Coração com backup

 

TechmedA bioengenharia brasileira está prestes a adentrar uma etapa significativa de sua história: criar sobrevida. Em dois meses, o Instituto Dante Pazzanese, de São Paulo, começará a testar um coração artificial em dez pacientes com insuficiência cardíaca aguda ou descompensada. A ideia é prorrogar a vida de quem espera por um transplante.

O equipamento, chamado de coração artificial auxiliar (CAA), é o primeiro do tipo de fabricação 100% brasileira. Além do estímulo à indústria e à pesquisa nacional, isso representa também um barateamento dos custos. Enquanto equipamento semelhante pode custar até US$ 300 mil fora do país, produzido aqui o coração artificial sai entre R$ 60 mil e R$ 100 mil. Com o custo menor, a expectativa é que o aparelho seja adquirido e indicado pelo SUS (Sistema Único de Saúde) aos pacientes da rede pública.

O coração artificial funciona como um HD externo de computador: não substitui o coração, mas ajuda a bombear sangue para o corpo e mantém o órgão funcionando. O equipamento é acoplado pouco abaixo do original, que não é removido. Com isso, não há risco de rejeição – pode haver coagulação do sangue dentro do aparelho, controlável com medicação anticoagulante aplicada diariamente.

A vantagem de não se remover o coração é ter um melhor controle da frequência cardíaca e pressão arterial do paciente. Outra vantagem é que a cirurgia de colocação do equipamento é mais simples, e a recuperação, mais fácil. Não há limite de tempo para o paciente ficar com o suporte. A bateria do aparelho, que fica na cintura do paciente, fornece energia por duas horas. Depois desse período, é possível carregá-la em uma tomada comum.

Desenvolvido de forma quase artesanal em um laboratório do Dante Pazzanese, o projeto teve apoio do Ministério da Saúde, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), do Hospital do Coração (HCor) e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

 

1 – Coração artificial – Ele é instalado na caixa toráxica, logo abaixo do coração

2 – Controle – Também do lado de fora fica a central de comando do aparelho

3 – Bateria – O coração funciona com a energia de uma bateria, que fica do lado de fora do corpo

4 – Recarga – A bateria tem capacidade de abastecer o coração por até duas horas. Depois, pode ser recarregada na tomada

5 – Dois tipos – O modelo univentricular é indicado para quem apresenta mau funcionamento em apenas um ventrículo. O biventricular, para quem tem problemas em ambos

6 – Modelo Biventricular

 

Prova dos dez

 

O aval para o teste em humanos do “backup cardíaco” foi dado pelo Conep (Conselho Nacional de Ética em Pesquisa) e pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em abril deste ano. Para chegar até aqui, demorou-se uma década, período no qual 35 bezerros foram submetidos a testes do coração artificial. Na atual etapa do projeto, o aparelho será testado em cinco pacientes humanos, com quadro de insuficiência cardíaca avançada. Esta etapa pode levar cerca de dois meses, para a cirurgia e o posterior monitoramento do funcionamento do aparelho.

Se os resultados forem satisfatórios, mais cinco pacientes passarão pela mesma bateria de testes; caso estes também sejam bem sucedidos, está liberado o uso para os demais pacientes. Nesta fase de testes, os pacientes ficarão no hospital até o transplante de coração, e mais algum tempo após conseguirem um doador, para monitoramento. Mais adiante, a ideia é que eles possam deixar o hospital com o coração artificial enquanto esperam um doador.

 

Processo seletivo

 

Todos os pacientes vêm da fila de transplantes de coração da rede pública estadual paulista. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV) diz que não há dados absolutos sobre a fila, por causa de sua rápida diminuição: a maioria dos pacientes morre à espera de um doador. O médico-chefe dos Transplantes do Dante, Jarbas Divonkhuysem, estima que mais de 55% dos pacientes morrem na fila de espera todo ano. Com o coração artificial, a expectativa é de salvar 80% deles.

Os pacientes serão operados no Dante e no HCor. Mesmo em fase de testes, o aparelho tem contraindicações: não serão escolhidas pessoas com mais de 65 anos ou menos de 40 quilos. Os pacientes que receberão o coração artificial têm em comum a rejeição a medicamentos tradicionais, além de serem considerados em condições clínicas e psicossociais estáveis pelos profissionais envolvidos no projeto.

 

Pioneirismo e contexto

 

Para Walter Gomes, o presidente da SBCCV, o coração artificial “é um avanço importante por priorizar a indústria nacional e pelo seu baixo custo, o que facilita sua implementação na rede pública de saúde”.

Juntamente com o coração artificial, a inovação mais importante dos últimos tempos foi o implante de válvula aórtica transcatéter, feito diretamente pela aorta. Implementados no Brasil há cerca de um ano e meio, os procedimentos são minimamente invasivos e podem ampliar a sobrevida dos pacientes operados, conforme ensaios clínicos recentes.

Outra inovação que precede a válvula foi a realização de cirurgias de revascularização miocárdica sem a máquina coração pulmão-artificial – conhecida como revascularização sem bomba, ou revascularização sem o coração batendo. Também este procedimento é considerado uma forma de aumentar a segurança do tratamento e de se obter melhores resultados (isto é, menos mortalidade) a longo prazo.

por Caio Brif infográfico Nilson Cardoso
Techmed