A salvo

 

Antônio escorregou no banheiro. Maria se desequilibrou no corredor da sua residência. José sentiu uma tontura no mercado ao lado de casa. Essas situações corriqueiras podem ser muito perigosas para os idosos. As quedas são uma das principais causas de morte na terceira idade, e um desequilíbrio é capaz de causar sérios danos à vida da população com mais de 60 anos. Além das questões físicas, as quedas podem causar distúrbios emocionais, funcionais e a morte.

Com o aumento da expectativa de vida da população, a faixa de pessoas acima de 75 anos dobrou entre 1950 e 2000, e até 2030 a expectativa é que dobre novamente, chegando a 300 milhões de pessoas acima de 75 anos. De acordo com pesquisas, aproximadamente 30% das pessoas com mais de 65 anos caem uma vez por ano. Como evitar as quedas ou diminuir seus prejuízos? O mestre Jocélio Barbosa Ventura e o doutor Leonardo Juan Ramírez López, especialistas em Engenharia Biomédica, desenvolveram um sistema multicanal para ajudar na detecção da queda do idoso.

Um aparelho é acoplado a um cinto e colocado à altura da cintura do idoso. Caso uma alteração de queda seja notada pelo dispositivo, o cuidador ou a família recebe um aviso através de uma mensagem no celular. Sobre a autonomia trazida pelo dispositivo, Jocélio, um dos criadores do sistema, pondera: “O sistema tende a proporcionar uma maior autonomia aos cuidadores, que poderão realizar algumas atividades com mais tranquilidade por não precisarem estar todo o tempo ou frequentemente ao lado do idoso. Para este, a autonomia não depende exclusivamente do dispositivo, pois ele pode realizar qualquer atividade que lhe convier, depende apenas da sua vontade e o quanto o mesmo se sente seguro para realizá-la”.

Fernanda Montenegro, de 84 anos e uma das atrizes mais importantes do país, se posicionou sobre a maneira como o Brasil lida com seus idosos, durante entrevista ao Fantástico, da Rede Globo. “O Brasil não sabe onde colocá-los. E nós temos uma cultura que a família tem que herdar o velho. E também o velho não tem uma assistência social que possa torná-lo realmente independente. Não é como na Suécia, não é como na Noruega, na Dinamarca, países onde eu já estive. Lá, os velhos são amparados, muito bem amparados pelo sistema de atendimento do país”, afirmou durante.

Jocélio destaca a importância da prevenção a quedas e aponta a intervenção no nível primário como uma ferramenta que pode diminuir a morbidade e a mortalidade. As lesões acidentais provenientes de quedas é a sexta maior causa de morte entre idosos de 75 anos ou mais, sendo responsável por 70% dos óbitos nessa faixa etária. Já o risco de morte registrado durante um ano variou entre 15 e 50%. No Brasil, entre 1984 e 1994, a participação das quedas na mortalidade cresceu de 3 para 4,5%.

O médico e coordenador dos professores da Faculdade de Medicina da Universidade Estácio de Sá, Alberto Falabella, acredita que “a grande vantagem do produto seria a de acionar alguém que pudesse ajudar o idoso. O dispositivo não impediria a queda, mas a detectaria mais rapidamente. Nessa proposta, acho que o produto atenderia a essa expectativa”, afirma. A enfermeira e cuidadora Noelia Dantas tem uma opinião semelhante à do médico. Para ela, o dispositivo auxiliaria nos cuidados aos idosos, já que toda alteração seria rapidamente remetida ao cuidador ou à família, processo que ajudaria em um rápido e preciso socorro, evitando, assim, complicações.

O dispositivo é uma importante ferramenta para reduzir o alarmante e preocupante número de mortes ocasionadas por fraturas acidentais, mas é apenas uma das medidas que podem ser utilizadas pelos cuidadores e familiares de idosos. Outras incluem a preservação da segurança do ambiente onde a pessoa transita e vive, o estilo de vida (alimentação balanceada e exercícios), além de uma avaliação global e periódica da saúde do idoso.

Jocélio revela que ainda existe muito trabalho a fazer para reduzir o tamanho do dispositivo e o custo para o mercado, porém, o dispositivo comercial já tem previsão de teste para maio deste ano. “A ideia é deixar o valor acessível à população. Para tanto, deve-se ter um trabalho junto aos órgãos públicos no intuito de disponibilizar dispositivos para acompanhamento por período determinado, de modo a criar registros para melhor entender as rotinas diárias de cada indivíduo e propor ações que estimulem a prevenção que notoriamente é a melhor opção frente às ações corretivas”, afirma. Sobre os valores, “o protótipo demorou 10 meses para ficar pronto e custou R$ 1.300. A ideia é que comercialmente fique por R$ 380 se conseguirmos trabalhar com outro processador. Se não for possível, sairá por cerca de R$ 650”, complementa.

por Suellen Santana
Techmed