A evolução da memória

 

O mundo mudou, mas a sua memória nem tanto. Esta é a grande verdade por trás dos lapsos cada vez mais comuns entre as pessoas, principalmente as mais jovens. Para a dra. Sílvia Bolognani, neuropsicóloga da Universidade Federal de São Paulo, esses lapsos são refl exos do tanto de coisas que tentamos absorver – muito mais do que a gente precisa e consegue. “Criamos a necessidade de gerenciar várias coisas ao mesmo tempo, e a habilidade de gerenciar compete com a habilidade de memorizar”, ela diz.

CuidadosA pressão para que sejamos ainda mais “multitarefa” ajuda a sobrecarregar o nosso cérebro. Essas falhas de memória são extremamente frustrantes, porque a impressão que se tem ao olhar para o vizinho é de que ele dá

conta e você não. Mas a verdade é que ninguém dá conta e, por isso, vivemos todos muito mais estressados e ansiosos. “Querer absorver tudo causa estresse, sobrecarga. Não é a informação em si, mas a cobrança de achar que precisamos saber daquilo”, explica a especialista. De forma geral, a expectativa da quantidade de coisas que queremos lembrar não corresponde à realidade. Ou seja, o acesso a nós é maior, mas a nossa capacidade de responder é a mesma de sempre. Ou quase: o cérebro, de fato, se adapta, mas a passos lentos, e nós ganhamos a capacidade de gerar mais coisas ao mesmo tempo, só talvez não na quantidade que gostaríamos. “O cérebro está se adaptando, mas não à altura do nosso desejo, não temos uma megamente”, diz a neuropsicóloga.

 

Ganhamos a capacidade de gerar mais coisas ao mesmo tempo, só talvez não na quantidade que gostaríamos

 

 

Memória X Atenção


CuidadosEis um tópico em que as pessoas se confundem bastante e há aí uma distinção muito relevante: memória e atenção são coisas diferentes. Segundo a dra. Sílvia, a memória em longo prazo é relativamente ilimitada – você pode sempre aprender mais. Já a atenção é bem diferente: você pode ver dez coisas ou 1 milhão ao mesmo tempo, mas vai guardar de três a sete. O dr. Thiago Rivero, diretor da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, usa a Teoria do Gargalo para explicar como funciona a nossa atenção: “É como se tivéssemos um funil na cabeça: a informação vai ‘descendo’ e o cérebro absorve o que pode, o resto fica de fora. Enquanto você processa uma informação, tem mais diversas outras disputando a sua atenção, que não consegue assimilar”.

E nós caímos na ilusão de que vamos conseguir nos lembrar de tudo porque a nossa percepção é muito maior do que a nossa capacidade de atenção – somos bombardeados por milhares de e-mails, mensagens, fotos, textos, ligações, piadas, cobranças o dia inteiro, mas só conseguimos processar voluntariamente poucas delas. E esses lapsos, que preocupam tanta gente, são muito mais um problema de atenção – quando a informação nem chega a ser registrada – do que de memória – quando você já conhece a informação, mas, por algum motivo, não consegue trazê-la de volta.

O dr. Thiago ainda ressalta outro ponto importante, desfazendo um mito em que muitos acreditam: não existe atenção dividida, ou seja, você não consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo. Não bem, pelo menos. “Se você está fazendo uma coisa e resolve começar outra, a segunda vai, certamente, ter bem menos qualidade”, ele diz. Mas, para quem gosta de executar várias tarefas (quase) ao mesmo tempo, uma boa notícia: a atenção alternada é possível e bastante comum; nós temos capacidade de mudar de estímulo rapidamente.

 

A melhor forma de cuidar da memória é aquela que você já imagina: diminuindo o ritmo

 

 

Organizando o cerébro

 

CuidadosA melhor forma de cuidar da memória é aquela que você já imagina: diminuindo o ritmo. Entender que não somos supermáquinas e não ceder às pressões – pessoais, profissionais e sociais – ajuda. A dra. Sílvia desenha a intersecção fatal para a memória: “Aspectos emocionais, como autocobrança, ansiedade, depressão, somados à demanda exagerada e à nossa real capacidade de prestar atenção e memorizar”.

