Lisboa de ontem e hoje

Ela ainda é uma capital tradicionalista, sim, mas que se reinventou para atrair a atenção dos visitantes. Não podia estar dando mais certo

Praça do Comércio

Praça do Comércio

A sensação é de chegar na casa daquela avó muito querida, com toda a satisfação de reconhecer a comida, o ambiente, o astral. Mas é também como chegar na casa da avó e ela estar com móveis estalando de novos, uma música moderninha tocando e receitas cheias de ousadia para o almoço. Assim é desembarcar em Lisboa nos dias atuais.

A capital portuguesa já foi, sim, a saída da Europa – pelas Grandes Navegações, rumo a novos continentes e descobertas, lá nos séculos 15 e 16. Hoje, Lisboa está muito mais para entrada. Há mais ou menos dez anos em um processo de renovação e avanços, ela se tornou uma das cidades mais mencionadas do Velho Mundo quando se fala em novidades, tendências e aquilo tudo que a moçada gosta.

O Lonely Planet, por exemplo, se rendeu: depois de um aumento de quase 50% nas buscas por informações sobre Lisboa nos últimos anos, o guia elencou-a como uma das dez melhores cidades de todo o mundo para visitar em 2017. Os turistas aceitaram a dica: no ano passado, segundo registros do governo português, o público estrangeiro deixou nada menos que 15 bilhões de euros no país (boa parte na capital mesmo).
O bom é que tudo isso vem acontecendo com bastante consideração ao passado e à vocação de Lisboa. Não se trata de apagar as tradições e implantar e celebrar apenas o moderno: é mais uma repaginada, uma adição de novas ideias. O que fica muito claro se tomamos como exemplo, vá lá, o fado.

O estilo musical mais conhecido de Portugal vem, surpreendentemente, em uma novíssima onda. Sem negar o tom sacramentado por cantoras como Amália Rodrigues, que foi uma das maiores fadistas portuguesas, despontam, há coisa de seis ou sete anos, vozes como a de Cuca Roseta – uma nova geração que produz fado bom, forte e, sim, moderno.

Esse novo ritmo nos ares lisboetas também vem acompanhados de novos restaurantes, cafés, bares e lojas que abrem todos os dias na cidade. Parece haver sempre aquele espaço que “acabou de inaugurar” (e “onde todo mundo quer ir”, claro). São lugares frequentados por locais, em bairros que se tornaram moda – e que acabam por ser recomendados a turistas, colocando a capital em um ciclo de riqueza.
Se Lisboa já tinha muitos passeios e locais clássicos a oferecer (points de 100 ou 200 anos em alta, veja só) hoje tem também um outro cardápio de espaços inovadores. Nossa missão, que começa abaixo, é revelar um mapa dessa casa da vovó que está lindamente renovada, esperando os visitantes de sempre e de novo.

A Praça do Comércio e sua visão privilegiada do Rio Tejo

A Praça do Comércio e sua visão privilegiada do Rio Tejo

A praça do comércio
Um dos locais mais simbólicos de Lisboa – e por onde muitos visitantes vão adorar começar uma viagem pela capital – é a principal praça da cidade. A Praça do Comércio, na verdade, é mais conhecida pelos lisboetas como Terreiro do Paço (por ser chamada de Paço da Ribeira até o terremoto de 1755, um acontecimento que mudou a vida lisboeta para sempre).

Essa “sala de visitas” de Lisboa é um polo que leva a vários pontos de interesse. Além de ser ela mesma muito bonita (especialmente depois das reformas recentes), a Praça do Comércio é cercada de belezas como as exposições e os eventos no Pátio da Galé; o Cais das Colunas, onde se pode apreciar a vista pisando nos centenários degraus de mármore; e o inovador Lisbon Story Centre, museu tecnológico e interativo para conhecer a história da capital.

Na saída ao norte da praça fica ainda o Arco da Rua Augusta, concluído em 1873, e todo ornamentado com relevos e esculturas. De cima dele, vê-se a simetria das ruas e da própria Praça do Comércio, além do Rio Tejo; e já dá para começar a descobrir os atributos, antigos e renovados, de Lisboa.

