Cores e formas que conquistaram o planeta

O trabalho árduo e disciplinado da artista plástica Beatriz Milhazes, e, claro, seu raro talento, levou-a a feitos extraordinários, como integrar acervos de prestigiosos museus internacionais e vender quadros por cifras milionárias. Agora, ela prepara novas obras que chegarão a Nova York, Londres e Inujima, no Japão, em 2018

A obra Floresta Virgem em Lilás e Azul

A obra Floresta Virgem em Lilás e Azul

Quanto mais se admira uma obra de Beatriz Milhazes, mais detalhes se descobrem e mais beleza invade os olhos de quem vivencia uma mostra da artista plástica carioca. Essa sensação acontece porque formas geométricas, flores, arabescos e mandalas, geralmente retratadas em cores quentes e fortes, são sobrepostos em diversas camadas. Daí, a inescapável captura do olhar do espectador: quanto mais se contempla o trabalho, novas e belas surpresas surgem.

Beatriz Milhazes está entre os artistas brasileiros mais prestigiados no mercado internacional. Em 2012, a tela Meu Limão foi vendida por 2,1 milhões de dólares num leilão da Sotheby’s, em Nova York. Revelada na chamada geração 80 – grupo de artistas que busca retomar a pintura e tem por característica a pesquisa de novas técnicas e materiais –, ela se notabilizou, sobretudo, por combinar com criatividade influências contrastantes como o barroco e a arte moderna brasileira, até atingir o seu estilo pessoal. “Há um grupo de artistas que tem sido referência para mim: Tarsila do Amaral, Henri Matisse, Mondrian, o carnavalesco Fernando Pinto, arte tribal aborígene, Christian Lacroix, Bridget Riley, Sonia Delaunay, Ione Saldanha. Os modernistas brasileiros e europeus me interessam sempre”, conta Beatriz.

A alegria de suas flores e traços – expressados tanto em pinturas como em gravuras e esculturas – conquistou o Brasil e ganhou o mundo. Mas para chegar aonde está houve muita “transpiração”. “Não acredito em inspiração”, afirma, categórica. “É necessário que haja motivação para o trabalho e isso é decorrência de muita disciplina. O interesse deve estar sempre centrado no próprio trabalho”, acrescenta. No momento, a artista prepara obras para uma exposição na White Cube Galery, em Londres, murais para o Hospital Presbiteriano de Nova York e uma instalação em Inujima, no Japão. Nesta entrevista para a revista One Health, Beatriz Milhazes fala sobre a sua atual fase e expõe um pouco do que está por trás da sua arte extraordinária, que integra acervos de museus em todo o mundo, como o Museum of Modern Art (MoMa), o Solomon R. Guggenheim Museum e The Metropolitan Musem of Art (Met), todos em Nova York, o Museo Reina Sofia, em Madri, entre outros.

A obra Floresta Virgem em Lilás e Azul

A obra Floresta Virgem em Lilás e Azul

One Health O que significa ser um dos artistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente?
Beatriz Milhazes É uma sensação muito gratificante poder mostrar as minhas obras e participar de projetos nos mais importantes museus, instituições, galerias de arte do Brasil e do mundo. Minha vida é muito centrada no meu trabalho. E ter o reconhecimento da minha obra é sempre um grande estímulo, para o muito que ainda tenho a fazer no futuro.

Fale um pouco sobre os trabalhos que está desenvolvendo para as instituições internacionais.
A mostra na White Cube Gallery terá um formato de museu, porém, com obras, na sua maioria, inéditas. O generoso espaço da galeria será redesenhado para receber a minha exposição. Serão apresentadas pinturas em enorme formato, colagens, as recentes esculturas e, finalmente, duas surpresas – que prefiro manter como tal. Os projetos para espaços arquitetônicos têm sido um fascinante desafio. Todos eles devem estar em diálogo constante com o espaço idealizado pelo arquiteto, os habitantes daquele local e também a minha obra.
Já o projeto na ilha de Inujima (Naoshima) é um trabalho em colaboração com os arquitetos japoneses do grupo SANNA. Já existe um prédio construído, porém, para habitar um projeto artístico. O público poderá visitá-lo, mas é um prédio-instalação. Será um diálogo delicado e poético e meu terceiro projeto com esses arquitetos. O convite veio da curadora Yuko Hasegawa.

