Da ficção para a realidade

A medicina do futuro já está entre nós! Equipamentos revolucionários, medicamentos de última geração e procedimentos que parecem ter saído de um filme de ficção científica fazem parte do cardápio de recursos cada vez mais modernos para curar e evitar doenças

A ciência tem evoluído rápido e nos ajudado a viver mais e melhor. Há menos de um século não existiam antibióticos nem vacinas. Hoje, temos milhares de remédios capazes de combater e evitar a maioria dos problemas. Prova de outro grande avanço está relacionada à Aids. Os primeiros casos identificados ocorreram no início dos anos de 1980 – e naquela época era uma sentença de morte. Hoje a síndrome é considerada uma doença crônica que pode ser controlada. O professor Braulio Luna Filho, livre-docente de cardiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cita mais um: a medicina genômica. “Agora que já decodificamos a maioria dos genes, temos as ferramentas necessárias para desenvolver tratamentos e condutas de prevenção personalizados, portanto, muito mais eficientes”, aposta Braulio Luna. O médico aponta, ainda, outras áreas da ciência que transbordam inovações. Uma delas é a cirurgia robótica, em que o profissional opera com cortes infinitamente menores e com mais precisão. Além disso, as pesquisas de ponta com células-tronco no combate a doenças cardiovasculares, neurodegenerativas, ao diabetes e nas sequelas ligadas a acidentes vasculares cerebrais e nos traumas da medula espinhal.

O progresso da medicina inspira uma palavra: esperança. E, no que depender dos cientistas, podemos, sim, acreditar em mais qualidade de vida. Os recursos que mostramos a seguir indicam que essa realidade já faz parte da nossa vida.

PRATO MONITORADO
Já imaginou descobrir, em segundos, o valor nutricional do que você está prestes a comer? É o que fará o Tellspec, um gadget que, literalmente, escaneia a comida. O processo inclui três etapas: um espectrômetro (scanner); um banco de dados hospedado na “nuvem”, com mais de 1 milhão de informações nutricionais; e um app para ser baixado em qualquer smartphone. Você aponta o espectrômetro para o prato e fótons (partículas da luz) atingem as moléculas do alimento, absorvendo parte de sua energia. “A análise é feita na nuvem, que dispõe das informações para interpretar com precisão todo tipo de alimento. E, ao compará-lo com os dados catalogados, identifica suas características e informa, por meio do app, componentes como carboidratos, gorduras e se, por exemplo, ele contém algum agente alérgeno, como o glúten”, explica Isabel Hoffmann, CEO daTellspec, empresa canadense. O gadget deve ser lançado no fim deste ano, mas ainda não há data de comercialização no Brasil. “Esse tipo de equipamento poderá servir como estímulo para adesão ao tratamento médico e nutricional, se os testes clínicos confirmarem a sua eficácia”, diz Maria Helena Senger, endocrinologista e professora da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde, da PUC Sorocaba, SP.

CÂNCER NA MIRA
Todo ano, mais de 12,7 milhões de pessoas no mundo recebem o diagnóstico de câncer e 7,6 milhões morrem vítimas da doença. Cientistas trabalham incansavelmente para reduzir essas estatísticas e um dos caminhos promissores para combater o câncer são os testes genômicos. Segundo Dirce Maria Carraro, coordenadora do Laboratório de Diagnóstico Genômico, do Hospital A.C. Camargo Cancer Center, de São Paulo, trata-se de testes realizados com o DNA das células que servem para identificar mutações. “Eles são utilizados para avaliar o risco de desenvolvimento de câncer hereditário”, explica. E ainda há os testes genômicos feitos no DNA do próprio tumor, que apontam o melhor
tratamento. Uma dobradinha, sem dúvida nenhuma, muito promissora.

ADEUS, ENXAQUECA
A dor de cabeça é um dos dramas mais comuns e chega a incapacitar quem sofre do mal. São vários os gatilhos: estresse, obesidade, distúrbios do sono, jejum prolongado, determinados alimentos e odores. O tratamento inclui analgésicos, anti-inflamatórios, vasoconstritores, além do uso da toxina botulínica. Mais recentemente uma técnica veio somar forças ao arsenal de tratamento: a neuromodulação. Um exemplo de neuromodulador que possibilita melhora na qualidade de vida de quem tem o problema, diminuindo o sofrimento e, sobretudo, a automedicação, é o Cefaly. O aparelho, em formato de arco, ao ser colocado na cabeça, gera pequenos estímulos elétricos no nervo trigêmeo, principal causador das dores. Por meio desses impulsos, altera a maneira como o mal-estar é assimilado. O tratamento não é invasivo e pode ser usado no momento da crise ou em sessões diárias, dependendo do tipo de dor de cabeça. Segundo o fabricante, os efeitos positivos podem ser sentidos logo após o primeiro mês de uso. Célia Roesler, neurologista e diretora da Sociedade Brasileira de Cefaleia, alerta, porém, que o equipamento só deve ser usado sob orientação médica.

