Decisão premiada

One Experience

Depois de abandonar o jornalismo para tentar carreira no cinema, Gabriela Egito foi estudar nos Estados Unidos. Lá, viu seu talento para as artes visuais crescer e ganhar reconhecimento internacional

Sabe quando você está trabalhando em algo que curte, mas não é exatamente aquilo que você ama fazer de verdade? Experimentei essa sensação por uma década, atuando como jornalista. Era estimulante, desafiador, só que faltava algo. Um sonho relegado ao segundo plano martelava quase que diariamente na minha cabeça: “Eu queria mesmo era fazer cinema!”, dizia uma vozinha chata e insistente. Mas isso parecia inalcançável, coisa de gente muito talentosa, um ofício para poucos – e eu certamente não me enquadrava nesse rol.

No entanto, chegou um ponto em que todos os argumentos pararam de funcionar comigo porque eu vinha me sentindo infeliz por anos, mesmo tendo emprego, apartamento, carro, marido, o pacote completo. Me convenci de que eu só poderia ter paz realmente se desse vazão àquilo que me corroía por dentro, mesmo que no final das contas fosse um fracasso retumbante. Pelo menos eu teria tentado e pronto. Daí, pedi as contas na empresa de assessoria de imprensa onde trabalhava, em São Paulo, comuniquei minha decisão ao marido e à família, juntei minhas economias e pulei de cabeça. Não quis ouvir nem um “mas” de ninguém. Era definitivo, com apoio ou sem.

Não que eu fosse marinheira de primeira viagem. Tinha concluído um mestrado em Cinema na USP e feito mais de 30  workshops teóricos de roteiro e produção cinematográfica no Brasil, sem que isso tivesse trazido qualquer resultado prático. Nunca fui aprovada em editais de incentivo ao desenvolvimento de projetos cinematográficos. Meus filmes não saíam do papel!

No final de abril de 2010, cheguei a Los Angeles, capital do cinema mundial, com duas malas e muitas expectativas. Tudo era novo; a cidade, o idioma, a cultura. As aulas na New York Film Academy, nos estúdios da Universal, eram intensivas, das 9h da manhã às 18h, às vezes até mais. O método era de ensinar na prática. Então, no final da primeira semana de aula, eu já estava rodando o meu primeiro curta- metragem. Para quem ficou uma década ansiando por isso, era fantástico.

 

“Pedi as contas na empresa de assessoria de imprensa onde trabalhava, comuniquei minha decisão ao marido e à família, juntei minhas economias e pulei de cabeça. Não quis ouvir nem um ‘mas’ de ninguém”

 

Aos poucos, o sucesso

De olho na minha volta para o Brasil, depois de dois meses de curso, caprichei no último projeto, um curta chamado Sinergia (Synergy), para ter um bom portfólio e tentar vaga em produtoras paulistanas. Mas eu sentia que deveria praticar ainda mais, embora não tivesse mais recursos para isso. Então, tive a ideia de apresentar este trabalho à direção da escola, e eles gostaram tanto que me ofereceram uma bolsa de estudos para um curso de um ano. Daí para frente, tudo mudou. Sabia que meu casamento não resistiria a mais um ano de separação, mas eu não podia deixar escapar a oportunidade. Três dias depois, eu já estava em sala de aula novamente.

Pouco tempo depois, o curta ganhou um prêmio no Awareness Festival, em Hollywood, e em seguida participou de mais uma dezena de festivais nos EUA e Brasil. Para se ter uma ideia do desafio, até mesmo festivais menores na América selecionam somente cerca de 10% dos filmes enviados, porque a concorrência no setor é enorme. Depois do Sinergia, um pequeno documentário experimental que fiz, chamado A Vida É Um Rio Selvagem (Life Is A Wild River), foi exibido em festivais em Brasília, Canadá, França e Itália. O thriller Coisado (Stuffed), projeto de graduação do meu curso intensivo de um ano, ganhou três prêmios em festivais em  Los Angeles e Las Vegas, e recebeu duas indicações em Atlanta e Nova Jersey. No Downbeach Film Festival, em Atlantic City, esse filme concorreu e venceu o de Scott M. Rosenfelt, produtor de sucessos mundiais como Esqueceram de Mim e Três Mulheres, Três Amores.

 

“Reconheço que o caminho ainda é longo e árduo e o custo pessoal é inegavelmente alto. Mas, em retrospectiva, vejo o quanto eu jamais sonhei realizar se tornar possível”

 

Já se vão mais de três anos desde que cheguei a Los Angeles planejando ficar somente dois meses. Entrar nesse mercado não é fácil. Não senti discriminação por ser estrangeira, já que a cidade está cheia de gente de todas as partes do mundo em busca de uma oportunidade. Mas, obviamente, é preciso ser pelo menos duas vezes melhor do que um americano para conquistar um lugar ao sol e entender bem como funciona o trato social, que é muito diferente do nosso. Talvez o maior desafio para mim seja conquistar espaço em uma indústria que quase não emprega diretoras. Somente 5% dos filmes lançados em cinemas americanos são dirigidos por mulheres.

Todo meu esforço, felizmente, vem sendo recompensado. No final de 2012, o governo dos EUA me considerou uma “artista de habilidades e realizações extraordinárias” e me concedeu visto de trabalho até 2015. Agora, tenho um agente americano cuidando da minha carreira e estou escrevendo o meu primeiro roteiro de longa-metragem, além de viajar para festivais com dois novos curtas. Gostaria muito de fazer filmes e TV no Brasil, e espero que essa oportunidade surja em breve. Reconheço que o caminho ainda é longo e árduo e o custo pessoal é inegavelmente alto. Mas, em retrospectiva, vejo o quanto eu jamais sonhei realizar se tornar possível porque um dia eu tive a ousadia de jogar tudo para o alto e pelo menos tentar. Acredito que a jornada está valendo a pena.

texto Gabriela Egito | fotos Arquivo Pessoal
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