O dr. Thiago endossa no que diz respeito às emoções: “Fatores emocionais influenciam demais a performance da memória e da atenção, atrapalhando o cérebro e a capacidade cognitiva. Não é só o ambiente a mil por hora, mas a ansiedade de não saber lidar com esse ambiente afeta bastante”.

E turbinar o desempenho do nosso cérebro, dá? Dá, mas requer muita organização e planos estratégicos, como utilizar a nossa capacidade gerencial e métodos de distribuição de tarefas. Os dois especialistas listaram algumas dicas e ideias para quem quer ter memória e atenção de ferro:

* Associar e repetir na hora de codificar a informação. “Fazer mais do mesmo turbina a cabeça”, diz a dra. Sílvia Bolognani

*Facilitar a assimilação da informação com auxiliadores externos, como agendas, calendários, alarme do celular, e-mail etc. “Não confie sempre no seu cérebro. Na dúvida, anote”, ensina a neuropsicóloga

*Ter um estilo de vida saudável que inclua boa alimentação, atividade física, sono adequado e meditação

*Dar atenção plena ao que você estiver fazendo, além de pausas ao longo do dia para revisar o que foi feito

*Planejar, sobretudo os dados importantes, que você precisa lembrar. “Você tem que saber o que quer lembrar e, de tempos em tempos, checar se a memória está lá, fresca”, ela diz

*Aprender, não decorar. “O aprendizado é uma memória transformada. Ter prazer nas atividades intelectuais facilita guardar o conhecimento adquirido”, explica a neuropsicóloga

*Não forçar a memória. Não conseguimos guardar tudo e acessar na hora que quisermos

*Ter boas estratégias de saída nas situações de tensão. ”Se você começa a se estressar, perder as estribeiras, a primeira coisa a ir embora é a memória. Não conseguimos nos concentrar nem nos lembrar de nada importante. É preciso ter meios para cair fora, relaxar, acalmar o cérebro”, explica o dr. Thiago

*Controle ambiental e a sabedoria do não-controle. Podemos ajustar algumas variáveis como ter uma mesa organizada e tudo de que precisamos por perto. Mas também é preciso saber abrir mão das coisas que estão fora do nosso alcance. “As pessoas ansiosas são obcecadas por controle, mas algumas coisas não são controláveis. Temos que pegar mais leve”, ele diz

*Ter bom repertório. “Aumente o conhecimento do mundo para reduzir a sobrecarga na memória”, ensina o especialista

 

7 Pecados da Memória

 

CuidadosConheça os aspectos que tornam a nossa mente não tão confiável assim:

1. Transitoriedade

enfraquecimento da memória com o passar do tempo

2. Distração

ruptura entre a atenção e a memória

3. Bloqueio

afeta a busca da informação no momento da evocação

4. Cometimento

equívoco, engano em relação a uma informação

5. Sugestionabilidade

lembranças criadas quando tentamos recordar de algo do passado

6. Distorção

influência do nosso conhecimento atual e opiniões sobre o modo como nos lembramos do passado

7. Persistência

recordação de informações significativas ou perturbadoras que preferimos não lembrar, mas que permanecem presentes; é relacionada também à dificuldade de inibir informações

[ FONTE Dra. Sílvia Bolognani, neuropsicóloga do Departamento de Psicobiologia da Unifesp. Dr.  iago Rivero, neuropsicólogo e pesquisador da Unifesp. Diretor da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia ]

Para saber mais:

 

Livro The Multitasking Mind

www.worldcat.org/title/multitasking-mind/oclc/607986732?lang=p

por Alana Della Nina - ilustração: Zé Vicente
Cuidados