Além do que se vê

 
Ver o bebê, ainda na barriga, em imagens impressionantemente nítidas aparecendo nas telas, já é uma prática conhecida nos consultórios obstétricos dos grandes centros urbanos. O que talvez ainda muitos não saibam é que também é possível tocar no bebê e até guardar como recordação um molde dele, em formato real.

Foi exatamente em busca de uma “visão” mais ampliada para estudos do feto, que o Dr. Heron Werner, membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR) e médico assistente estrangeiro da Universidade de Paris V, começou a utilizar as informações disponibilizadas pelas tecnologias de imagem em 3D para dar forma aos fetos que, até então, só podiam ser vistos pela tela. Uma novidade que pode ser muito útil para a medicina, mas também uma experiência inédita para futuros pais.

Tecnologias avançadas, como uma forma de estender as percepções humanas, já podem ser encontradas nas mais diversas áreas de pesquisa e estudo do ser humano. Conhecer o bebê desde sua vida uterina, identificar malformações ou diagnosticar doenças precocemente pode ganhar novos contornos através da impressão de uma réplica fiel ao feto, ou de um passeio virtual por dentro do útero.

A ideia para o uso dessa técnica começou em 2005, depois de uma parceria do Centro de Diagnósticos por Imagem (CDPI) com o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O grupo estudava sarcófagos sem abri-los, com as informações coletadas através de tomografias, ressonâncias magnéticas, ultrassonagrafias e da impressão em 3D.

Ao aplicar esses mesmos princípios para a investigação da vida uterina, Dr. Heron e a equipe de médicos e designers do Instituto Nacional de Tecnologia (INT) conseguiram, de forma pioneira, utilizar os parâmetros numéricos de medição digital, fornecidos pela captação da imagem em 3D, em programas de edição específicos, capazes de refinar as imagens, retirando toda a informação excedente, como cordão umbilical, ou a parede do útero.

A produção de um molde do bebê é geralmente feita com resina ou um material parecido com o gesso. Dependendo das possibilidades de investimento e do desejo dos pais, o molde pode ser feito com materiais mais duráveis, como a prata, por exemplo.

O custo para realizar a impressão em 3D pode passar de mil reais – segundo o criador da técnica, talvez um dos principais motivos para que a procura pelo procedimento ainda seja pequena. Para as grávidas vindas do centro de estudos para deficientes visuais, o Instituto Benjamin Constant (RJ), no entanto, foi instituída uma parceria que permite às pacientes encaminhadas, a utilização gratuita do procedimento. Para o médico, pacientes com deficiência visual são, de fato, os principais beneficiados emocionalmente pelas possibilidades oferecidas pelo tato no exame ecográfico.

Ao falar sobre o contato desses pais com o molde produzido através da impressora 3D, o médico demonstra um lado mais humano do que científico. “O grande uso do modelo físico em 3D ficou para as gestantes deficientes visuais. Este momento é sem dúvida muito emocionante e muito gratificante para nós que desenvolvemos este projeto. É como se a gestante materializasse a presença de seu filho de uma forma muito parecida com o efeito da visão das gestantes sem deficiência visual, ao verem seu filho no monitor da ultrassonografia”, diz.

por Juana Diniz | fotos Luciano Munhoz
Techmed