Entrando no flow

É possível atingir uma dimensão de “graça” e encontrar satisfação completa na realização de tarefas. A psicologia positiva explica o caminho

 

 

Não se trata de autoajuda ou qualquer fórmula mágica para alcançar sucesso e felicidade. É a ciência aplicada para fazer com que se tenha uma vida mais plena e consciente. Um ramo da psicologia, chamado de psicologia positiva e que tem sido objeto de estudo de cientistas desde a década de 1970, aponta que, para ser feliz, desenvolver o melhor das nossas potencialidades e ativar a criatividade, é preciso entrar no estado de flow – fluxo, em inglês.

Quem é fã de rap conhece o termo, embora de outra forma. No rap, flow é o que o norte-americano Rakim fez todo o meio musical querer atingir. Antes dele, o rap não ia além da batida determinada pelo DJ acompanhada pelo MC. Pois Rakim colocou sua letra na batida do DJ Eric B. de uma forma inovadora e imediatamente passou a ser o sonho de consumo de todo aspirante a rapper. Foi a partir dele que o rap passou a ter flow, quando batida e letra se combinam para criar uma nova sonoridade.

E se no rap o flow é a mágica de combinar perfeitamente a rima com a batida para transcender o som, para a psicologia entrar no flow é vibrar numa única frequência a competência individual, o nível de desafio e a motivação para a execução de uma tarefa para atingir a plenitude.

Assim como Rakim é o pai do flow do rap, o psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, professor da Universidade de Chicago, foi quem cunhou o termo para a psicologia. Segundo Csikszentmihalyi define, flow é uma “dimensão de graça”, em que o caos e as preocupações diárias desaparecem da mente quando se encontra bem-estar na realização de uma tarefa específica. Mas não se trata de qualquer tarefa, e sim aquela que mais nos identifica e se adapta ao nosso ser. É um estado de prazer, “uma epifania na qual se encontra a essência de uma vida feliz”. “É um estado em que sentimos e realizamos nosso melhor. Todo seu ser está envolvido no uso de suas habilidades ao máximo.”

Os exemplos mais comuns de quem atinge o estado de flow são frequentemente encontrados nos esportes e nas artes, como um atleta que tem um desempenho muito além do esperado em determinada prova ou um pintor que se lança a executar uma obra-prima e a cumpre. O que ambos têm em comum, além de teoricamente trabalharem numa atividade de que gostam e para a qual têm grande habilidade, é estar 100% concentrado na execução da tarefa em si. E estar totalmente focado, quando tudo mais não rouba a atenção, é atingir o estado de flow.

Isso não quer dizer que somente esportistas e artistas fazem o que mais gostam e por isso entram mais facilmente no estado de flow. Um anônimo qualquer que sente prazer em cozinhar, por exemplo, caso se lance a um desafio e tenha a habilidade necessária para executá-lo, pode entrar no estado de flow no processo. “É um estado em que se está com uma motivação muito forte ligada ao desenvolvimento de uma atividade”, explica Flora Victória, mestre em Psicologia Positiva pela Universidade da Pensilvânia e presidente da Sociedade Brasileira de Coaching (SBCoaching). Ela afirma, porém, que não se atinge tal estado parado, na apatia, mas no desenvolvimento de uma atividade que dê prazer e para a qual se esteja motivado. “É a motivação intrínseca quando se está fazendo algo.”

Ela cita como exemplo a pessoa que está fora de forma e se propõe a correr uma maratona no dia seguinte. Ao lançar-se a este desafio, não reúne a competência necessária para tamanha empreitada. O desafio é alto demais para o conjunto de habilidades que possui. Além de gerar muita ansiedade, o resultado será frustrante. “Desafio alto demais com baixo nível de competência é gerador de ansiedade, enquanto alto nível de competência com baixo desafio ou ausência de desafio provoca tédio, desânimo. Não se atinge o flow quando desafio e competência não estão no mesmo patamar”, afirma Flora.

Usando o mesmo exemplo da maratona, se a pessoa dá início ao processo consciente de que precisa melhorar sua competência para correr a maratona dentro de um determinado tempo, ela pode se lançar a desafios diários conforme seu nível de competência no momento até completar o conjunto de habilidades para correr os 42 quilômetros da maratona. Com isso, se manterá motivada durante todo o processo e provavelmente enquanto estiver na execução da atividade vai entrar no flow por estar 100% focada.

O fluxo mapeado
Quando deu início ao estudo do flow nos anos 1970, Mihaly Csikszentmihalyi e seus colegas fizeram mais de 8 mil entrevistas, reunindo pessoas de diferentes culturas, níveis de escolaridade, condição social etc., como monges, alpinistas, músicos, atletas, professores, escritores, entre outros. Independentemente das diferenças entre os membros do grupo, foi possível mapear as condições para que se atinja o processo de flow e as semelhanças de suas percepções quando se encontravam no fluxo. O principal deles, descrito pelos entrevistados de diferentes formas, é o estado de êxtase e/ou mergulho numa realidade alternativa. Tudo o que se propõem a fazer o fazem com a precisão de um relógio, de forma natural, com todos os passos do processo ocorrendo em perfeita sintonia.

