Gênio precoce

 

Um adolescente arrancar as patas de uma aranha ou destruir sua teia é cruelmente típico. Mas um adolescente identificar na teia da aranha um potente antibiótico, capaz de combater células cancerígenas, bactérias e vírus, é algo fora do script. Pois é esta a história de Leonardo de Oliveira Bodo, 17 anos, aluno do colégio Dante Alighieri, de São Paulo. Desde cedo, ele se interessa por biologia. Isso o fez participar do Programa Cientista Aprendiz, curso optativo de iniciação à pesquisa científica da instituição de ensino, e depois enveredar pelo ramo da pesquisa. Por indicação de seus orientadores, e insatisfeito com a ausência de trabalhos sobre o assunto, decidiu que seu objeto de pesquisa seriam as aranhas.

Futuro promissor: Leonardo Bodo quer atuar no ramo de pesquisa

A partir de seus estudos, concluiu que a teia que envolve os ovos da aranha é uma fonte de nutrientes. Assim como ocorre em alguns alimentos, esta fonte tem uma característica: quando em contato com o ar livre, se torna alvo fácil de fungos e bactérias. Diante disso, Leonardo se questionou: como as aranhas nascem e crescem saudáveis, se seus ovos ficam em ambientes empoeirados e sob risco de contaminação?

 

 

 

 

Fio condutor da teoria

 

O estudante tinha uma hipótese para o fenômeno. “Como a teia protege os ovos, algo nela devia protegê-los dos fungos e bactérias”, explica. Para investigar sua teoria, Leonardo recorreu ao Instituto Butantan, onde fez as pesquisas como estagiário voluntário. Lá, isolou cada uma das 30 substâncias que compõem o líquido que as aranhas depositam nos ovos. Depois, testou múltiplas combinações deste extrato com culturas de bactérias, fungos, células cancerígenas e do vírus BHV (o herpesvírus bovino). Foi aí que ele descobriu e sequenciou duas substâncias com efeitos antibióticos, que impediam a proliferação das culturas nocivas.

A bateria de exames durou três anos. Durante todo esse tempo, o jovem cientista não perdeu seu objetivo de vista: encontrar novas drogas para reduzir e melhor tratar doenças infecciosas ou degenerativas que matam milhões de pessoas todos os anos. A descoberta também abre novos caminhos para as pesquisas do câncer. Não é a cura, mas um grande avanço.

 

Confira a entrevista com o jovem cientista:

 

Reconhecimento

 

Teia poderosa: O líquido produzido pelos aracnídeos revelou substâncias curativas

Por seu trabalho Tecendo Saúde: a Tecitura de Novos Fármacos a Partir da Teia de Aranhas, Leonardo foi um dos 16 estudantes brasileiros inscritos na maior feira de ciências do mundo, a International Science and Engineering Fair (ISEF), promovida pela Intel. Realizado em Pittsburgh, nos Estados Unidos, em maio deste ano, o evento reuniu em torno de 1.500 jovens de 59 países.

Leonardo foi premiado em três categorias da feira e recebeu ofertas de bolsas de algumas universidades americanas. Entre elas, a Johns Hopkins, uma das mais conceituadas instituições particulares do país. Apesar das propostas, o estudante deixou os Estados Unidos para lá. “Fui aceito em quatro faculdades, mas mesmo com uma bolsa de estudos de 60%, ainda sairia muito caro. E bolsa de 100% lá é muito incomum”, afirma. Decidiu, então, que fará por aqui mesmo sua graduação, em química.

A participação na feira rendeu também o convite para um estágio remunerado na multinacional Agilent Technologies, empresa de análises químicas e equipamentos eletrônicos de teste e medição, cuja filial brasileira fica na cidade de Barueri, em São Paulo. Este, ele aceitou. Agora faz cursos internos para entender o funcionamento e a manutenção dos equipamentos usados nos testes da empresa.

Por enquanto, nenhum laboratório apresentou uma oferta pelo antibiótico. A explicação, diz Leonardo, é o tempo consumido da descoberta até a venda do produto propriamente dita. “Todo esse processo leva, em média, 15 a 20 anos. Não é uma coisa que todo mundo quer fazer”.

 

 Ao observar e analisar em laboratório as propriedades da teia de aranha, Leonardo acabou descobrindo um potente antibiótico

 

Teste relâmpago

 

Havia mais gênios precoces na ISEF. O ganhador do prêmio máximo da feira deste ano, Jack Andraka (foto), tem 15 anos e vive em Maryland. Ele inventou um sensor de papel capaz de identificar o câncer de pâncreas de forma rápida e eficaz. O teste de Jack é 168 vezes mais rápido, 90% mais preciso e 400 vezes mais sensível que os testes atuais. A ideia nasceu após a morte de um amigo de seu irmão, vítima da doença, e o inspirou a bolar algo para detectá-la ainda em estágio inicial.

O sensor de Jack identifica, no sangue ou na urina, uma proteína chamada mesotelina, que indica a existência desse câncer. Funciona de forma parecida com um teste de gravidez, com a tira de papel mudando de cor conforme a quantidade de proteína no sangue. Além de prático, o produto promete ser barato: um teste pode custar apenas três centavos de dólar, e o resultado sai em menos de cinco minutos. A criação rendeu a Jack um prêmio de US$ 75 mil, que ele planeja investir em sua educação – o rapaz já disse que estudará para ser um patologista.

Enquanto isso, ele planeja começar testes para lançar o produto no mercado o quanto antes. Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, o processo também é lento: a expectativa do estudante é ter o sensor no mercado dentro de dez anos.

Por Caio Brif - fotos: Filipe Redondo
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