MARCADO PARA VIVER
O funcionamento do corpo humano é cheio de padrões. Quem nunca fez uma bateria de exames de sangue e, ao receber o resultado, correu para comparar seus níveis de colesterol e glicemia? Para os médicos, há também outras substâncias que, em níveis alterados, podem indicar problemas, inclusive no coração. São os chamados biomarcadores. No caso do acompanhamento cardíaco, eles são importantes para identificar e até evitar problemas mais sérios como o infarto. Os marcadores cardíacos são substâncias liberadas no sangue quando existe uma lesão no coração. Eles são utilizados para ajudar a diagnosticar e controlar pacientes com suspeita de síndrome coronária aguda, que inclue sintomas como dor no peito, pressão, náuseas e dificuldades para respirar. Eles estão associados a infarto e angina, mas também podem ser detectados em condições que não estão relacionadas ao coração. “Alterações em um ou mais biomarcadores podem indicar problemas no coração, possibilitando um diagnóstico mais rápido”, explica Leopoldo Piegas, cardiologista clínico e pesquisador do Hospital do Coração (HCor) e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da USP. Dois principais biomarcadores são a troponina e o BNP. Quando seus níveis estão alterados, é possível que haja um problema vascular, nas coronárias ou em outras artérias. “Os biomarcadores são guias importantes para os médicos serem mais precisos em seus diagnósticos”, diz Piegas.

CÉREBRO SOB CONTROLE
Quando acontece uma alteração no cérebro que gera espontaneamente uma atividade elétrica anormal, o resultado é a epilepsia. O mal provoca diversas manifestações, entre elas, a mais conhecida (até porque é a mais visível) é a convulsão. Cerca de 60% das pessoas que têm epilepsia controlam as convulsões com medicamentos que estabilizam os sistemas elétricos cerebrais. O restante nem sempre se beneficia, embora os remédios possam tornar as crises menos frequentes e menos intensas. Se o tratamento convencional com medicamentos não resolve, uma opção é a cirurgia ou até mesmo as terapias alternativas, como o VNS, um mecanismo de neuroestimulação. O VNS é um aparelho que ajuda a normalizar a atividade elétrica do cérebro. De acordo com Luiz Henrique Martins Castro, neurologista, professor da Faculdade de Medicina da USP e chefe do serviço de epilepsia do Hospital das Clínicas de São Paulo, o recurso, que é paliativo, ou seja, não cura, pode ser uma boa opção para quem não reage bem a medicamentos e não pode operar ou até para aqueles que já passaram pela cirurgia, mas não tiveram sucesso. Vale dizer que se trata de um procedimento invasivo: faz-se uma pequena cirurgia no tórax e no pescoço (no nervo vago), onde são implantados os equipamentos. Podem ocorrer efeitos colaterais como incômodo na garganta, tosse, rouquidão e soluço. Em contrapartida, o aparelho não traz a sensação de sonolência que as drogas costumam causar, e ainda ajuda no controle dos sinais de depressão.

DROGAS CONTRA HEPATITE C
Causada pelo vírus HCV, a hepatite C, em geral, é transmitida por transfusão de sangue e compartilhamento de instrumentos cortantes, entre outros. Na maioria das vezes, é assintomática e sua descoberta pode vir tarde demais – muitas pessoas convivem com o vírus por anos sem saber que estão infectadas. Resultado: consequências irreversíveis que podem levar a tumores no fígado e à cirrose – a falência do órgão. Segundo Ana Cristina de Castro Amaral, médica assistente da disciplina de gastroenterologia da Unifesp, até pouco tempo atrás, a hepatite era uma infecção que tinha chances modestas de cura, em torno de 45%, com os medicamentos disponíveis. “Há novas drogas de ponta que conseguem não apenas tratar a doença, mas curá-la em mais de 90% dos casos”, explica Ana Cristina. São os chamados antivirais de ação direta, como Sofosbuvir, Daclatasvir e Simeprevir. “Atuam em diferentes pontos no ciclo do vírus e a grande vantagem sobre os medicamentos antigos é o tempo de tratamento (cerca de 12 semanas, contra os seis a 12 meses do tratamento tradicional) e a redução dos efeitos colaterais”, diz Renata Moutinho, médica da equipe de hepatologia do Hospital Nove de Julho, de São Paulo. O trio de substância já está sendo usado pelo SUS e ainda há outras combinações prestes a serem lançadas!

OLHO BIÔNICO
Enxergar com o auxílio de lentes não é novidade, inclusive as implantadas dentro do olho, a exemplo do que ocorre nos casos de catarata – quando uma lente artificial substitui o cristalino. A grande descoberta, porém, é a chamada prótese de retina – tecido do fundo do olho onde ficam os fotorreceptores, células responsáveis pela visão. “A prótese é implantada justamente nessa região, que leva à estimulação elétrica da retina para promover a percepção da visão”, explica Oswaldo Ferreira Moura Brasil, especialista em retina, do Instituto Brasileiro de Oftalmologia (IBOL), do Rio de Janeiro, e diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia. O paciente usa um par de óculos que tem uma pequena câmera acoplada e que envia dados para a prótese. Esta lê as informações a as transforma em imagens que serão visualizadas pelo paciente. Graças a esse processo, quem tem retinose pigmentar, um grupo de doenças hereditárias que causa perda visual, inclusive total, pode recuperar a visão em diferentes medidas. Estima-se que exista 1,2 milhão de pessoas com retinose pigmentar no mundo. A comercialização da prótese de retina foi liberada há poucos anos na América do Norte e em alguns países da Europa. “Por aqui, há profissionais que já estão treinados e aptos a realizar o implante, mas isso ainda depende do cumprimento das exigências das agências reguladoras do governo”, explica Moura.

 

Texto: Monica Kato | Ilustrações: Gabriel Rubio
Techmed