A ciência brasileira no topo do mundo

O trabalho da médica Celina Turchi é reconhecido internacionalmente. E não é para menos! Ela está à frente das pesquisas que identificaram o vírus Zika como o grande responsável pelos casos de microcefalia. Saiba mais sobre essa trajetória na entrevista exclusiva a seguir

A cientista foi a responsável por formar uma rede de especialistas – o Grupo de Pesquisa da Epidemia da Microcefalia – MERG – que desenvolve projetos epidemiológicos sobre o Zika desde 2015. Driblando desafios que brotavam pelo caminho (falta de recursos, conhecimento limitado sobre a doença na literatura mundial, entre tantos outros), Celina Turchi comprovou e demonstrou ao mundo em tempo recorde a relação do vírus Zika com a microcefalia.
Já em 2016, a médica colheu os frutos do seu trabalho sendo escolhida pela prestigiada revista científica Nature como uma das dez cientistas mais importantes daquele ano. De lá para cá, vem sendo citada e homenageada em diferentes premiações. Apesar da notoriedade, a estudiosa se vê como uma “representante” dos colegas que ainda se dedicam arduamente a entender a Síndrome da Zika Congênita (SZC) – atual denominação da infecção congênita pelo vírus Zika.
Formada em medicina pela Universidade Federal de Goiás, cursou mestrado em Epidemiologia na London School of Hygiene and Tropical Medicine e fez doutorado na Universidade de São Paulo. Durante sua trajetória, contou com Bolsas de Pesquisa do CNPq que lhe possibilitaram intenso intercâmbio com a comunidade científica nacional e, também, internacional. “Minha vida acadêmica foi no Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da UFG, onde estabeleci parcerias importantes com pesquisadores – muitos deles, mulheres –que estudavam as doenças infecciosas”, conta. Atualmente, a médica atua no Instituto Aggeu Magalhães – Fiocruz-Pernambuco como pesquisadora visitante com foco em arboviroses (infecções transmitidas por insetos). Nesta entrevista para a revista One Health, fala sobre o início das suas pesquisas, sobre a construção de uma equipe para a investigação do vírus Zika, os desafios, as vitórias, enfim, todo o processo que lhe permitiu abrilhantar a ciência brasileira.

One Health Como você deu início às pesquisas que relacionam a microcefalia com o vírus Zika?
Celina Turchi Em 2015, a Secretaria da Saúde de Pernambuco foi comunicada da ocorrência de casos de microcefalia e profissionais da saúde constataram a informação na comunidade. Havia uma grande comoção das mulheres que tiveram filhos com microcefalia, medo das gestantes quanto ao desfecho de suas gestações e cobrança de respostas. Sem as informações necessárias para o enfrentamento desse evento, a Secretaria da Saúde de Pernambuco comunicou ao Ministério da Saúde sobre a epidemia e pediu apoio ao Instituto Aggeu Magalhães – IAM como um braço de pesquisa. Nessa altura, surgiram as primeiras suspeitas (imunizações durante a gestação, exposição a larvicida e infecção pelo vírus Zika). No entanto, a hipótese de uma possível associação entre o vírus Zika e microcefalia foi formulada pelo médico Carlos Brito. Ele observou que no início de 2015 ocorreu um surto virótico – parecido com a dengue – e após aproximadamente seis meses um aumento expressivo de casos de microcefalia. Como pesquisadora visitante do Instituto Aggeu Magalhães, fui convidada a organizar um estudo para testar essas hipóteses.

De que forma surgiu a suspeita da relação entre a microcefalia e o vírus Zika?
No início da epidemia de microcefalia, os exames de imagem sugeriam uma doença infecciosa. Mas o aspecto das crianças afetadas não se assemelhava às microcefalias de causas infecciosas conhecidas e não havia relato na literatura de uma epidemia recente com tal dimensão e tais características.
Os novos casos precisavam ser testados para doenças infecciosas já conhecidas por causar danos cerebrais, denominadas TORCHS (toxoplasmose, rubéola, sífilis e citomegalovírus). E, como a epidemia de microcefalia foi precedida pela de Zika em Pernambuco, o doutor Carlos Brito levantou a hipótese de riscos causados pela exposição à infecção na gestação.

Como foi para você reunir um grupo tão diversificado para pesquisar sobre o assunto?
No primeiro momento, pesquisadores do Aggeu apoiaram a análise dos casos enquanto as principais instituições de saúde do estado definiam as bases de uma cooperação interinstitucional. Essa articulação evoluiu para a formação do Grupo de Pesquisa em Microcefalia Epidêmica (MERG), com o intuito de buscar respostas para os casos de microcefalia registrados no Brasil. A equipe é composta de pesquisadores ligados a diversas instituições: Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CPqAM/Fiocruz-PE), Universidade de Pernambuco (UPE), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Secretaria da Saúde do Estado de Pernambuco (SES/PE), London School of Hygiene and Tropical Medicine (UK), Universidade de Pittsburgh
(EUA), Fundação Altino Ventura (FAV), Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). O grupo trabalha em estreita colaboração com os profissionais da saúde que atendem pacientes em ambulatórios de referência. O MERG também tem atuado com representantes da Secretaria da Saúde de Pernambuco e do Ministério da Saúde do Brasil, além de ter selado parcerias com instituições de todo o mundo.

