Crença de vida

 

O doutor Marcelo Saad raramente usa o termo “pacientes” quando conversa. Prefere “pessoas”. Parece um detalhe irrelevante, mas na verdade é algo que dialoga com suas convicções, entre elas a de que tratamentos médicos devem ser centrados na pessoa, e não na cura. Para tanto, ele acredita que a espiritualidade dos pacientes jamais pode ser desconsiderada.

Médico fisiatra e acupunturista, Saad é Doutor em Ciências da Reabilitação
pela UNIFESP-EPM, e foi Coordenador do Comitê sobre Espiritualidade-Religiosidade em Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein, onde ainda trabalha. Em entrevista exclusiva à One Health Mag, ele apresenta dados e pontos de vista sobre um tema que nunca cessa de gerar polêmica.

One Health | É possível definir a fé do ponto de vista médico?

Dr. Marcelo Saad | A gente tem definições para fé, espiritualidade, religião, crença… todos os termos que estão envolvidos com esses conceitos. O que mais se valoriza na saúde é a definição de espiritualidade, que pode ser vista como as formas que os indivíduos buscam significado e propósito e a maneira com que experimentam sua conectividade consigo mesmos, com os outros, a natureza e o sagrado. É uma ideia muito ampla e subjetiva, um bem-estar interior, diferente da religião. Acho importante diferenciar espiritualidade de religião porque antigamente os estudos eram feitos com base na frequência do indivíduo a cultos religiosos, para ver o impacto disso na saúde. Hoje não se usa mais esse tipo de ferramenta.

 

“A espiritualidade, quando existe no paciente, é algo benéfico no tratamento. Mas o médico não deve prescrever isso com o objetivo de melhorar a saúde”

 

 

One Health | Pessoas religiosas necessariamente têm uma espiritualidade bem desenvolvida?

Nem sempre. A gente pode encontrar uma pessoa que tem um bem-estar espiritual e que não está ligada a alguma religião formal, e uma pessoa que frequenta a religião e que não tem esse bem-estar interior.

One Health | Em seus textos, o senhor descreve a relação entre espiritualidade e saúde como “uma otimização das vias neurológicas que modulam a imunidade e os hormônios”. Isso não seria uma ação semelhante à do efeito placebo?

É um pouco diferente, mas há, sim, pontos em comum. A espiritualidade traz sentimentos positivos que geram harmonia no sistema nervoso – que comanda todas as funções do corpo, direta ou indiretamente, até mesmo a imunológica e a hormonal. Atualmente, há efeitos bem documentados da espiritualidade relacionada à saúde. Um exemplo é que existem dados que comprovam que as pessoas que têm um bem-estar espiritual adoecem com menos frequência; quando adoecem se recuperam mais rápido, tanto física quanto mentalmente; e, quando não se recuperam, desenvolvem menos depressão. Então, a espiritualidade tem vários impactos sobre a qualidade de vida.

One Health | É papel do médico estimular essa espiritualidade?

Sim, no sentido de respeitar e proporcionar o meio da pessoa atingir o que ela precisa. Isso é algo que, quando existe, é benéfico. Mas não se deve prescrever isso com o objetivo de melhorar a saúde.

One Health | Uma polêmica bastante antiga envolve religiões cujos dogmas podem interferir no tratamento. Como o médico deve agir quando a crença se torna um fator impeditivo?

Tanto profissionais quanto instituições de saúde devem estar preparados para casos em que os valores do paciente entram em conflito com seu tratamento. Nesses casos, é preciso ter equilíbrio. O médico deve se perguntar o quanto aquele tratamento é necessário, se pode ser adiado até que o paciente converse com um líder religioso, ou mesmo se pode ser suprimido – tudo à luz do que é melhor para a pessoa. Alguns profissionais de saúde acham que o melhor é a cura da doença, mas para algumas pessoas, esse não é o caso. Se isso atropelar a crença do indivíduo, por exemplo.

One Health | Onde entra a espiritualidade do médico nesses casos?

Tem dois extremos nocivos. O profissional que renega seus valores pessoais, deixando-os do lado de fora do consultório, é um individuo que faz um atendimento incompleto. O outro extremo é aquele que trouxer muito seus valores para as decisões clínicas. Ele pode acabar atrapalhando o processo. Porque em termos de suspensão de tratamentos, por exemplo, em um caso que não tem mais perspectiva de cura, os valores do médico podem acabar interferindo em decisões que são do paciente e da família.

One Health | O senhor está engajado nesta causa há muitos anos. O que o levou a isso?

Eu sempre tive uma curiosidade, uma busca pela verdade, qualquer que seja ela. Então passei a pesquisar a verdade que existe nas religiões, o quanto isso interfere na saúde e o quanto isso poderia ser inserido no paradigma médico de tratamento. Para minha surpresa, fui encontrando cada vez mais material a  respeito, mais profissionais que se dedicam a isso, e institutos para a pesquisa desse assunto, o que foi bastante motivador.

One Health | Alguns neurocientistas exploram a hipótese de que a propensão à crença espiritual tenha raízes na fisiologia do cérebro. Existe algo conclusivo neste sentido?

Nós evoluímos a partir de ancestrais que sobreviveram graças a crenças em coisas sobrenaturais ou na busca de padrões na natureza. Esses nossos  ancestrais tinham mais possibilidade de sobrevivência e mais recursos. Normalmente, o ser humano tem essa predisposição a acreditar. É uma herança genética. Mas há outras pesquisas que apontam que as alterações neurológicas em estados alterados de consciência, que incluem desde a hipnose e a meditação até o transe por uma prece repetitiva, trazem repercussões bastante positivas para a saúde.

One Health | O que o senhor diria aos médicos que ainda têm receio de considerar a espiritualidade no trato do paciente?

Os trabalhos científicos são o argumento mais forte. O que está impedindo esses profissionais de enxergarem essa realidade são o desconhecimento e o preconceito – duas coisas que minam a evolução completa do profissional em termos de conhecimento. Muitos realmente desconhecem, porque não tiveram na faculdade ou porque dentro de suas especialidades isso é pouquíssimo discutido. Em outros casos, é realmente por preconceito, uma atitude de onipotência que nega qualquer novo paradigma.

por Leonardo Vinhas - fotos: Luiz Maximiano
Entrevista