Medicina imersiva

A realidade virtual percorreu um longo caminho desde sua concepção. Muito além dos games, a tendência tecnológica está emergindo no campo da saúde para oferecer uma ampla gama de possibilidades de treinamentos médicos e terapias experimentais

Décadas atrás, o conceito de realidade virtual era uma mera fantasia pensada por escritores de ficção científica. Em 1936, o escritor americano Stanley G. Weinbaum já contava uma história envolvendo um par de óculos mágicos que capacitava o usuário a ver e sentir um mundo ficcional. A tecnologia imitou a arte e, com o uso de técnicas e equipamentos computacionais, cientistas e futuristas trabalharam em conjunto para criar os primeiros dispositivos que simulam a sensação de estar em um determinado ambiente.

Esses sistemas evoluíram e agora estão sendo aplicados em diversas indústrias, incluindo o setor da saúde. Ao permitir simulações sem os riscos do mundo real, a tecnologia RV (Realidade Virtual) está emergindo em vários campos da medicina e promete revolucionar os atuais métodos de capacitação. Se hoje apenas alguns alunos podem observar uma operação à distância, em breve a técnica poderá elevar a experiência de aprendizagem com uma simulação virtual em nível surpreendentemente acurado.

Alguns hospitais e universidades já estão utilizando RV para treinar profissionais da saúde a executar procedimentos médicos. Recentemente, o Royal London Hospital, no Reino Unido, realizou, pela primeira vez, uma operação de realidade virtual, conduzida por um experiente cirurgião e transmitida ao vivo para milhares de estudantes de medicina. Com câmeras especializadas que filmam em 360 graus, os espectadores puderam observar cada detalhe da operação de câncer de cólon de um paciente.

Salas de operação totalmente imersivas podem ser usadas para treinar jovens médicos em situações recorrentes da vida real, ajudando-os a ganhar experiência e confiança para tomar decisões rigorosamente precisas durante uma cirurgia. Algumas simulações de treinamento já estão sendo oferecidas. Na Universidade da Califórnia em Davis, EUA, o cateterismo cardíaco é uma das muitas opções de simulação disponíveis. Cardiologistas executam procedimentos em um sistema que fornece ao aluno uma experiência extremamente próxima da vida real – e sem colocar uma vida em risco.

Segundo a universidade, a iniciativa não é útil apenas para médicos em treinamento, mas também para que profissionais com mais experiência possam afinar suas habilidades em diversos métodos e aprender a melhor forma de treinar sua equipe médica. Outras aplicações de treinamento virtual disponibilizadas até o momento incluem a execução de uma colonoscopia, endoscopia, laparoscopia, robótica e até mesmo a cirurgia de transplante de órgãos.

Modelos de órgãos virtuais também podem ajudar cirurgiões a se preparar para procedimentos complexos. Isso é pensado para aumentar a precisão, reduzir os traumas e diminuir complicações recorrentes em salas de operação. Muitas vezes, se um paciente necessita de um procedimento raro, o cirurgião, ainda que experiente, pode não tê-lo executado na prática. Assim, a realidade virtual pode ser usada para auxiliar médicos a assimilar um método diferente de forma rápida e objetiva.

A RV não está apenas mudando a face da medicina para os médicos, mas também para os pacientes. Além de simulações para treinamento, modelos de pesquisa para terapias e tratamentos são uma possibilidade para o futuro. Para indivíduos amputados, por exemplo, a dor sentida no membro fantasma pode ser um problema sério e de difícil solução. O cérebro continua a enviar sinais relacionados ao membro ausente, causando dores, coceira e sensação de formigamento.

Pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Chalmers, na Suécia, realizaram um experimento para a questão. Eletrodos foram colocados próximos ao braço amputado de um paciente, que também utilizava óculos RV. Assim, ele foi capaz de visualizar seu membro durante suas atividades, possibilitando que as sensações inoportunas fossem amenizadas. Segundo o paciente, a tecnologia assegurou que o incômodo sentido fosse menos inconveniente, chegando inclusive a proporcionar longos períodos sem dor durante todo o experimento.