As ruas de Lisboa são um convite à contemplação

As ruas de Lisboa são um convite à contemplação

O bairro do príncipe
Este bairro é a porção de Lisboa mais na moda hoje em dia. Encantador – e com o nome em homenagem ao jovem nobre Dom Pedro V (1837-1861) –, ele fica ao norte do Bairro Alto. Apesar de ter ficado marcado pelas lojas de antiguidades e pelos bares há algum tempo, tem se tornado, agora, uma área que junta o melhor de bairro residencial (com jardins e praças tranquilas) com edifícios antigos recuperados e um comércio moderninho (que vai do Mercado Biológico do Príncipe Real até lojas de roupas e design como a Mini By Luna).

Isso atrai, cada vez mais, a população jovem – que vê a semelhança com bairros do mesmo tipo em Londres, Berlim, Nova York. A valorização imobiliária também está evidente: todo mundo quer morar em Príncipe Real.

O lugar tem, não dá para negar, um charme todo seu, juntando o antigo com o novo. E, nessa mudança de estilo, conta também com o vizinho bairro de São Bento, conhecido pelo palácio neoclássico da Assembleia da República e pelos antiquários na Rua de São Bento. Entre os dois estão alguns dos points mais badalados, nesse momento, para um drinque ou refeição a qualquer hora em Lisboa – como o Tapisco, restaurante dos mais celebrados, ou a sorveteria Nannarella. E nem é preciso ser da nobreza para curtir a região; ela abraça a todo mundo.

Fabricar e distribuir tendências
Este ex-complexo fabril data de 1846. Mas em 2008 ele renasceu como uma autêntica fábrica de criatividade, de experiências e até de negócios. O polo industrial de 23 mil metros quadrados permaneceu “escondido” por muitas décadas, mas, quando devolvido à cidade como LX Factory, passou a ser ocupado por empresas e profissionais do mercado de criação em moda, publicidade, comunicação, multimídia, arquitetura, música.

Localizado na região de Alcântara, o empreendimento trouxe toda essa arte, lojas, cafés e restaurantes e os espalhou com estilo. Hoje, encontra-se um pouco de tudo por ali, desde roupas até livros, móveis de design contemporâneo, parada para uma pizza, sushi e afins.

A LX Factory em uma de suas noites badaladas

A LX Factory em uma de suas noites badaladas

Nos últimos anos, a LX Factory recebeu, por exemplo, a livraria Ler Devagar, um dos espaços emblemáticos do complexo (e considerada uma das mais belas do mundo, com uma antiga máquina de impressão e livros até o teto). Já a Rio Maravilha é uma junção do Rio de Janeiro com Lisboa, um restaurante e bar que empolga tanto os visitantes quanto os lisboetas com uma vista ímpar do Rio Tejo.

A alma do Chiado
O bairro do Chiado sempre foi um clássico em Lisboa, uma região comercial e com vida noturna e diurna centenária – como fica comprovado quando se conhece, por exemplo, a livraria Bertrand, aberta desde 1732 na Rua Garrett. Mas o Chiado, logo ali entre o Bairro Alto e a Baixa, também está mais “hype” nos dias de hoje.

Além das lojas independentes e descoladas e outras de marcas internacionais, principalmente entre as ruas do Carmo e Garrett, o Chiado é um imenso ponto de encontro. Em parte, isso se deve aos novos cafés, restaurantes e terraços para drinques charmosos (no tranquilo Topo Chiado ou no sofisticado Silk Club, por exemplo); em parte, deve-se aos sempre presentes Armazéns do Chiado.

Inaugurado em 1894, o centro comercial foi, por muito tempo, a maior loja de Portugal – até que, em 1988, ficou completamente destruído por um incêndio, sobrando em pé somente a fachada. Os Armazéns levaram mais de uma década para renascer. Mas hoje seus seis pisos (o último com espaço de alimentação e vista para a cidade) estão de volta como uma oportunidade de fazer compras, ver exposições, comer uma coisinha e conhecer a alma (que também sabe ser prática) da poética Lisboa.

 

Para os novos marinheiros
Não é maravilhoso como, na base do urbanismo e da imaginação, se pode reinventar toda uma região? O Cais do Sodré chegou a ser um bairro perigoso, para manter distância, dadas suas origens. Antigo posto de comércio marítimo, o cais, que tinha toda aquela vibração underground típica desses lugares, é hoje um terminal de barcos que ligam Lisboa a outras regiões na margem oposta do Rio Tejo.

