Metabolismo em mutação

 

O mês de novembro de 2012 foi um marco para os portadores da deficiência lípase lipoproteica (LPDL), um distúrbio genético, até então incurável, que afeta o metabolismo de gordura no organismo. A União Europeia aprovou o uso do Glybera, primeiro medicamento a se valer da terapia gênica para tratar a doença, com o restabelecimento da produção de uma lipoproteína fundamental para a digestão, a lípase. Pessoas com esse raro distúrbio hereditário (que atinge 1 em cada 1 milhão de habitantes) não produzem a substância por causa de uma mutação que torna o gene inativo desde o nascimento. Nessas pessoas, a gordura ingerida na alimentação é mal absorvida pelas células e permanece no sangue, aumentando os níveis de triglicérides e fazendo crescer a predisposição a doenças como diabetes e aterosclerose. Outro problema sério são as crises recorrentes de pancreatite – que, além de serem muito dolorosas, podem levar à morte. “O sangue dos portadores costuma ser até meio leitoso, e a alimentação, muito restritiva”, explica Hans Herklots, representante da UniQure, companhia holandesa desenvolvedora do Glybera.

Sem se misturar aos outros genes no organismo, o adenovírus presente nas injeções “corrige” o problema e faz o paciente voltar a digerir gordura normalmente

O tratamento consiste em identificar doenças que resultam de genes mutantes e trocá-los por “cópias de trabalho” para corrigir o problema. Isso é feito com a ajuda dos chamados vetores virais, ou seja, vírus com carga alterada que ajudam a introduzir os novos genes nas células infectadas. Assim, o Glybera é uma bateria de 12 a 16 injeções que inserem no corpo do paciente um adenovírus, chamado AAV1 (cujo DNA não causa interferências no organismo). A região escolhida para a aplicação é o músculo da coxa, que, de acordo com Herklots, possui tecidos com lenta reprodução celular, o que ajuda o material a ficar em atividade por mais tempo.

 

Como age o Glybera

Entenda como o Glybera entra no organismo e faz a troca do gene problemático pelo saudável

 

Para testar a eficácia dessa terapia, foram convocadas, entre os anos de 2005 e 2006, 27 pessoas com a doença. Nos ensaios clínicos feitos com esses voluntários, o Glybera reduziu com sucesso os índices de triglicérides no sangue por até 12 semanas após as aplicações; também diminuiu drasticamente a incidência de ataques de pancreatite por até dois anos após o tratamento. As fortes restrições alimentares – até então consideradas a única forma de “domar” a doença – também foram sendo extintas, melhorando a qualidade de vida. Com estes resultados, após três tentativas de aprovação, o Glybera recebeu o aval da Agência Europeia de Medicamentos, se tornando a primeira terapia genética do mundo a ser considerada segura e eficaz para uso em humanos.

Segundo o fabricante, o tratamento deverá chegar ao público europeu no final de 2013. Por enquanto, o custo não foi definido, mas deverá ficar entre 2 a 3 mil euros por dose. Herklots afirma, ainda, que não há efeitos colaterais, a não ser uma leve dor muscular no lugar da aplicação, que passa em pouco tempo. A UniQure aguarda agora uma resposta do FDA (Food and Drug Administration) para levar o Glybera à América, e também tem a intenção de aprová-lo em países como Coreia, Israel e os da América do Sul.

Ao receber o aval da agência europeia de medicamentos, o glybera se tornou a primeira terapia genética considerada segura e eficaz para uso em humanos

por Olívia Fraga e Ana Luiza Silveira - ilustrações: Carol Cavaleiro
Techmed