelho de MEG permite a realização dos exames com o paciente deitado ou sentado

Outra área em desenvolvimento é a utilização da MEG na indústria farmacêutica. “Ele ajuda a classificar os pacientes com distúrbios cognitivos como a doença de Alzheimer, além de obter informações importantes sobre a eficácia dos medicamentos, seleção de doses e ensaios”, explica Eduardo Cardoso, executivo da companhia suíça Elekta, que produz o aparelho.

No caso de isquemias, a MEG é capaz de detectar com precisão a integridade do tecido cerebral, auxiliando pacientes a encontrar o tratamento ideal para seus quadros clínicos. “O aparelho identifica, com máxima precisão temporal e espacial, as regiões relacionadas a cada aspecto do comportamento humano”, afirma Eduardo. Para pesquisadores, a tecnologia também permite a catalogação de diferentes manifestações de uma mesma doença.

“Por meio de centenas de sensores digitais, a MEG traduz estímulos elétricos dos neurônios e identifica diversos processos cerebrais em tempo real”

Mesmo com aplicações comprovadas no cotidiano médico, na pesquisa científica e no desenvolvimento da indústria farmacêutica, nenhum hospital ou clínica no Brasil dispõe do aparelho. Criada no final dos anos 1960 por um grupo de pesquisadores do MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts), nos Estados Unidos, a magnetoencefalografia traz consigo um único defeito: o preço. “O investimento médio é de US$ 5 milhões, mas depende muito da configuração e do tipo de isolamento requerido no local onde o equipamento estará situado”, diz Eduardo. Não há, portanto, previsão da chegada desta técnica ao país.

por Ricardo Senra - imagens: divulgação
Techmed