E o projeto dos murais para o prédio do Hospital Presbiteriano de Nova York?
O murais permanentes serão realmente extraordinários! Foi um longo processo que se iniciou em 2015, e finalmente aprovado no fim de 2016. Será uma pintura de 130 m² para o lobby do hospital e um painel de cerâmica (mosaico em cortes baseados no meu desenho), na entrada lateral de carros, para seguirem para o estacionamento. Este terá 4,50 m de altura por 43 m de comprimento. Os dois murais se comunicam através da arquitetura do prédio. Ambos estão sendo executados em Nova York e Guadalajara, no México.

Beatriz está entre os artistas brasileiros mais prestigiados internacionalmente.

Beatriz está entre os artistas brasileiros mais prestigiados internacionalmente.

Como você se divide para executar os projetos em espaços públicos?
Cada um deles tem um método diferente para execução e produção, mas com um ponto em comum: o desenho sobre a planta de arquitetura. O ponto de partida é me debruçar sobre a planta da área planejada para o projeto e, então, desenvolver o desenho de acordo com os conceitos já pré-desenvolvidos. A partir da aprovação, inicia-se a discussão sobre as possibilidades de material, técnica para produção e acompanhamento da mesma. Em alguns casos, o material já foi decidido antes mesmo que eu fizesse o desenho. Por exemplo, recorte de vinil adesivo sobre vidro ou parede – material que já utilizei diversas vezes para projetos temporários.

Qual é a sensação de receber esses convites de trabalho?
A oportunidade de levar a minha arte para o ambiente que faz parte da vida cotidiana das pessoas é muito especial. Obras para espaço público têm esse potencial, que me interessa muito! Todos esses três projetos serão inaugurados em 2018. Mas ainda em 2017 a editora alemã Taschen lança um livro monográfico sobre a minha obra de 1981–2016.

Seu ateliê fica em sua casa?
Nunca trabalhei em casa. Sempre mantive meu ateliê em outro espaço geográfico. Atualmente, separo também os assuntos. Tenho uma casa onde funciona meu ateliê de pintura e desenvolvo meus projetos; tenho uma outra onde está o ateliê de colagem e toda a parte de arquivo e administração. Sou uma artista de ateliê. Para mim, é fundamental que esse espaço exista como a minha casa – mesmo que não more lá –, e esteja perto da natureza. Meu ateliê demonstra a minha pessoa. Ele é habitado e muito utilizado por mim. Guarda o meu espírito!

Flores e formas geométricas estão presentes nas cenografias

Flores e formas geométricas estão presentes nas cenografias

Como é o seu processo de criação?
Sou muito disciplinada e adoro rotina! Tenho horários estabelecidos para a minha rotina diária e um planejamento mensal e anual, por conta dos projetos e viagens. O período da tarde é meu horário artístico, de criação. Eu gosto de ordem, pois ela me faz relaxar.
Você costuma pedir a opinião de alguém durante o processo de criação?
Gosto muito de trocar ideias com as pessoas que visitam meu ateliê. São em geral pessoas que participam da minha vida e acompanham todo o processo de criação, mesmo que informalmente. Mas também acho extremamente importante a troca com diferentes críticos e curadores. O meu processo de criação é sempre muito solitário. Justamente por isso é fundamental escutar e dialogar bastante com o mundo externo sobre a obra.

Qual é a sua relação com a crítica?
É saudável. Acho importante que exista crítica. Sinceramente, nunca recebi uma opinião negativa. Já tive interpretação equivocada sobre minha obra. Ao contrário, tenho tido grandes apoiadores, tanto no Brasil quanto no exterior. Meu maior crítico sou eu mesma – sempre exijo muito de mim.

