Medicina feita à mão

 

Usada por muitas pessoas como uma forma rápida e prazerosa de aliviar a tensão provocada pela correria da vida moderna, a boa e velha massagem é uma antiga conhecida da humanidade: a manipulação sistemática dos tecidos moles do corpo tem sido utilizada como método terapêutico desde tempos pré-cristãos, tendo as culturas milenares da Índia, da China e do Japão – tradições que veem o equilíbrio da energia vital do corpo como o responsável pela manutenção da saúde e do bem-estar – como expoentes. No Ocidente, ela entrou no escopo da ciência no início dos anos 1800, quando seus efeitos foram formalmente mensurados pelo esgrimista Henrik Ling, hoje considerado o pai da massoterapia moderna.

 

 Foram as culturas orientais milenares, que veem o equilíbrio da energia vital do corpo como responsável pela saúde e o bem-estar, as responsáveis pela propagação das técnicas de massagem

 

Também conhecida como cura através do toque, a massagem vai muito além do relaxamento. “Ela proporciona serenidade, disposição física e sexual, além de promover alterações fisiológicas, atuando em nível hormonal”, enumera Rogério Pires, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina Manual (ABRAMC), do Rio de Janeiro. Há quem acrescente mais vantagens à lista de benefícios, como Arnaldo Carvalho, presidente da Associação Brasileira de Shiatsu (Abrashi), também no Rio. “Uma dor costuma ser a ponta do iceberg. O shiatsu, por exemplo, não trata essa dor, e sim a causa. Ajuda a harmonizar o sistema energético e fisiológico do paciente, até que ele próprio recobre sua capacidade de autorregulação e, portanto, a imunidade como um todo”, ressalta.

As opiniões acerca dos benefícios da medicina manual, no entanto, podem ficar mais pontuais. “Desconfortos musculares, como contraturas e espasmos, têm boa evolução com a técnica, já que a massagem age sobre os pontos-gatilho, a musculatura em si e também a fáscia [tecido de sustentação e proteção] muscular”, diz o ortopedista André Pedrinelli, de São Paulo.

Alexandre Cristante, também ortopedista em São Paulo, completa: “À medida que causa bem-estar ao paciente, a massagem, quando conciliada com técnicas de fisioterapia, pode ser utilizada como adjuvante no tratamento de dores musculares, lombalgias, dorsalgias, cervicalgias e contusões.”

 

De fibras musculares a meridianos energéticos

 

Desde que o sueco Henrik Ling mensurou, no início do século 19, os efeitos da manipulação do corpo para os músculos e o sistema venoso, as massagens científicas – ou modernas, como a miofascial e a sueca – passaram a se diferenciar das culturais ou tradicionais, como a ayurvédica e a tai. “As científicas atuam no campo da saúde e auxiliam a fisiatria e a ortopedia, trabalhando o caminho dos retornos venoso, linfático e arterial, circuitos de fáscias e grupos musculares específicos. Já as culturais são indicadas para desequilíbrios bioenergéticos e até algumas lesões, mas não podem ser utilizadas para patologias, limitando-se ao bem-estar e à atuação nos meridianos energéticos (como no shiatsu) ou nos doshas, perfis biológicos trabalhados pela ayurvédica”, diferencia Rogério Pires.

Os efeitos proporcionados pelos sistemas científicos e tradicionais de massoterapia também diferem: os primeiros atuam na nutrição celular e em modificações linfáticas, hormonais e arteriais, além de melhorar o peristaltismo e reparar o sono. Já as culturais trazem benefícios como maior aporte venoso, relaxamento muscular, alongamento de tecidos e aquecimento periférico. Antes de definir qual a melhor para seu caso, conheça a seguir alguns tipos de massagem e seus benefíciospara a saúde.

 

Massagem ayurvédica

 

Para a tradição indiana, saúde é a harmonia do corpo físico, mental e energético. A massagem ayurvédica atua, desta forma, tanto nos músculos, tendões, ossos e pele como nos espectros cerebral (baixando a adrenalina e aumentando a endorfina, a ocitocina e a serotonina) e energético (harmonizando os koshas, ou camadas energéticas). Mesmo com o termo massagem, a prática concentra-se no tratamento fitoterápico. “Usamos um óleo com ervas adequadas a cada pessoa. O principal é olear todas as partes do corpo, sem esquecer nenhuma. Os movimentos de pressão e deslizamento da massagem são o foco secundário, auxiliares na absorção do ‘medicamento’ pela pele”, explica Erick Schulz, vice-presidente da Associação Brasileira de Ayurveda.

