Ascensão dos drones médicos

Em meio a um mundo de possibilidades, as pequenas aeronaves despontam na área médica. Estima-se que a tecnologia permitirá uma resposta mais ágil no campo emergencial, além de facilitar a prestação de cuidados de saúde em regiões subdesenvolvidas.

Os drones estão cada vez mais populares. Controladas à distância por meio de computadores ou sob a supervisão de humanos, as aeronaves que foram inicialmente idealizadas para fins militares ganharam aplicações nas mais diversas áreas. Muito além da conhecida utilização como equipamento audiovisual, os drones tornaram-se uma ferramenta potencial de cuidados médicos ao oferecer assistência em lugares de difícil acesso sem precisar enfrentar contratempos no tráfego.

No campo de emergência médica, onde a resposta imediata é um fator chave para sobrevivência, este tipo de transporte pode salvar vidas. A gigante da tecnologia Google, com um portfólio médico significativo, patenteou um dispositivo aéreo não tripulado para levar materiais médicos em situações do gênero. O sistema traria assistência médica com suprimentos e equipamento com instruções. Uma vez que o drone é solicitado, o suporte médico mais próximo é alertado para garantir que uma ambulância se direcione ao local.

Um estudo recente publicado no jornal médico American Journal of Clinical Pathology mostrou os resultados de um experimento que utilizou um drone para atravessar o deserto do Arizona transportando sangue. Os pesquisadores adicionaram um refrigerador no dispositivo para evitar que o sangue ficasse quente com a alta temperatura do local, mantendo-o a cerca de 15 graus abaixo da temperatura exterior. Após três horas de voo, o sangue chegou em perfeitas condições para o procedimento de transfusão.

O ensaio reforçou a importância dos drones como transporte de auxílio médico, aplicação previamente testada por empresas como a americana Zipline, que utiliza drones para fornecer sangue e aparatos de emergência em Ruanda e, em breve, na Tanzânia. O projeto de Zipline começou em outubro de 2016 e já entregou mais de 2.600 unidades de sangue. Os profissionais de saúde locais podem usar a instituição para receber encomendas de medicamentos sob demanda, e os suprimentos chegam em média dentro de 30 minutos.

Em uma fração de tempo, com menos custo e energia do que qualquer outro método de transporte atual, os drones também são úteis para amenizar os danos causados por desastres naturais. A empresa americana Matternet, além de atender áreas rurais com deficiência de acesso médico, utiliza seus drones para enviar medicamento, comida e outros materiais necessários para amparar vítimas de fenômenos naturais, como terremotos, tsunamis e furacões.

O tornado que atingiu a cidade america Hattiesburg, em 2013, inspirou o especialista em medicina da William Carey University, Italo Subbarao, a desenvolver um dispositivo aéreo integrado com outra tecnologia. Ao combinar drones e telemedicina, o protótipo é equipado com ferramentas audiovisuais, sensores e suprimentos médicos para que a condição de um paciente possa ser avaliada à distância. O projeto de Subbarao é uma tentativa de levar atendimento médico para sobreviventes de desastres que precisam de socorro imediato.

Embora promissoras, muitas dessas possibilidades precisam de regulamentação para que o drone possa atingir todo o seu potencial na área da saúde. Entre algumas regras preliminares, a aeronave não pode transportar qualquer tipo de material temerário, para não colocar em perigo a vida de pessoas em caso de queda. Os drones para fins medicinais ainda serão regularizados por medidas como identificar rotas para evitar acidentes e atribuir pilotos com licenças regulamentadas. No Brasil, os drones já são regulamentados para pequenos voos e o Corpo de Bombeiros os utiliza como reforço em casos de incêndio e afogamento em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.

Mesmo em processo experimental, os resultados promissores demonstram que a assistência médica realizada por drones pode ser parte de um futuro breve. O sucesso na utilização desses veículos para levar socorro de forma rápida e segura leva a crer que os drones poderão eliminar algumas deficiências médicas em diferentes partes do mundo, além de colaborar para promover maior assistência à saúde, especialmente em regiões de vulnerabilidade de recursos.

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APLICAÇÕES EMERGENTES


PRIMEIROS SOCORROS

De acordo com especialistas, a cada minuto passado sem os primeiros socorros necessários, diminuem em 10% as chances de sobrevivência de um paciente com ataque cardíaco. Em vista disso, o projeto Smart Aid desenvolveu um protótipo que tem como objetivo transportar suprimentos completos de primeiros socorros, incluindo um desfibrilador. A ideia é que a aeronave seja controlada por um paramédico, que irá instruir e avaliar o paciente até a chegada da equipe médica. Este tipo de drone foi projetado para chegar em lugares de difícil acesso, onde o socorro médico pode demorar mais tempo, permitindo que o paciente tenha cuidados preliminares rapidamente.


ENTREGA DE VACINAS

O projeto humanitário Drones For Good está testando a capacidade, a eficiência e a eficácia de drones para entregar vacinas a comunidades remotas em Vanuatu, um arquipélago de 83 ilhas espalhadas sobre 1.600 km, 65 das quais são habitadas. A complexidade de acesso até as comunidades torna a vacinação uma tarefa difícil, levando a uma alta taxa de mortalidade. Por meio de uma parceria do Governo de Vanuatu e da Unicef, a entrega da vacinação via drone será testada sob as condições locais para levar a medicação para as pequenas aldeias com precisão e segurança.

ÓRGÃOS PARA TRANSPLANTE
As empresas de tecnologia EHang e Lung Biotecnologia PBC uniram suas forças para desenvolver 1.000 unidades de um drone autônomo projetado para automatizar o fornecimento de órgãos sintéticos para transplante. As duas empresas irão trabalhar ao longo dos próximos 15 anos para otimizar o protótipo atual e utilizá-lo em um novo sistema de entrega de órgãos, que ganhou o nome Manufactured Organ Transport Helicopter, ou Helicóptero de Transporte de Órgãos Fabricados, em tradução livre. A colaboração tem o potencial de revolucionar a produção e a entrega de órgãos.

SORO ANTIVENENO
A ONG WeRobotics visa implementar drones para levar cuidado emergencial para picada de cobras na Floresta Amazônica. O acesso aos soros é um problema frequente e impetuoso nessa área: os médicos locais relatam uma média de 45 picadas de cobra por mês. Mediante uma parceria com o Ministério da
Saúde e a equipe médica da região, os testes de campo estão sendo conduzidos para entregar o antiveneno a uma comunidade remota da Amazônia, na região de Contamana, no Peru.

 

 

O projeto de Zipline começou em outubro de 2016 e já entregou mais de 2.600 unidades de sangue

 

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Ambulância ou drone?
Uma equipe de pesquisadores na Suécia testou se um drone de fato possui um tempo de resposta mais rápido que uma ambulância na hora de socorrer um paciente em parada cardíaca. Sem a equipe de emergência, o drone conta com uma voz eletrônica que orienta o usuário sobre como utilizar o desfibrilador adequadamente ao chegar ao seu destino. Foram realizados 18 voos consecutivos com o drone em uma distância média de 3,2 quilômetros. Comparando o tempo de expedição e execução entre os dois, os pesquisadores constataram que o drone foi mais rápido do que a ambulância em todos os casos, obtendo uma redução média de 16 minutos no tempo de resposta. Durante o estudo, publicado pelo jornal médico JAMA, não houve quaisquer eventos adversos ou problemas técnicos.

 

Texto: Envisioning Technology | Imagens: WeRobotics/Thinkstock
Futuro da medicina