Médico eletrônico

 

Os milhões de americanos que sintonizaram a TV no clássico programa de perguntas e respostas Jeopardy, em fevereiro de 2011, não sabiam, mas estavam assistindo, ao vivo, ao futuro da computação. Naquele episódio, Brad Rutter e Ken Jennings, dois dos maiores ganhadores da história do game show, foram vencidos por Watson, um supercomputador criado pela IBM. A máquina não só teve o trabalho de responder às perguntas, mas de entender o que o apresentador perguntava, em meio a ironias e pegadinhas. Watson levou o prêmio de 1 milhão de dólares pela sua vitória esmagadora e anunciou a chegada de uma nova era na informática: a computação cognitiva.

O que parece ser “apenas” um computador de perguntas e respostas é, na verdade, uma tecnologia que pode ser usada em diversas áreas que dependem da tomada de decisões baseadas em vários dados, provenientes de diversas fontes. O Watson tem a capacidade de compreender a complexidade da linguagem humana, respondendo a difíceis questões ao varrer todo um campo de conhecimento.

VENCEDOR: o computador superou dois dos mais fortes candidatos do programa Jeopardy

Na área de saúde, por exemplo, pode ser usado pelos médicos para sugerir opções de diagnóstico e tratamento, explorando toda a literatura científica possível.

Segundo a IBM, apenas 20% dos diagnósticos feitos por médicos são baseados em provas e estudos. Um em cada cinco desses diagnósticos está errado ou incompleto devido a decisões tomadas por falta de informação. Somente nos Estados Unidos, são cometidos 1,5 milhão de erros médicos por ano. Com o Watson, essa taxa de equívocos pode cair exponencialmente. É como se o médico pudesse consultar milhares de outros especialistas no assunto antes de recomendar algum tratamento.

 

Na área de saúde, o Watson pode ser usado pelos médicos para sugerir opções de diagnóstico e tratamento, explorando toda a literatura científica possível

 

Contra o câncer

 

Fábio Gandour, cientista-chefe do laboratório de pesquisas da IBM Brasil, explica que um dos melhores exemplos dos possíveis usos do Watson na medicina está no combate ao câncer. “Hoje, os protocolos de tratamento são tantos e envolvem tantas variáveis que a decisão da melhor rotina de tratamento fica cada dia mais difícil. Qual o estágio? E a idade do paciente? Com quimioterapia? Com radioterapia? Em que intensidade? Quais são os parâmetros de segurança que devem ser considerados nos exames laboratoriais?”, exemplifica. Segundo ele, o Watson explora todas as particularidades que um paciente de câncer tem, compara com informações médicas arquivadas e oferece opções de tratamento.

O supercomputador pode, por exemplo, fornecer uma resposta baseada nos estudos dos melhores oncologistas do mundo publicados nos últimos dez anos, listando os casos de sucesso e suas nuances. Além de poupar um tempo valoroso dos médicos, o Watson assume o papel de uma segunda opinião mundial. “Se bem alimentado com informações relevantes, ele ajuda o profissional de medicina a navegar nesse mar de informações. Mas a decisão final sempre será do médico”, destaca Gandour.

 

As fontes de informação do Watson incluem enciclopédias, artigos jornalísticos, obras literárias, históricos de pacientes, estudos e até anotações de médicos

 

Supermemória

 

Hi-tech: Para armazenar os dados, o Watson tem capacidade de memória da ordem de 15 terabytes

Para armazenar toda informação médica possível, é preciso um potente computador. O Watson é um complexo conjunto de componentes tecnológicos com duas principais características: tem uma memória gigantesca, da ordem de 15 terabytes, e seus processadores operam em uma velocidade de 80 teraflops por segundo. Um computador PC, por exemplo, chega a apenas 0,02 teraflop. A alimentação do computador é feita diretamente no disco, através de um modelo de representação de conhecimento chamado Hadoop, uma plataforma de software voltada ao armazenamento de grandes quantidades de dados. As fontes de informação do Watson incluem enciclopédias, artigos jornalísticos, obras literárias, históricos de pacientes, estudos e até mesmo anotações de médicos.

O uso do Watson na medicina atual ainda está em testes em universidades americanas, como o Centro Médico da Universidade de Columbia e a Escola de Medicina da Universidade de Maryland, mas ainda não há previsão de funcionamento em hospitais

 

Como o Watson funciona

 

Primeiro ele precisa ser alimentado com toda literatura médica possível: artigos em revistas especializadas, estudos, históricos de saúde, orientações de pacientes e até mesmo anotações de médicos e enfermeiras.

Através de um aplicativo em um tablet, por exemplo, o médico acessa o Watson através da nuvem. Lá, ele começa a colocar dados dos seus pacientes e faz suas perguntas

Depois que um médico pergunta sobre o tratamento de câncer de mama, por exemplo, o Watson usa sua capacidade de entender a linguagem humana e percebe palavras-chave na pergunta, que podem ser particularidades do câncer e variantes do tumor.

Em seguida, começa uma varredura por milhões de páginas de texto, que dura poucos segundos, graças aos potentes processadores do Watson. Ele explora todo o material que foi alimentado e depois combina essa informação com os dados recentes do paciente que foram inseridos pelo médico.

O resultado final são hipóteses geradas para o tratamento. No aplicativo, o Watson sugere diferentes opções, com diferentes níveis de credibilidade. O supercomputador pode sugerir, por exemplo, uma combinação de medicamento e quimioterapia com um nível de confiança de 90%, mas também destacar outras indicações de tratamentos alternativos, com níveis de confiança mais baixos.

Com base em todas essas opções, o médico coloca na balança todos os prós e contras e toma a decisão.

Por Túlio Pires Bragança - fotos: Divulgação
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