Fora de foco

 

Você já deve ter ouvido falar que passar muito tempo na frente do micro faz mal à vista. E isso é verdade. A chamada Síndrome da Visão no Computador, que atinge principalmente usuários com mais de 40 anos que passam mais de duas horas ininterruptas diante da telinha, já era conhecida dos médicos. Mas, para os fãs da tecnologia e dos grandes efeitos visuais, foi descoberto um problema ainda mais grave: a 3D fobia, que, segundo o oftalmologista Leôncio Queiroz, pode aumentar em até dez vezes a fadiga visual causada pelo computador.

 

CuidadosArdência, cansaço visual, desconforto, lacrimejamento são alguns dos sintomas mais comuns desse mal moderno. “O processo torna-se incômodo. A pessoa não sente prazer em continuar vendo o filme e às vezes nem consegue permanecer no local”, diz o especialista.

Mas por que a 3D fobia acontece? Quem explica é Marcelo Fernandes Costa, neurocientista e professor do Instituto de Psicologia da USP: “Quando estamos nesse ambiente de realidade virtual, existe uma certa ‘desconexão’ artificial entre as informações que nossa visão encaminha para o cérebro, as informações que ele recebe de outras áreas do corpo, como o sistema vestibular (que controla o nosso equilíbrio), e as informações que recebe das contrações musculares durante a manutenção da nossa postura. Ou seja, é como se a nossa visão dissesse para o cérebro que tudo está girando, mas o corpo diz que tudo está parado. Este tipo de desconexão pode fazer com que pessoas mais sensíveis se sintam mal”.

 

Os 3D fóbicos

 

A visão 3D só ocorre sob as seguintes condições: olhos alinhados e com qualidades visuais iguais. O neurocientista Marcelo Fernandes explica que as pessoas que têm estrabismo, diferentes graus de refração entre os olhos ou qualquer outra alteração que impeça o uso dos dois olhos simultaneamente não conseguem visualizar em 3D. O uso de lentes corretivas também é um problema: óculos de grau não caem bem com os óculos polarizados específicos. A solução para esses casos é usar lentes de contato ou, na mais drástica das hipóteses, ter os seus próprios óculos especiais.

Graus menores sem correção conseguem enxergar os efeitos da tecnologia, mas, devido ao esforço muito maior, entram em fadiga mais rapidamente. O oftalmologista Leôncio Queiroz diz que cerca de 5% da população tem ambliopia (também conhecida como olho preguiçoso, é a redução ou perda de visão de um dos olhos ocorrida na infância e, se não tratada nessa época, torna-se irreversível). E como muitas pessoas não sabem que têm, sentem um enorme desconforto com a tecnologia e vão sempre apresentar problemas quando expostas ao 3D. Isso não significa que pessoas com visão normal não sofram os efeitos; em excesso, o 3D faz mal para todo mundo, mas quem não apresenta problemas de refração ou estrabismo só vai demorar mais para sentir. “Quem tem predisposição a dor de cabeça e enxaqueca também apresenta uma sensibilidade maior”, explica o oftalmologista.

 

Lá na frente

 

Os estudos ainda são muito recentes para avaliar as reais consequências da permanência prolongada em ambientes virtuais, mas para o neurocientista Marcelo Fernandes, a experiência clínica mostra que as funções visuais ficam prejudicadas antes de os sintomas aparecerem, ou seja, quando o incômodo der sinal, é um alerta para uma situação fora do normal que já está ocorrendo. E, se o esforço continuar por um período prolongado, a tendência é de que os sintomas piorem e ocorram alterações mais difíceis de ser tratadas. “Inicialmente existirá um prejuízo da visão 3D. O esforço que os músculos farão para manter o olho alinhado e recuperar a função vai gerar os sintomas. Com o tempo, os músculos não darão mais conta e as pessoas deixarão de ver em 3D, muitas vezes podendo até desenvolver estrabismos intermitentes (em alguns momentos do dia ficam estrábicas). Um problema é que, quando estão estrábicas, elas deixam de ter a demanda gerada pela visão 3D. A visão do olho que entorta é suprimida (o cérebro a ignora) e os sintomas são amenizados ou até mesmo desaparecem, o que pode levar o organismo a preferir ficar mais tempo estrábico do que com os olhos alinhados”, explica o neurocientista.

A melhor maneira de prevenir problemas futuros é não abusar da tecnologia, visitar o seu oftalmologista regularmente e ficar atento aos sintomas. As crianças, que formam um dos públicos mais interessados na mania 3D, também devem passar por consultas regulares.

 

Olho x 3D: entenda melhor

 

Para manter a visão em foco nas diversas situações do dia a dia, o sistema visual conta com mecanismos musculares ao redor do olhos, que controlam o posicionamento ocular; internos, que controlam a acomodação (modificação de foco); e cerebrais, que captam as informações e retroalimentam essas estruturas. “O fato de termos dois olhos faz com que todos esses mecanismos tenham que trabalhar de maneira a coordenar conjuntamente a ação de ambos. E é aí que nasce a maioria dos problemas que levam às queixas de desconforto”, explica Marcelo Fernandes.

Eles começam quando mantemos o foco por tempo prolongado em uma determinada posição, sobretudo de perto. Isso porque a manutenção das imagens em foco e nas regiões correspondentes a cada olho tem um objetivo: garantir a nossa capacidade de julgar distâncias entre elementos do espaço. Quando esse julgamento ocorre entre diferentes pontos de um objeto e entre diferentes objetos em profundidade, temos a percepção de estereopsia, comumente conhecida como visão 3D. E todo o esforço muscular para garantir que funções visuais – como ver detalhes, contrastes, cores, movimentos, profundidade – funcionem de maneira perfeita acaba sobrecarregando a visão e causando a fadiga visual.

 

Pegue leve

 

Algumas recomendações para você curtir o 3D sem comprometer a saúde dos olhos:

* Não assista a filmes nesse formato por um período prolongado durante um mesmo dia. O oftalmologista Leôncio Queiroz recomenda pausas de 5 minutos a cada meia hora de exposição.

* Antes e depois de assistir à TV em 3D, mude de ambiente para poder voltar a fazer naturalmente trocas de foco, de mudança de alinhamento visual e reintegrar as informações visuais com as de outros sentidos.

* No cinema, evite sentar-se nas poltronas próximas à tela.

* Para as TVs e videogames: posicione-se no nível da tela e mantenha uma distância pelo menos três vezes maior do que a altura da tela.

* De forma geral, tenha moderação com o uso dessa tecnologia. “Cada pessoa deve procurar o seu próprio limite e, em caso de desconforto frequente, procurar um oftalmologista e solicitar uma avaliação ortóptica”, diz o neurocientista Marcelo Fernandes.

Consultoria:

Dr. Leôncio Queiroz Neto, oftalmologista do Instituto Penido Burnier (Campinas – SP); Dr. Marcelo Fernandes da Costa, neurocientista, prof. do Instituto de Psicologia da USP.

por Alana Della Nina - ilustração Zé Vicente
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