Dente de leite poderoso

 

Desde o início da infância, nos acostumamos à ideia de que da queda do dente de leite não se extrai nada, a não ser o tradicional prêmio em dinheiro cedido pela “fada do dente”. Pois este conceito está prestes a ser mudado: pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, descobriram que daquele (aparentemente) insignificante objeto que cai da boca da criança é possível extrair mais de 100 bilhões de células-tronco em apenas seis meses.

A retirada de células-tronco, em si, não é algo inédito. Desde 1981, elas são obtidas da medula óssea, do cordão umbilical, do tecido adiposo, da pele e até dos músculos. Mas estes métodos apresentam algumas restrições, que vão desde a coleta – já que são necessários um parto para se retirar o cordão umbilical, uma lipoaspiração para obter o tecido adiposo ou uma cirurgia para acessar a medula óssea – até a efetiva utilização delas, pois comumente causam rejeição entre os indivíduos, forçando uma doação entre parentes próximos. Outro problema é que o número de células conseguidas por estes procedimentos muitas vezes são insuficientes para a aplicação em seres humanos.

Trabalho de longo prazo: As pesquisas já duram oito anos e tiveram investimento de quase R$ 2 milhões

 

Não é o caso daquelas tiradas do dente de leite. Segundo Nelson Lizier, pesquisador do Butantan, elas são imunossupressoras, ou seja, podem ser doadas a qualquer pessoa. Além disso, possuem efeito anti-inflamatório e evitam a morte de outras células. “Outra vantagem é o fato de serem células jovens, obtidas de crianças até 12 anos, cujo organismo não sofreu influências comuns ao organismo adulto, como stress, álcool e cigarro, por exemplo”, ressalta.

Os dentes, de acordo com Lizier, chegam ao Instituto por um convênio com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que os envia após as extrações feitas em seus consultórios odontológicos, e também por doações espontâneas feitas pela população.

 

 As células do dente de leite não provocam rejeição e podem ser doadas a qualquer pessoa

 

Investimento milionário

 

Parceria: Irina Kerkis e Nelson Lizier comandam as pesquisas e buscam equipes médicas para iniciar testes em humanos

Por enquanto, foi realizado apenas um teste de aplicação em humanos, em um experimento de regeneração de córneas, mas os resultados ainda não foram divulgados. Com relação aos animais, porém, os efeitos são promissores: as células-tronco de dente de leite já regeneraram córneas danificadas de coelhos, retinas de camundongos, músculos de cachorros com
distrofia e ossos de ratos – o que sinaliza a possibilidade de sucesso do uso delas em cirurgias veterinárias.

Tudo isso é resultado de oito anos de pesquisas e quase R$ 2 milhões de investimentos. Os próximos passos, porém, não dependem apenas do Instituto Butantan. Irina Kerkis, diretora do Laboratório de Genética, revela que será necessária uma parceria para que a descoberta possa ajudar a população. “Já fizemos nossa parte. Agora precisamos que equipes médicas nos procurem para que, em conjunto com elas, possamos iniciar testes e aplicações em pessoas”, diz ela.

 

De tecidos a um organismo inteiro

 

O assunto parece recente, mas a primeira vez que se teve notícia das células-tronco foi na década de 1970. Apesar da dificuldade em obtê-las, elas estão presentes em todos os tecidos do corpo humano e são responsáveis pela regeneração de pequenos ferimentos em órgãos não vitais.

O que as torna tão especiais, diz a pesquisadora Irina Kerkis, é que elas são as células mais poderosas que existem. “A partir delas, é possível criar todos os tecidos de um corpo humano. Elas formam, inclusive, um organismo inteiro”, sublinha. Também são apontadas como a esperança para o fim de doenças atualmente incuráveis, como câncer, Alzheimer, catarata e paralisia, entre outras. O problema, diz a doutora, “é que elas são tão poderosas quanto incontroláveis”.

 

As etapas da transformação

 

Excetuando a retirada do dente, que é feita em consultório odontológico, todo o procedimento é realizado em laboratório e dura seis meses. Saiba como ele acontece:

 

A retirada

Tudo começa quando o dente de leite da criança cai ou é extraído pelo dentista. Então, os cientistas têm até 72 horas para retirar a polpa, que é a parte carnosa do material e bastante rica em células-tronco.

 

 

 

 

Transferência

Os cientistas colocam o dente em uma placa de cultura a 37oC, a mesma temperatura do corpo humano. Lá, as células-tronco migram espontaneamente do tecido do dente e começam a se multiplicar sozinhas.

 

 

 

Remoção

Como o espaço da placa de cultura é limitado, as células devem ser transferidas para novas placas, para que continuem a se reproduzir. Isto ocorre a cada três ou quatro dias.

 

 

 

 

Utilização ou estocagem

Depois de retiradas das placas de cultura, as células são divididas em duas partes. A primeira é congelada a –190oC, em nitrogênio líquido, e a outra é utilizada em experimentos para a regeneração de órgãos de animais.

André Cintra - fotos: Daniela Toviansky
Techmed