E a sua relação com o público?
O artista plástico se comunica de maneira indireta com o público, pois, na verdade, é a obra que existe, e não o artista. Contudo, me entusiasma muito entender que a minha obra tem a capacidade de dialogar e se comunicar com as pessoas em geral, sem escolhas sociais, culturais ou geográficas. Gosto muito disso!

Uma das peças da exposição Marola, Mariola  e Marilola.

Uma das peças da exposição Marola, Mariola e Marilola.

O que é arte para você?
É um território do pensamento que está associado à sensibilidade e à inteligência visual. A arte tem o poder de transformar as pessoas e deve ser sempre um território de livre expressão.

Lembra do seu primeiro contato com a arte?
Minha mãe foi professora de História da Arte, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), e meu pai, advogado; mas ambos muito interessados em cultura. Eu e minha irmã crescemos frequentando museus, cinema, shows musicais – a cultura sempre foi importante para nós.

O artista plástico se comunica de maneira indireta com o público, pois, na verdade, é a obra que existe, e não o artista

 

Como e quando descobriu que queria fazer arte?
Foi quando estava no segundo ano da faculdade de Comunicação Social – Jornalismo. Desencantei-me com esse curso e minha mãe sugeriu que eu fizesse um curso de verão na EAV-Parque Lage, no Rio de Janeiro. A partir desse momento, não tive mais dúvidas de que ali estava o assunto que queria desenvolver para minha vida. Formei-me em jornalismo, mas nunca exerci a profissão.

Quais foram as maiores dificuldades no início da sua carreira?
A minha geração iniciou a carreira em meio à euforia do fim da ditadura militar. Recordo, contudo, que, em 1986, essa euforia começou a desaparecer, e a dura realidade, de sobreviver no Brasil como artista, bateu à porta. Eu estava com 26 anos. E, para mim, ficou claro que teria que preservar meu trabalho dessa questão da sobrevivência.

A partir da sua expertise como professora de arte – ela lecionou pintura até 1996 no Parque Lage –, como podemos colocar a arte em nosso dia a dia para torná-lo mais prazeroso e divertido?
Ser criativo, trabalhar no seu dia a dia sua sensibilidade, curiosidade, poesia e otimismo. Assim, você estará introduzindo a arte nas suas tarefas cotidianas. A arte é reflexão. É também sofrimento, tristeza, dor e alegria. Ou seja, na rotina diária das pessoas, ela pode funcionar como um processo transformador. Não deixem de visitar os museus, instituições e galerias de arte. Estão abertos a todos! E o público é sempre bem-vindo!

Guanabara é a obra que decorou o restaurante da Tate Gallery, em Londres

Guanabara é a obra que decorou o restaurante da Tate Gallery, em Londres

Qual é o seu propósito? Hoje, é diferente de quando você iniciou a carreira de artista?
Minha vida mudou muito com a expansão de minha carreira internacionalmente. E tive que reajustar a minha rotina diária no Rio, de acordo com as mostras e projetos. O que nunca mudou, e sempre norteia minhas decisões, é a preservação da minha relação com o trabalho. Quando o artista perde isso, perde tudo.

Na rotina das pessoas, a arte pode funcionar como um processo transformador. Não deixem de visitar os museus, instituições e galerias de arte

 

Quais são seus maiores desafios?
Com a passagem do tempo, percebemos que o grande desafio é manter a qualidade e motivação pela sua vida pessoal e profissional. Cuidar da mente e do corpo e nunca deixar de se interessar por novos aprendizados. A vida é bela e vale a pena!

Texto: Flávia Benvenga | Imagens: Jason Mandella/James Cohan Gallery; Getty Images; Charles Duprat/Galerie Max Hetzler/Eduardo Ortega / Marcus Leith e Andrew Dunkley
Entrevista