No campo da saúde mental, a realidade virtual já foi usada para ajudar pacientes com fobia e estresse pós-traumático a superar seus medos por meio de terapia de exposição.

A abordagem psicoterapêutica DRMO (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), utilizada para estimular hemisférios cerebrais e atenuar experiências traumáticas, está sendo combinada com RV. Em fase experimental, alguns hospitais americanos já fazem esforços para aplicar a técnica em veteranos de guerra, a fim de ajudá-los a compreender e superar memórias traumáticas.

Tais inovações trazem consigo uma extensão que atinge o treinamento médico, melhorias para pacientes e novas oportunidades de tratamento. Embora já previstas para requintar uma variedade de modelos da saúde, as aplicações estão apenas começando. A integração da realidade virtual – e tantas outras inovações como Big Data, Inteligência Artificial e Telemedicina – poderá alavancar o futuro da formação de profissionais e oferecer novos recursos tecnológicos para terapias mais eficazes.

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REALIDADE VIRTUAL VS. REALIDADE AUMENTADA
A realidade virtual e a realidade aumentada frequentemente são confundidas como um mesmo conceito, justificadamente, já que as tendências possuem muito em comum. Ambas têm a notável capacidade de alterar a nossa percepção do mundo, e o que as difere é a assimilação da nossa presença. A RV tem a capacidade de transpor o usuário ou, em outras palavras, levá-lo para outro cenário. A realidade aumentada, no entanto, acrescenta algo à nossa realidade. Com a tecnologia, é possível “aumentar” o nosso estado atual de presença, inserindo elementos virtuais em um determinado ambiente.

 

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APLICAÇÕES EMERGENTES
Controle de dor crônica
A dor crônica é uma questão premente que se tornou alvo de diversos tratamentos alternativos. O uso da tecnologia para enfrentar o problema é relativamente novo, mas demonstra uma grande promessa. Um estudo publicado na renomada revista científica PLOS ONE apresentou um experimento em que pacientes que sofriam de dor crônica demonstraram resultados positivos em sessões de RV de apenas cinco minutos. Cem por cento dos pacientes relataram redução das dores, chegando inclusive a diminuir a sua classificação, sessão após sessão.

Saúde na terceira idade
A startup MIT Rendever ganhou um prêmio da escola de inovação Sloan Healthcare com uma plataforma RV. A solução conecta moradores idosos de instalações de vida assistida com o mundo fora de seus muros. Com o dispositivo baseado em óculos RV, os residentes podem revisitar suas casas, parques favoritos ou até mesmo fazer um passeio em outro país. A tecnologia também tem a capacidade de captar dados relacionados à demência em suas fases iniciais. Esse método inovador pode colaborar com fatores que contribuem para a depressão em idosos, além de ajudar profissionais da saúde a desenvolver e implementar cuidados preventivos e personalizados.

Terapia para transtorno mental
A Psious, empresa espanhola de tecnologia da saúde comportamental, oferece um tratamento exclusivo para condições psicológicas, como fobias específicas, ansiedade e agorafobia. Com a ajuda da RV, os pacientes entram em situações que os afligem sob o controle constante de um médico. Essa aplicação permite aos clínicos contornar muitos dos desafios associados a outros tipos de terapia de exposição, que carecem de recursos simples e efetivos. A intenção é propiciar um ambiente seguro para que pacientes possam enfrentar seus medos gradualmente.

Reabilitação motora pós-AVC
O tempo é um fator importante para a taxa de recuperação de pacientes que sofreram acidente vascular cerebral e a RV está sendo usada para melhorar essas taxas. Um aplicativo em particular, MindMotion Pro, está auxiliando pacientes a reaprender a utilizar seus braços e dedos. A tecnologia suporta as metas individuais de recuperação e regimes de exercício personalizado, apresentando atividades baseadas em princípios de neurorreabilitação reconhecidos. O app também fornece benefícios para os cuidadores, incluindo uma melhor monitorização do desempenho do paciente.

 

Texto: Envisioning Technology | Imagens: Thinkstock
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