 

 

Massagem sueca

 

A técnica mais habitual no Ocidente – não à toa chamada de massagem clássica – utiliza alongamentos e fricções no sentido do fluxo sanguíneo. O sistema venoso e os músculos tensos são os principais beneficiados, em especial com a eliminação do ácido lático das fibras musculares e a melhora no transporte de oxigênio e nutrientes. Casos de diminuição da amplitude de movimento, edemas e hematomas também são tratados com o sistema sueco de massagem, mas essa modalidade não pode ser feita por quem tem tumores ou doenças de pele ou está grávida.

“Até o terceiro mês de gravidez, a massagem só deve ser aplicada em algumas partes do corpo, como pernas e pés. Câncer e doenças de pele também são considerados contraindicações, já que, devido ao aporte sanguíneo local promovido pela massagem, pode haver agravamento de tumores, enquanto as condições desfavoráveis na pele podem se proliferar”, afirma Rogério Pires, da ABRAMC (Sociedade Brasileira de Medicina Manual).

 

Liberação miofascial

 

A região trabalhada nessa massagem é a fáscia, um tecido de sustentação e proteção de toda a estrutura interna do corpo. Pelo caráter integrativo desse tecido, a rigidez em um ponto do corpo pode ocasionar “falsas dores”, inflamações localizadas que revelam o desequilíbrio da fáscia em outra parte do organismo. Movimentos lentos restabelecem a circulação e interrompem o círculo vicioso causador de dores.

Além de indicado (tal qual a maioria das massagens) para quem sofre de hipertensão, insônia, ansiedade ou problemas de concentração, esse sistema tem especial relação com a prática esportiva. Distensões musculares e dores crônicas decorrentes de contínuas inflamações em atletas podem encontrar alívio por meio da técnica. “A massagem miofascial é uma das mais recomendadas entre ortopedistas, por tratar de afecções específicas”, atesta o doutor André Pedrinelli, especialista em medicina esportiva.

 

Massagem tai

 

Considerada altamente relaxante, a técnica tailandesa “é realizada com muita lentidão e é de suma importância que o massoterapeuta procure alcançar um estado mental meditativo, sendo capaz de transmitir essa qualidade da mente por meio do toque”, descreve Richard Gold no livro Massagem Tai – Uma Técnica Médica Tradicional. Fazendo uso de alongamentos e pressões lentas e rítmicas com os dedos (especialmente o polegar), a palma das mãos, o cotovelo e os pés, o sistema atua nos canais energéticos do corpo para tratar de condições que vão de indigestão a distúrbios mentais, passando por arritmia cardíaca, insônia e impotência. É, no entanto, contraindicada em casos de câncer ou dores agudas na espinha. “O objetivo da massagem tai é deixar o corpo, a mente e o espírito em equilíbrio e harmonia, propiciando, assim, a cura”, conclui Richard Gold.

 

Massagem Shiatsu

 

A técnica japonesa estimula pontos correspondentes aos meridianos (caminhos pelos quais se desloca a energia vital). Já outras escolas apoiam-se na neurologia, fisiologia e anatomia. “Há vários tipos de shiatsu, mas todos são um processo de redescoberta, no qual são desvendados desequilíbrios que o paciente não conhecia. A terapia atua no que está por trás da dor”, afirma Arnaldo Carvalho, da Abrashi.

Ele atende crianças hiperativas, pacientes com gastrite, traumas causados por perdas e até mulheres indicadas pelo ginecologista, “para tratar a cândida, por exemplo”. E explica: “O shiatsu exerce pressão rítmica similar à de um coração calmo. Seguindo esse ritmo, induzimos o cérebro a entrar na frequência de sete a 14 impulsos por segundo. O coração fica mais lento, a adrenalina baixa e a massagem vai tranquilizando quem está agitado ou energizando quem está com o ânimo baixo. A técnica faz o necessário para que a pessoa volte ao seu estado natural.”

por Maitê Casacchi - ilustrações: Marcus Penna
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