É também uma área festiva – onde o tom é ditado, em boa parte, pela comilança. Ela começa no antigo Mercado da Ribeira (hoje gerido pela marca Time Out, leia no próximo tópico) e se espalha por todo o Cais do Sodré.

O espírito segue na Rua Nova do Carvalho, a conhecida Rua Cor-de-Rosa (dada a cor do calçamento), que fica a um quarteirão do mercado. Já foi uma das principais zonas de prostituição de Lisboa, salpicada por bares frequentados pelos marinheiros que desembarcavam séculos atrás. Hoje, ela ainda é uma passarela de bares e restaurantes concorridos, mas com uma pegada mais suave.

Ali aparecem turistas de toda parte e famílias locais. Durante o dia, é um ótimo espaço para almoçar próximo ao rio – e só quando a noite chega é que vem o jeitão de “balada”. Tudo muito legal. Mas sem perder as tradições, que vivem em cada relance do cais, se faz favor.

A efervescência de Lisboa acontece de dia e de noite, com espaços ocupados por moradores e turistas de todo o mundo

A efervescência de Lisboa acontece de dia e de noite, com espaços ocupados por moradores e turistas de todo o mundo

O mercado está mudado
O mercado, em si, sempre foi um marco (desde que surgiu, por volta do final do século 17). Mas, em maio de 2014, um novo espaço de produtos e alimentação tomou conta do Mercado da Ribeira, o maior em oferecimento de alimentos frescos de Lisboa. E tornou-se um imediato favorito entre os lisboetas.

Agora, oficialmente, ele se chama Time Out Market, comprado pela empresa de mesmo nome e já tradicional na publicação de guias. É o primeiro empreendimento permanente da Time Out, abrigando um total de 35 quiosques – todos vendendo especialidades regionais, incluindo queijo de ovelha, presunto, tortas, azeite, sardinhas, vinhos e outros artigos que são a cara de Portugal.

Além disso, chefs famosos e premiados têm restaurantes hoje no Time Out, oferecendo pratos inovadores sem perder os sabores portugueses (e a preços de toda faixa, partindo de 5 euros). Ao encontrar um lugar vago mas mesas altas, fica facílimo passar algumas horas comendo tudo o que tem a ver com o país – e lembrando o quanto Lisboa pode ser gostosa.

As Docas, o Belém e esse MAAT
Os antigos armazéns das Docas de Santo Amaro, logo abaixo da charmosa Ponte 25 de Abril, pareciam um ponto perdido na orla de Lisboa. Isso até serem renovados, no final dos anos 1990, e transformados em restaurantes, bares e boates. Com isso, o local atraiu os lisboetas – e, claro, visitantes de toda parte também. E com razão.
Com a boa gastronomia, o agito e a magnífica vista da ponte, da marina e do próprio Tejo, as Docas já seriam um point bacana. Mas tem ainda a vizinhança.

Basta tomar o rumo do bairro de Belém (que reúne grandes monumentos da cidade, como o Padrão dos Descobrimentos, a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos), um par de quilômetros em frente. Ali, usando a via junto à água, percorrida a pé ou de bicicleta, chega-se ainda ao Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, o MAAT, inaugurado em 2016.

O mais novo espaço cultural na capital portuguesa, além de um belíssimo acervo fixo, moderno e interativo, e exposições temporárias, tem sua cobertura e o entorno projetados como uma “sala de estar” de Lisboa. Todos podem visitar a instituição e, de quebra, parar para um bate-papo ali (com uma das vistas mais deslumbrantes da Europa “na parede da sala”).

A cidade é repleta de miradouros, de onde se pode ver a tarde cair com calma

A cidade é repleta de miradouros, de onde se pode ver a tarde cair com calma

A mania de mirante
A marca registrada de Lisboa sempre foram suas sete colinas. Hoje, a marca é que cada uma delas parece estar pontilhada por terraços rodeados pela paisagem urbana, os cheiros, as cores e a história da capital. Esses “miradouros”, como se diz, existem em todo estilo; mas, em geral, são espaços muito tranquilos (e podem ser apetitosos também).

