Efeito fênix

 

Um gel desenvolvido com tecido do próprio coração ajuda a recuperar a função do órgão após o infarto e prevenir a insuficiência cardíaca

Por anos, danos causados ao coração foram considerados irreparáveis e irreversíveis. Mas a última década demonstrou que o músculo vital possui certa capacidade regenerativa e que estratégias baseadas em terapia celular podem ajudar a recuperar ao menos parte das atividades cardíacas após infartos. Um estudo recente, conduzido por pesquisadores da Universidade de San Diego (EUA), apresentou um gel capaz de promover a formação de novos vasos sanguíneos, de gerar mais músculo e de diminuir a cicatrização de um coração nessa condição.

A principal inovação do gel é sua matéria-prima, extraída do tecido da matriz extracelular do coração dos suínos. “Nós removemos todas as células do coração do porco, depois processamos a matriz para transformá-la em um pó e, em seguida, em um líquido injetável”, explica Karen Christman (à direita, na foto abaixo), professora de bioengenharia e líder da pesquisa. O processo inclui a limpeza e a liofilização (desidratação) do tecido conjuntivo cardíaco do porco.

Depois de pronto, o hidrogel é aplicado de forma pouco invasiva no coração, através de um cateter – o que dispensa a necessidade de cirurgia e a aplicação de anestesia geral. Assim que atinge a temperatura do corpo, o gel se converte em uma espécie de suporte semissólido poroso, que estimula a produção de novas células para ocupar as áreas danificadas pelo ataque cardíaco. “As próprias células do corpo migram para o material, o que ajuda a reparar o coração. Nos estudos pré-clínicos realizados em animais, verificamos que o gel ainda previne a insuficiência cardíaca”, conta Karen.

 

Dose única

Por ora, os testes foram realizados apenas com suínos, cujos corações apresentam dimensões e anatomia similares aos dos humanos. Seis porcos com lesões causadas por infarto receberam o gel duas semanas após o incidente; outros quatro não foram submetidos ao tratamento. Passados três meses, o primeiro grupo de animais mostrou melhora na função cardíaca, enquanto o outro piorou.

O estudo indica que não houve qualquer tipo de rejeição ao gel e que o material não causou reações adversas. Os testes clínicos com seres humanos, porém, estão previstos para o próximo ano, quando será possível atestar os reais efeitos do hidrogel sobre o organismo de uma pessoa. O medicamento, cujo custo ainda não foi determinado, será distribuído pela empresa Ventrix. “Nossa intenção é aplicar o produto de uma a três semanas após o infarto. Ele será injetado em dose única, quantidade que se mostrou eficaz nos estudos”, afirma Karen Christman.

 

Quando atinge a temperatura do corpo, o hidrogel estimula a produção de novas células para ocupar as áreas danificadas pelo infarto, reparando o coração

 

Outro ponto de vista

Para José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Incor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP), a pesquisa realizada pela Universidade de San Diego é importante, mas poderia ser mais abrangente. “O número de animais submetidos aos testes ainda é pequeno. Apenas 7% do material celular injetado no coração de ratos permanece no músculo, por exemplo, e o estudo realizado na Califórnia não deixa claro de que maneira as células vão permanecer no coração”, diz o especialista. Ele também acredita que o trabalho científico poderia demonstrar a eficácia do gel quando usado em conjunto com tratamentos já disponíveis no mercado. “Assim, seria possível analisar se o efeito é igual ao obtido pelos medicamentos que já existem ou se há um avanço concreto”, conclui.

por Irene Donatti | ilustração Shutterstock | foto Universidade de San Diego
Techmed