“Os que chegam a um determinado ponto de criação descrevem que, ao estarem com foco total no que estão fazendo, passam por uma sensação tão intensa de atenção que é como se eles próprios não existissem naquele momento. Pode parecer exagero romântico, mas na verdade nosso sistema nervoso é incapaz de processar mais do que 110 bits de informação por segundo. É por isso que se duas pessoas falam ao mesmo tempo não conseguimos captar informação de nenhuma delas. Quando se está em flow, o foco é no presente, é no prazer que aquele trabalho proporciona, e não há sobra de atenção para as outras coisas. Não há sobra de atenção para como o corpo se sente ou para os problemas de casa. Não se sente o corpo cansado ou com fome, mesmo estando cansado e com fome. É como se a existência fosse temporariamente suspensa”, explica o psicólogo.

Csikszentmihalyi afirma também que pessoas que entram mais facilmente no estado de flow, além de desenvolverem atividades das quais gostam — seja um escritor de best seller ou um eletricista —, têm um grau elevado de habilidades e se mantêm motivados ao se lançarem a grandes desafios — e, como se trata de uma escolha consciente, se lançam a desafios realizáveis, mesmo que de alto grau de complexidade. Esta motivação intrínseca está sempre relacionada com a atividade em si, com o prazer da realização. A realização é a própria recompensa, que produz o estado de felicidade. Vale lembrar que o contrário do estado de motivação é o estado de apatia, de qualquer tarefa estar totalmente desprovida de sentido. É como passar um dia de sol sentado no sofá de pijama assistindo à TV.

 

O flow é um estado em que sentimos
e realizamos o nosso melhor

 

Como encontrar o foco
Nossa mente nem sempre está focada na atividade do momento. Se estamos no trabalho, estamos pensando no jantar, nas coisas a serem resolvidas na próxima semana, na briga que tivemos com os filhos, nas contas para pagar ou que assim que virar o cartão de crédito vai trocar o celular. Nossa mente tem uma grande dificuldade em focar no presente, ainda mais quando se está fazendo uma atividade não prazerosa ou quando o trabalho não oferece qualquer desafio. A diferença entre as pessoas que não conseguem ter foco e aquelas que entram facilmente no flow é que as últimas estão com foco na atividade do momento.

E para colocar a mente em foco é preciso estar presente no presente. Ter uma atividade física é importante para desanuviar a mente. O foco está no exercício, em pedalar, em correr mais um quilômetro, em aumentar a carga no aparelho de musculação. Meditação também é eficiente, mesmo que não seja a meditação tradicional. Ao focar a atenção na respiração, a mente se mantém no presente. Lavar a louça, tomar banho, ler um livro, limpar a casa, levar o cachorro para passear, assistir a um filme que se queira muito ver também são formas de focar no presente.

Criar mecanismos para colocar foco no presente ajuda ainda a estabelecer metas e desafios a quem está perdido, principalmente se a atividade que se esteja desenvolvendo no momento seja fonte de sofrimento. Uma pessoa que trabalha naquilo de que não gosta, que esteja sendo pouco desafiada ou que não possui determinadas habilidades para subir de posto não vai entrar em flow durante a execução do trabalho. Encontrar o foco vai ajudar essa pessoa a avaliar de forma mais consciente as escolhas que são colocadas à sua frente, como fazer um curso para se aperfeiçoar ou mudar completamente de área de atuação.


____________________________________________________________________________________

 

7 CONDIÇÕES QUE ESTÃO PRESENTES QUANDO SE ATINGE O FLOW
Estar completamente envolvido no que se está fazendo – focado, concentrado
Sensação de êxtase – de estar fora da realidade cotidiana
Grande clareza interior – saber exatamente o que precisa ser feito e o quão bem está sendo feito
Saber que a atividade é realizável – que nossas habilidades são adequadas à tarefa
Sensação de serenidade – sem preocupações sobre si mesmo e um sentimento de plenitude que vai além dos limites do ego
Foco no presente – as horas parecem se passar em minutos
Motivação intrínseca – qualquer que seja o fluxo produzido, este é a própria recompensa

8 COMPORTAMENTOS PARA ENTRAR EM ESTADO DE FLOW
Fazer de cada atividade um jogo
Concentrar-se na atividade, buscando a transcendência ou o êxtase
Estabelecer metas desafiadoras, mas realistas
Buscar realizar o máximo da atividade – o que é diferente de o máximo do esforço
Manter-se atento e controlar o estado de consciência
Não buscar apenas o resultado final e o sucesso
Acabar com a procrastinação e com a vontade de não fazer as atividades cotidianas corretamente
Deixar-se levar pelo processo de realização da atividade

Fonte: Mihaly Csikszentmihalyi

 

Texto: Andréa Catão | Imagens: Thinkstock
Viver Bem