Na vanguarda dos transplantes

Techmed

Brasil domina técnicas de ponta nesse tipo de cirurgia e é considerado exportador de expertise na área para a América Latina

EM DEZ ANOS, O NÚMERO DE TRANSPLANTES NO BRASIL MAIS QUE DOBROU. De acordo com o Ministério da Saúde, foram 23.397 procedimentos em 2011 contra 10.428 em 2001. O crescimento significativo mantém o país na vanguarda de uma das áreas mais complexas da Medicina. O sucesso da operação depende da captação de órgãos de doadores, da substituição do órgão combalido do paciente e da terapia imunossupressora, que consiste na medicação dos transplantados para evitar a rejeição do órgão recebido.

Para ostentar o que é hoje considerado o maior sistema público de transplantes do mundo, o país investiu expressivamente na capacitação de médicos no exterior, principalmente nos anos 1980 e 1990. O Ministério da Educação enviava funcionários de hospitais universitários para atuar na área nos EUA e Europa. De volta ao Brasil, eles se tornavam multiplicadores do conhecimento e fomentavam a criação de centrais de transplantes pelo território nacional.

Esse investimento teve retorno e hoje o Brasil é considerado exportador de expertise na área de transplantes. Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Peru e Bolívia são alguns dos países que bebem na fonte tupiniquim de conhecimento. “O que está disponível aqui, você encontra nos Estados Unidos e na Europa”, compara o presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), José Osmar Medina.

TechmedMedula óssea

O primeiro transplante de medula óssea na América Latina já conta três décadas e foi realizado em Curitiba (PR). De lá para cá, centros cirúrgicos do Paraná tornaram-se referência na área. A fim de tornar o procedimento mais seguro, foram incorporadas técnicas mais modernas de tipagem HLA – teste de compatibilidade de doador e receptor de órgãos, com base na identificação de genes por exames.

Também na tentativa de evitar rejeição do órgão, médicos e pesquisadores se aliaram para compreender melhor o desenvolvimento da doença do enxerto contra hospedeiro (DECH). Essa é uma complicação frequente do transplante de medula óssea, causada pelo ataque das células recém-chegadas ao organismo do receptor pelos seus próprios anticorpos.

“Novos regimes de condicionamento e profilaxia dessa doença estão sendo utilizados; o tratamento de suporte com antibióticos e antifúngicos melhorou muito”, conta a hematologista Vaneuza Araújo, que trabalha no Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba. A equipe do hospital participou da elaboração de protocolos internacionais de transplante de medula óssea. O caráter inovador das pesquisas e testes realizados no local acabam atraindo estagiários da Venezuela, Uruguai e até do Líbano.

O Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo. Aqui foram feitos 23.397 procedimentos em 2011

TechmedCoração

Se a fila de espera por um coração é longa, uma alternativa para garantir a sobrevida do paciente com insuficiência cardíaca é implantar um coração artificial. Nessa operação, médicos instalam um dispositivo dentro do tórax da pessoa, mas externo ao coração. Feito de material sintético e impulsionado por meio eletrônico, ele mantém o sistema circulatório funcionando através do bombeamento do coração.

“[O coração artificial] é uma ponte para a realização de transplante cardíaco”, define o cardiologista João David de Souza Neto, do Hospital de Messejana, em Fortaleza (CE). O coração artificial possibilita o bom funcionamento do coração a ponto de o paciente conseguir esperar um tempo maior por um doador – um período de um a dois anos.

Em março deste ano, uma equipe de cirurgia cardíaca de Messejana levou ao Peru a experiência em transplante e assistência circulatória. Foi a segunda vez que o país vizinho recebeu as lições de como o coração artificial pode salvar vidas. O hospital cearense decidiu abrir vagas de estágio profissional para médicos peruanos aprenderem a prática em solo brasileiro.

“Novas formas de profilaxia estão sendo utilizadas para combater a rejeição comum em alguns transplantes” 

TechmedPulmões

Ser exportador de know-how não implica que o Brasil deixe de importar conhecimento na área de transplantes. Neste ano, uma técnica bastante sofisticada no transplante de pulmão, utilizada na Suécia, foi testada no Brasil. É o “enxugamento” de líquidos em excesso nos pulmões dos doadores. Médicos estimam que mais de 90% dos órgãos doados são descartados devido à presença de líquido em grande quantidade, comprometendo as atividades de respiração.

“Nós importamos da Suécia uma solução que faz a limpeza do pulmão e estivemos lá para aprender [como enxugá-lo]. Pela primeira vez, esse procedimento foi realizado na América Latina”, comemora o cirurgião Paulo Pêgo, do Instituto do Coração de São Paulo (Incor-SP). O primeiro transplante de pulmão que passou por esse processo foi bem-sucedido. “Nossa ideia é utilizar progressivamente mais e mais essa técnica”, planeja.

Mas, para o “enxugamento” de pulmões ser incorporado pelos hospitais brasileiros que fazem esse tipo de transplante, a estrada é longa. “Tem que passar por um comitê de ética e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária”, explica o presidente da ABTO, José Osmar Medina.

por Diego Iraheta ilustrações Elder Galvão
Techmed