Diagnóstico e tratamento do autismo

Mapeamento genético é uma das ferramentas que auxiliam na identificação da causa do problema

 

O que para uns poderia parecer enredo de filme de ficção científica já é rotina de muita gente. E um laboratório brasileiro é o protagonista dessa história. A Tismoo, empresa fundada por um grupo de cientistas renomados que atuam no País e nos Estados Unidos, é a primeira do mundo voltada exclusivamente à medicina personalizada para o tratamento e o diagnóstico do transtorno do espectro do autismo (TEA). “O autismo, apesar da sintomatologia pediátrica, é uma condição para o resto da vida, que afeta a família, a sociedade e o estado. É um grande e complexo problema que afugentou outros laboratórios”, conta o biólogo brasileiro Alysson Muotri, diretor científico da Tismoo, com pós-doutorado em neurociência e células-tronco e hoje professor da Faculdade de Medicina da Universidade de San Diego, nos Estados Unidos. “Usando as ferramentas certas (estado da arte na análise do genoma e modelagem com células-tronco), sabíamos que tínhamos como abordar essa complexidade. Somando isso tudo ao lado social e à vontade de fazer a diferença na vida dessas famílias, surgiu a Tismoo”, complementa. Muotri ressalta o fato de o laboratório ter nascido no Brasil, liderado por cientistas brasileiros. “É um ótimo exemplo de como podemos inovar mesmo em um país que pouco investe nessa área”, comenta.

O TEA atinge uma em cada 68 pessoas, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. É causado por diversos fatores, mas hoje se sabe que as alterações genéticas são os principais. “Um estudo realizado na Suécia em 2014 confirmou que 59% do risco de desenvolver autismo tem causas genéticas”, explica a bióloga Graciela Pignatari, diretora executiva da Tismoo, doutora em Biologia Molecular e que atua com células-tronco, terapia celular e criação de modelos de doenças com foco em autismo.

Graciela ressalta que, muitas vezes, as alterações genéticas que levam ao autismo não são herdadas. “Em muitos casos, são mudanças espontâneas, que não estão presentes no mapa genético dos pais”, conta. Infecções, fatores ambientais ou a idade dos pais ao gerar a criança poderiam ser alguns dos fatores por trás dessas modificações. Outras vezes, os genes alterados já estão presentes no genoma dos pais e podem ser herdados pelos filhos. Hoje, sabe-se que alterações em 722 genes estariam relacionadas a esses transtornos – alterações às vezes isoladas, em apenas um gene, ou uma combinação de várias mutações.

Há dois anos, a startup realiza uma série de exames genéticos para analisar as características únicas de cada um dos pacientes e ajudar a desvendar alterações que tenham provocado o problema. Até agora, mais de cem clientes de vários países foram atendidos. Ainda este ano, a empresa avançará no caminho da medicina personalizada: em laboratórios na Europa e nos EUA, começará a trabalhar com minicérebros, tecnologia que permite o teste de medicações e, portanto, a indicação do tratamento mais adequado para cada pessoa.

 

Mapeamento
O diagnóstico do autismo é clínico. Problemas de comunicação e interação social e comportamentos repetitivos são alguns dos fatores levados em consideração pelo médico. Há desde casos leves a outros bem severos. Descobrir o que está por trás de cada um, localizando o gene responsável pelo caso, é fundamental para a busca de um tratamento que melhore a qualidade de vida do paciente.

É nesse momento que entra em cena o trabalho da Tismoo. Os profissionais colhem uma amostra de saliva ou sangue do paciente e a colocam em um sequenciador de DNA, que irá fazer uma leitura do genoma da pessoa. Vários exames podem ser realizados, e a escolha de qual ou quais serão feitos depende do quadro de cada indivíduo. É possível fazer uma triagem para calcular se houve perda ou duplicação de cromossomos, centrar a análise na parte mais funcional dos genes ou ainda realizar a leitura completa do genoma do paciente.

No mapeamento genético são feitas três abordagens: a primeira vê se há alguma alteração igual às já conhecidas, voltada principalmente aos 722 genes identificados como relacionados aos autismo; a segunda identifica variantes nesses genes que ainda são de significado desconhecido; e a terceira verifica se há alterações genéticas que possam estar relacionadas a outras doenças, como problemas cardíacos ou câncer, as quais, por razões éticas, só são reveladas quando solicitado pela família. O laboratório oferece um serviço de aconselhamento genético pré-teste, caso o paciente tenha interesse. Para realizar os exames é preciso pedido médico, que na maioria das vezes é feito pelo profissional que já atende o paciente.