O negócio é anotar os nomes e jogar no mapa: tente procurar Miradouro Portas do Sol, de São Pedro de Alcântara, da Graça, da Nossa Senhora do Monte, do Torel, de Santa Luzia, do Castelo de São Jorge, do Parque Eduardo VII ou o Sophia de Mello Breyner Andresen.

Esses são alguns dos mais famosos – e, além de pontos deslumbrantes para olhar o horizonte, alguns deles são servidos por quiosques para sentar e passar uma tarde curtindo refrescos, bicas (o café expresso longo), jarros de vinho, embutidos. Se não tiver quiosque, é possível levar a própria cestinha de piquenique para curtir a vista e eternizar o momento com um brinde. Por que não?

Gastronomia da nova Lisboa
É tanto ponto novo abrindo a cada semana que mesmo os guias de turismo ficam loucos tentando acompanhar. Alguns já se sacramentaram (pelo menos até o próximo verão). E toda hora se fala, por exemplo, no Sea-Me Peixaria Moderna – que, como o nome já diz, renovou os modos de servir um peixe à lisboeta (unindo uma pegada japonesa e conceitos de cervejaria); e há também o The Decadente, que aposta nos ingredientes de Portugal, mas com sazonalidade (só vale o que estiver na mais alta safra).

Bateu apenas uma vontade de drinques, sem refeições robustas por perto? Um leque se abre. E nele estão duas pérolas do Cais do Sodré – chamadas O Bom, O Mau e o Vilão (um point com ambiente de cinema e drinques da moda) e a Pensão Amor (a decoração é de pornografia vintage, já que se tratava de um antigo bordel, mas a diversão é comportada nos petiscos e nas bebidas).

Como já se sabe, Lisboa preza demais (e cada vez mais, também) seus terraços. Então, não tinha um lugar melhor para propagar a onda dos rooftops (como acontece em todas as metrópoles do mundo). O mais celebrado, hoje, deve ser o Park. No alto de um estacionamento, daí o nome, oferece tudo o que é de bar – e mais shows ao vivo e DJs. Descolado, bonito e com vista. É Lisboa, a nova.

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COMO CHEGAR
São muitos os voos partindo de cidades brasileiras com destino a Portugal – e Lisboa é a principal porta de entrada (apesar de a cidade do Porto também ter ligação aérea direta com o Brasil). Companhias como TAP e Latam fazem voos diários para a capital portuguesa. E, chegando em Lisboa, o Aeroporto Humberto Delgado (ou Aeroporto da Portela) é a recepção. Ele está a cerca de 20 minutos do centro. Não há estação de metrô para alcançar a região central de Lisboa, mas o eficiente Aerobus (€ 3,60) faz saídas a cada 25 minutos das 7h às 23h20. De táxi, gastam-se a partir de € 20 (preço mínimo).

COMO CIRCULAR
Lisboa é uma capital de muitas colinas, é verdade – e várias delas “puxadas” de escalar. Mesmo assim, estando bem no centro (onde fica boa parte das atrações), englobando o Chiado, o Bairro Alto, a Baixa e a Alfama, tudo vale ser alcançado a pé. São ladeiras e escadarias por toda parte, mas há muito o que ver pelo caminho (e é não apenas possível como recomendável fazer paradas estratégicas nos cafés e nos mirantes). A rede de metrô e trens, que é ótima, serve bem para ir a bairros mais afastados, como Belém. E sempre vale também apanhar as linhas de bonde (como para chegar ao Castelo de São Jorge), uma experiência única.

ONDE FICAR
A capital possui uma oferta muito boa e variada em termos de hospedagem – indo dos grandes hotéis de cadeia (como da rede Pestana, que é portuguesa) a singelas pousadas que mostram muito bem a alma local. Muitos dos grandes hotéis estão nas imediações da Avenida Liberdade e do parque Eduardo VII; para se estabelecer em lugares menores, mais charmosos, o destino pode ser o bairro do Chiado ou mesmo Príncipe Real, região que está em alta e atrai bastante o público jovem – e tem opções bacanas como a Casa do Jasmim Boutique Guesthouse. São 22 quartos apenas, todos decorados com muito bom gosto, modernos e aconchegantes (alguns com varanda para apreciar a vista da cidade) e facilidades como wi-fi gratuito e estacionamento.

Texto: Flávia Pegorin | Fotos: Thinkstock, lisbonlux.com, Ricardo Junqueira/visitlisbon
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