Qual foi a sua maior dificuldade durante esse processo?
O maior desafio foi o de trazer respostas com o devido rigor científico em tempo oportuno, considerando as etapas relacionadas à disponibilização de recursos e agilização para produção de kits diagnósticos que fazem parte do processo.

Por que o vírus Zika afeta alguns bebês e outros não? Vocês já encontraram uma resposta para isso?
O período de aquisição da infecção pela gestante parece ser importante para a ocorrência de danos nos bebês. Por exemplo, mães infectadas no primeiro trimestre da gestação tendem a ter maior probabilidade de transmissão do vírus ao feto, e maiores efeitos nos neonatos. No entanto, há muitas lacunas que ainda precisam ser respondidas relacionadas à infecção pelo vírus Zika e acredito que a sua pergunta é uma delas.

“O maior desafio das pesquisas foi trazer respostas com rigor científico em tempo oportuno, considerando os recursos disponíveis”

 

 

De que forma as diversas pesquisas ajudam no tratamento de casos de microcefalia?
De forma muito simplificada, o estudo das alterações neurológicas de crianças com microcefalia foi um marco para o diagnóstico da Síndrome da Zika Congênita (SZC). As pesquisas são também de extrema importância para orientar as intervenções voltadas para a estimulação precoce ou tardia, com fisioterapia, fonoaudiologia e outras terapias.

Há outras desordens neurológicas relacionadas ao Zika?
A microcefalia é a manifestação mais evidente da SZC, mas não é a mais frequente. Ela é somente a ponta do iceberg, o que é mais visível na população. Em crianças expostas e sem microcefalia, observam-se ainda retardo do desenvolvimento neuropsicomotor, comprometimento visual, comprometimento auditivo e epilepsia. A infecção depois do nascimento pode evoluir para quadros de encefalite, meningoencefalite, mielite, paralisias flácidas agudas, encefalomielite disseminada aguda (ADEM) e para a Síndrome de Guillain Barré (neuropatia aguda com paralisia que tem mecanismos imunológicos bem definidos relacionados a outras várias infecções – dengue, herpes-vírus, HIV, CMV e HTLV1).

Quais foram as maiores recompensas dessa pesquisa pessoalmente e profissionalmente?
Foram muitas. Posso citar a possibilidade de ter conseguido alavancar a formação de um grupo de pesquisa multi-institucional composto de cientistas com experiência dentro e fora do País – o MERG. Foi muito gratificante coordenar um trabalho conduzido com esse grupo, que veio preencher uma importante lacuna do conhecimento relacionada à epidemia de microcefalia devido à infecção pelo vírus Zika. Ter tido o reconhecimento expresso em diversas premiações e menções honrosas conferidas pela mídia e comunidade científica, dentro e fora do País, é claro, me deixa ainda mais satisfeita.

Como é para você representar os cientistas brasileiros na lista das pessoas mais influentes do mundo?
É uma grande honra fazer parte do grupo MERG. Mas também é uma responsabilidade e um desafio sem tamanhos, pois há um longo caminho pela frente apontado pelas diversas lacunas do conhecimento relacionadas à infecção pelo vírus que precisam ser respondidas. Uma representante brasileira com destaque no cenário internacional mostra que a ciência nacional está à altura de grandes desafios. Acredito que o investimento na Ciência, particularmente na área da saúde, é uma questão de segurança nacional e precisa ganhar destaque.

Quais são seus projetos futuros?
Dar continuidade aos estudos da infecção pelo vírus Zika e outras arboviroses. Não tenho tido muito tempo para planejamentos futuros, mas esses são os meus planos!

Como você avalia atualmente o nível das pesquisas científicas brasileiras?
Acredito que a comunidade científica brasileira se mostrou à altura para responder a uma emergência de saúde pública. Temos que lembrar que a Síndrome da Zika Congênita foi inicialmente identificada, caracterizada e estabelecida por competentes profissionais da saúde brasileiros. Feito de grande relevância nacional e internacional!

Quais são as maiores dificuldades do cientista brasileiro que trabalha aqui no Brasil?
Falta de recursos é, sem dúvida, a maior dificuldade! A manutenção de equipes treinadas e entrosadas, assim como uma boa infraestrutura em saúde, é fundamental para a pesquisa. Além disso, necessitamos de uma rede de serviços de saúde com profissionais bem treinados, porque eles são essenciais para o atendimento das populações e monitoramento das doenças já conhecidas e das novas epidemias.

Existem grandes nomes de mulheres brasileiras dedicadas à Ciência. O que você poderia deixar como mensagem para essas representantes?
Para as colegas, digo que o exercício das profissões na área da saúde é desafiador, mas também traz oportunidades enormes. Puxando para o meu lado, posso dizer que estudar os modelos de transmissão de novas infecções, com aplicação na prevenção de doenças, é extremamente gratificante. Sem deixar de mencionar quanto sou grata a todos os colegas de profissão, alunos e familiares (eternos incentivadores!) que muito me ensinam e me apoiam nesta caminhada.

 
“Há um longo caminho pela frente apontado pelas diversas lacunas de conhecimento relacionadas à infecção pelo vírus que precisam ser respondidas”

Texto: Patricia Boccia | Fotos: Infoglobo
Entrevista