Cérebro a salvo

 
Em quase toda partida de futebol americano alguém sai machucado, se tromba, cai, dá uma cabeçada, e isso acontece com todo esporte de contato. Mas o que não se percebe na hora é que lesões aparentemente leves na cabeça são um verdadeiro problema de saúde pública. A longo prazo, elas podem causar perda de memória, confusão mental, depressão, distúrbios de comportamento e personalidade, tremores, tendências suicidas e demências como Mal de Alzheimer. E não só atletas são vulneráveis a esse quadro: vítimas de acidentes de carro e militares ou trabalhadores expostos a explosões também.

O problema é grave e atinge um grande número de pessoas. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) estima que o número de casos de danos cerebrais relacionados a práticas esportivas por ano seja de 1.6 milhão a 3.8 milhões. Além disso, jogadores aposentados com histórico de três ou mais lesões cerebrais ao longo da carreira, têm três vezes mais chances de desenvolver depressão e cinco de serem diagnosticados com Comprometimento Cognitivo Leve – uma condição de risco para demência. Mesmo assim, nunca existiu um método para diagnosticar o Traumatismo Craneoencefálico (TCE), quadro degenerativo associado a repetidas lesões.

No passado, casos de TCE eram descobertos apenas durante autópsias. Foi só agora, em 2013, que pesquisadores da Universidade da Califórnia (UCLA) desenvolveram uma nova tecnologia para detectar sinais do traumatismo no cérebro e prevenir o desenvolvimento dos sintomas.

Segredo é substância exclusiva

Os cientistas criaram um marcador químico chamado FDDNP – um composto formado por flúor, fluoroetilo, metil-amino, naftilo, etilideno e malononitrilo – , que se liga a depósitos de proteína tau, uma substância associada ao TCE. Após injetar o marcador na corrente sanguínea dos voluntários do estudo, foi usado um aparelho de PET Scan (tomografia por emissão de pósitrons), e feita uma captura de imagens do cérebro de cada um.

O teste teve como amostra cinco ex-jogadores de futebol com histórico de perdas cognitivas e sintomas depressivos, e homens saudáveis na mesma faixa etária. O resultado foi uma concentração de altos níveis de FDDNP nas amídalas e regiões subcorticais do cérebro dos ex-jogadores, como o hipotálamo e o tálamo, que são justamente as que controlam aprendizado, memória e emoções.

“ O diagnóstico precoce das proteínas tau pode nos ajudar a entender o que está acontecendo com antecedência nos cérebros desses atletas feridos”

De acordo com o estudo, a varredura revelou que o FDDNP estava concentrado nos mesmos locais em que se encontrava a proteína tau nas autópsias de pacientes com TCE. A pesquisa afirma que a descoberta do marcador é crítica para o rastreamento de doenças neurodegenerativas, uma vez que o acúmulo da proteína pode levar a perda de neurônios.

“O diagnóstico precoce das proteínas tau pode nos ajudar a entender o que está acontecendo com antecedência nos cérebros desses atletas feridos”, diz o autor da pesquisa Gary Small, diretor do Centro de Longevidade da UCLA. “Nossas descobertas também podem nos ajudar a desenvolver estratégias e intervenções para proteger aqueles com sintomas iniciais, e não apenas tentar reparar o dano que já foi feito.”

Imagem mostra o acúmulo de proteína que causa problemas como o Traumatismo Craneoencefálico (TCE)

Até o momento, o FDDNP foi a única substância capaz de diagnosticar o acúmulo de proteínas tau e pode ser a resposta para um problema que, segundo dados do próprio Small, custou US$ 77 bilhões aos Estados Unidos em 2000. No entanto, os pesquisadores reforçam que este é um estudo preliminar e, devido ao pequeno número de voluntários, é preciso ser cauteloso com as interpretações.

Atualmente, a equipe da UCLA está na segunda fase da pesquisa que deve ser concluída ainda este ano. A assessoria de imprensa da universidade afirmou que, dado o estágio do estudo, ainda é difícil prever quando o novo método estará disponível em hospitais com acesso à população.

por Luiza Furquim
Techmed