 

Estudo realizado na Suécia em 2014 confirmou que 59% do risco de desenvolver autismo tem causas genéticas

 

Banco de dados
Para fazer essa análise, profissionais da empresa desenvolveram uma inovadora plataforma de bioinformática que reúne todas as publicações científicas relacionadas ao autismo no mundo todo. Essa base de dados é atualizada ininterruptamente, ou seja, 24 horas por dia, sete dias por semana. Ao comparar o resultado do exame com os dados do banco, os profissionais podem identificar causas já documentadas e, a partir daí, indicar o caminho a ser seguido para o tratamento de cada pessoa.

Por conta da atualização constante, cada paciente recebe três laudos do exame. O primeiro, assim que sai o resultado; o segundo, após seis meses; e o terceiro, com a atualização de um ano depois. Por contar com muitos estudos, as novidades, inclusive descobertas de outras alterações genéticas relacionadas ao autismo, podem surgir a qualquer hora. Uma nova revisão do resultado pode ser feita em qualquer outro momento.

São as novidades publicadas pelos cientistas que ajudam a definir os transtornos neurológicos de origem genética que possuem os mesmos sintomas do autismo — como a síndrome de Rett, causada pela alteração de um único gene específico.

Minicérebros
No segundo semestre deste ano, a Tismoo colocará em cena outra metodologia importante para auxiliar no tratamento de transtornos neurológicos: os minicérebros, estruturas criadas a partir de células-tronco que mimetizam o órgão. Esse organoide, como é chamado, é a cópia simplificada de um cérebro fetal e pode tornar-se ferramenta importante para ajudar a descobrir como os remédios atuam e, dessa forma, auxiliar no tratamento. No mundo, essa tecnologia é usada apenas no meio acadêmico.

A partir de células de um indivíduo, na maioria das vezes da pele ou da polpa do dente de leite, cientistas realizam uma reprogramação celular. “Como em um túnel do tempo, fazemos uma célula adulta virar uma embrionária. Depois, podemos programá-la para se transformar na célula de qualquer órgão do corpo. No caso do autismo, o cérebro”, explica Graciela.

Esse material simula o cérebro fetal do paciente e é sempre comparado ao minicérebro de uma pessoa que não possui os sintomas do autismo. Essa fase do trabalho ajuda a identificar funções cerebrais que trabalham de forma diferente do padrão. Na etapa seguinte, os cientistas testam diversos medicamentos para descobrir os que podem auxiliar o paciente a ter uma melhor qualidade de vida. “A grande vantagem desse processo é abrir uma possibilidade viável para o teste de fármacos, sem utilizar o próprio paciente e, mesmo assim, conseguindo definir um tratamento mais adequado para cada indivíduo”, explica Muotri. Nos próximos anos, o trabalho da empresa poderá se estender para outros problemas neurológicos. “Sejam de natureza genética, como o Alzheimer, ou ambiental, como o zika”, planeja o cientista.

Outra importante função dos minicérebros, e que também será realizada pela empresa, é ajudar a descobrir novos usos para medicamentos já existentes. “Com essa tecnologia, é possível testar as drogas para outro uso, fazendo o que chamamos de reposicionamento de fármacos, obtendo uma segunda patente”, explica Gian Franco Rocchiccioli, diretor de estratégia da Tismoo. Ao conhecerem como uma droga atua nas células do organismo, os cientistas podem testá-la em um organoide e descobrir novas indicações.

E isso tudo é só o começo. No futuro, teremos cada vez mais novidades proporcionadas pelo estudo da genética. “A análise genômica substituirá o teste do pezinho. Seu genoma e sua análise irão acompanhá-lo pelo resto da vida”, prevê Muotri. “A informação do DNA é importante em todas as fases do indivíduo. Ao nascer, toda criança terá um banco de células-tronco que servirá para criar diversos organoides que poderão ser usados como ferramenta de diagnóstico e teste de medicamentos. Será uma medicina muito mais personalizada”, conclui.

Texto: Luisa Oliveira | Imagens: Thinkstock
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