Movimento de inclusão

 
A pontar a direção e mover-se a partir de um aceno com a cabeça – sem grande esforço ou a necessidade de um nível elevado de concentração. O conceito parece vindo de um roteiro de filme de ficção. Mas está próximo de se tornar realidade como alternativa para garantir a mobilidade de pessoas com tetra ou diplegia, paralisias que afetam os quatro membros ou que acometem partes simétricas dos dois lados do corpo, permitindo apenas a movimentação do pescoço.

Desde março deste ano, a empresa húngara Now Technologies trabalha em um projeto que promete dar a esse movimento único do portador de paralisia a capacidade de mover uma cadeira de rodas. A tecnologia, batizada de GyroSet, tem como base uma espécie de fone de ouvido. “Ele mede constantemente a posição espacial da cabeça dos cadeirantes graças a uma unidade de processamento de movimento que pode aprender e reconhecer gestos.

Então, o fone de ouvido se comunica com um tablet Android ligado à cadeira e um software processa os dados e comanda os movimentos”, explica o fundador e diretor técnico da empresa, Marton Juhasz.
Ao aproveitar a inclinação natural da cabeça, Marton Juhasz acredita que o GyroSet represente uma solução de manejo mais simples e intuitiva do que as disponíveis atualmente no mercado. “Sistemas baseados em eletro- encefalografifia, que monitoram a atividade cerebral, ou miografifia, que leem a contração dos músculos faciais, exigem que elétrodos estejam ligados à cabeça do usuário; eles podem causar irritação da pele, encobrindo mudanças na condutibilidade e consequentemente afetando os cálculos”, afirma. Para ele, outro fator complicador é que esses métodos exigem calibração contínua, atenção de um cuidador e grande dose de foco e concentração por parte do usuário.

Outra vantagem do GyroSet, apontada pela Now Technologies, é a possibilidade de dispensar ferramentas mecânicas de comando que expõe os cadeirantes. “Alguns dispositivos são estranhos, como os sticks de cabeça e língua ou os tubos de sopro”, declara. Embora essas opções tenham garantido o mínimo de independência a pessoas com necessidades especiais ao longo dos últimos anos, são consideradas de uso complexo, não permitem o controle adequado da direção em muitos casos e ainda podem bloquear a visão do usuário, além de comprometer a fala, quando se trata do tubo. “Há ainda um método que permite dirigir a cadeira a partir de botões embutidos no encosto de cabeça, mas é quase impossível tirar todas as vantagens dele, por seu posicionamento, o que dificulta a usabilidade. E os dispositivos com reconhecimento de voz pedem cadeiras inteligentes, enquanto o nosso só precisa de uma interface de comando”, conclui Marton.

A ferramenta proposta pela fabricante húngara também permite conexão sem fio com qualquer computador. Assim, o GyroSet poderia ser utilizado como um tipo de headmouse para navegar na internet, permitir a leitura e envio de e-mails, além do uso do GPS, por exemplo. No caso de casas inteligentes, seria possível até acender as luzes ou ligar a televisão a partir do dispositivo.

Atualmente, o GyroSet está em fase de ensaio clínico e aguarda a certificação europeia que autoriza sua venda. Quatro protótipos passam por testes em diferentes modelos de cadeiras de rodas usadas em centros de reabilitação na Hungria. Paralelamente, a empresa conclui uma interface universal, para que a tecnologia possa funcionar em conjunto com todos os tipos de cadeiras. A previsão é de que o GyroSet esteja disponível no mercado no fim de 2014.

por Irene Donatti
Techmed